Era
Não escolhi a resiliência, ela foi a única saída em um cenário onde a fragilidade era punida com o esquecimento.
A nostalgia é um veneno de sabor doce que a gente toma todas as noites, acreditando que o ontem era melhor apenas porque o hoje dói de um jeito novo. Ficamos viciados no que fomos, enquanto o que somos se desfaz como fumaça entre os dedos cansados.
A vida não me moldou com cuidado, ela me atravessou até que eu descobrisse o que em mim era inquebrável.
O que eu era não resistiu ao tempo, ficou como poeira em um quarto fechado, não me reconstruí, apenas atravessei o que me quebrou eno que restou, ainda há algo que insiste. Eu sobrevivi.
Aprendi a sobreviver em terrenos áridos, onde o afeto era escasso e o silêncio, regra. Hoje, mesmo diante do amor, a leveza ainda me causa estranhamento, como se meu corpo tivesse desaprendido o descanso.
Ser forte nunca foi uma escolha. Foi a única alternativa que restou. Quando desmoronar não era permitido, fui obrigado a continuar. E seguir, sem forças, tornou-se a minha forma de existir.
A lagarta acreditava que o casulo era o seu túmulo. Debatia-se contra as paredes estreitas, lamentando a perda da liberdade. O que ela não sabia era que algumas prisões não existem para nos limitar, mas para nos ensinar a voar sem medo da altura.
- Tiago Scheimann
Descobri tarde demais que a liberdade não era um presente.
Era uma sentença.
Ninguém me empurrou para os erros que carrego.
Ninguém escolheu por mim os caminhos que me quebraram.
A vida apenas colocou as portas diante de mim e observou, em silêncio, enquanto eu escolhia qual delas me destruiria.
- Tiago Scheimann
Às vezes olho para trás e não sinto saudade de quem eu era. Sinto pena. Pena daquele homem que acreditava que a dor tinha um propósito, sem saber que algumas feridas simplesmente acontecem, permanecem e envelhecem conosco.
De olhos fechados
Beijos, mas não era a boca dela!
Toque, mas não eram as mãos dela!
Cheiro, mas não era o perfume dela!
Aconchego, mas não era o corpo dela!
Sussurros, mas não era a voz dela!
Carinho, mas não era a pele dela...
Então, ele fechou os olhos.
De olhos fechados, a encontraria, a tocaria, a sentiria...
De olhos fechados, sairia dali, iria onde quisesse...
De olhos fechados, sentiria os seios fartos, a cintura fina, a voz dengosa, o corpo trêmulo, o sorriso fácil, lânguido...
De olhos fechados!
E assim teria que viver...
De olhos fechados!
Só assim teria a chance de sentir outra vez tudo o que havia perdido...
Já era tarde da noite. Fazia muito frio.
Dividíamos o mesmo táxi.
- Então, vai mesmo voltar ao Brasil?
- Vou sim. Prefiro amor.
- Você acredita mesmo no amor? Perguntou-me, e gargalhou. Gargalhou muito.
- Acredito sim. E fechei-lhe a cara.
Pois é...Desculpa ter até quebrado o gelo com a minha grosseria.
Eu deveria mesmo era ter gargalhado junto contigo.
Quando você desaparecer definitivamente, todos entenderão o quanto sua presença era extremamente valiosa.
Prova Viva.
Cresci onde o asfalto era quente e o futuro era escuro
Várias pedras no caminho e o peito batendo no muro
Minha coroa dobrava os joelhos pra eu não quebrar na esquina
Aprendi que a dor ensina mais que qualquer doutrina
Peguei meu peso, olhei no espelho e encarei a verdade
O mundo lá fora cobrando o preço da vaidade
Mas tinha uma brasa guardada no fundo do peito
Que nenhuma tempestade apagava do meu jeito
Eles tentaram me deixar pra trás na escuridão
Mas o silêncio me deu asas pra sair do chão
Eu ardi no fogo, mas ele não me consumiu
Sou o que restou de tudo que o inverno frio não destruiu
Não nasci pra aceitar aplauso que é vazio e some
Eu prefiro a minha raiz cuidando do meu nome
Sou feito de cinza, sou feito de fé!
De toda queda que tive, eu voltei de pé!
De tudo que doeu e a alma não quebrou
Do orgulho que foi e do amor que ficou
Cada cicatriz ainda tem meu endereço antigo
Mas o fogo que queima é o que caminha comigo!
Queriam me dar o ouro falso que pesa na mente
Queriam o meu palco, mas não a história da gente
Fiz pacto com a verdade e não mudo o meu rumo
Se o preço do sucesso é mentir, eu não consumo
Vitória de verdade acontece no quarto trancado
De joelhos, no silêncio, com o peito blindado
Só eu e Deus sabemos o que eu passei na estrada
Pra hoje estar de pé sem dever nada pra canzoada
Sou feito de cinza, sou feito de fé!
De toda queda que tive, eu voltei de pé!
De tudo que doeu e a alma não quebrou
Do orgulho que foi e do amor que ficou
Cada cicatriz ainda tem meu endereço antigo
Mas o fogo que queima é o que caminha comigo!
O fogo que me destruiu...
Foi o mesmo que me refez.
Não sou mais quem eu era.
Sou o que a cinza moldou.
Era ela
Estava triste, cabisbaixo, as lágrimas escorriam lentamente pelos meus olhos; um vazio profundo. Mas, de repente, uma voz doce e suave me perguntou: por que choras, poeta? Por que choras, poeta? Ah, meu deus, era a moça do sorriso lindo! A moça das flores, a musa dos meus versos. Ah, meu deus, era ela! Era ela! Era ela!
