Era
Sinto que era destino te conhecer.
Foi como se teu olhar tivesse atravessado todas as estações para pousar na minha primavera agora.
Parece que o tempo com você tem outra velocidade, mesmo quando estamos só parados.
O tempo perto de ti corre rápido, quase cruel,
como se soubesse que eu quero mais e tentasse escapar.
Cada dia ao teu lado é outro mundo
que se abre, inesperado e inteiro,
e cada segundo corre tão rapidamente
enquanto eu tento guardar cada parte de você pra depois.
Cada novo amanhecer que te inclui é singular, desenhado só para você e eu.
E quando me despeço, é como se tivesse deixado um pedaço de mim contigo.
Mal viro as costas e já te quero aqui.
Você me trouxe algo que eu nem ousava mais pedir. A esperança de ser amada de verdade.
Não como um disfarce, não como uma promessa falsa, mas como uma vontade de ficar. Alguém que fique.
Então esta é a nossa fronteira. A linha entre o que somos e o que seremos. O quase início. O quase caso definido.
E eu quero mais.
Quero mais dias sem pressa, mais olhares demorados, mais descobertas que só se fazem com o tempo.
E ainda assim, dentro de tudo isso,
o meu querer cresce.
Quero mais dias, mais risos, mais descobertas, mais desse nós que inventamos juntos.
Quero a permanência, o cotidiano, quero chegar ao nosso destino final.
Escrevo tudo isso porque às vezes as palavras me escapam quando te olho,
porque o silêncio que nasce entre nós já diz muita coisa, mas quero que saiba:
Sinto com você a vontade de ficar, de construir, de te escolher de novo a cada dia.
E o que era para nós amar, não amamos.
E o que era para nós esquecer, não esquecemos.
"Porque valorizamos o inimigo e desprezamos o amigo."
E o que era para nós esquecer, não esquecemos.
"Porque valorizamos o inimigo e desprezamos o amigo."
Não ter dado certo antes;
Não significa que não tenhamos tentado certo ou que era literalmente errado!
Às vezes só dá errado o que não é o melhor para nós.
Olhe pra mim, eu era assim, você pode mudar, o mundo pode mundar. Sempre há uma saída. A garrafa gira para tudo que é lado.
O Odor do Caos
Era fim de tarde na rua Cecília.
Catorze homens jogavam futebol no campo de terra, rindo alto, enquanto a poeira dourada do sol cobria tudo.
De repente, um carro vermelho parou ao lado do campo.
Dele desceu uma moça de cabelos longos e olhos flamejantes.
Com voz calma, pediu ajuda para trocar o pneu furado.
Por um instante, o jogo cessou.
Os homens se entreolharam, silenciosos, mas quem se aproximou foi Jorge — um homem negro, alto, de cabelos compridos.
Quando ele a viu, algo dentro dele se rompeu.
Como se uma voz antiga, enterrada na carne, despertasse.
Um instinto primitivo, misto de medo e desejo, ascendeu nele como febre.
E então ele começou a falar — palavras duras, quase blasfemas —
profecias nascidas do fundo escuro de si mesmo.
Falava como se fosse um mensageiro de algo maior,
exigindo que ela se rendesse,
que aceitasse uma submissão absurda, quase sagrada.
A tensão cresceu no ar.
Os outros observavam, sem saber se assistiam à loucura ou à revelação.
Então, Mariana — amiga de Jorge, que estava próxima — decidiu agir.
Sem dizer uma palavra, correu até o cercado onde sete cachorros estavam presos e abriu o portão.
Os animais dispararam, excitados e famintos, e avançaram com fúria.
O caos começou.
Gritos se misturaram ao barulho do metal e ao som seco dos corpos caindo.
Os cães devoravam carne e poeira, enquanto um cheiro espesso se erguia no ar — o cheiro do sangue.
Era o odor do caos.
Algo antigo e primitivo havia despertado.
Um motim — uma fúria coletiva, selvagem — tomava conta de todos.
Ninguém compreendia o que estava acontecendo,
mas todos, de alguma forma,
queriam um pedaço.
A Casa de Jorge
Uma catarse bem feita era um caos anunciado,
na casa de Jorge, tudo era sagrado e profano, misturado.
Quando deixava a filha ir ao centro espírita, em paz,
perguntava-se em vão por que sua fé nunca mais.
Falava baixo, num tom de ironia e desvelo:
— Minhas crenças têm rosto, mas não têm espelho.
Covardes são deuses com forma e razão,
que pedem joelhos, mas negam o pão.
Virou-se à esposa e, num riso cansado,
disse: — Rosas e borboletas são belos pecados.
Mas de nada adianta beleza na pele,
se a fome é o que fere e o tempo repele.
A TV seguia o jornal — tragédia e ruído.
Jorge apenas via o mundo perdido.
Foi então que a filha, pela porta direita, entrou,
e o silêncio da casa, de leve, mudou.
Contou-lhe cinco amores, cinco quedas, cinco vias,
e cada história acendeu antigas nostalgias.
Por um instante, pai e filha se olharam contentes,
como se o tempo, cansado, parasse entre gentes.
Mas o tempo não cessa, é cruel e atento.
Trouxe com ele um último contratempo:
um estalo no gás, um sopro, um ardor,
e o fogo tomou o lugar do amor.
Explodiu o botijão, queimando os momentos,
os risos contidos, os sentimentos.
Restou o ar seco, o chão em ruína,
e a fé consumida na própria fuligem fina.
Assim, a catarse se fez, por inteiro,
limpando a dor, mas num fogo traiçoeiro.
E na casa de Jorge, entre cinza e verdade,
ardeu o milagre da humanidade.
Luccas Perottoni
O Rei de Pão e Covardia
Era uma vez um francês,
chamado Michael, burguês.
Três vezes por semana, inglês,
às seis da manhã, seu pão, sua altivez.
Comia em silêncio, convicto,
que o gesto o tornava distinto.
Um rei de café e costume,
com ares de classe e perfume.
Mas um dia, no velho trajeto,
o ônibus tomou outro aspecto.
A estrada virou confusão,
gritos, bandeiras, tensão.
Três homens bradavam na via,
contra a lei, contra a polícia.
Michael olhou — e reagiu,
sem saber por que o fez, fugiu.
De burguês virou milícia,
no susto, na própria malícia.
Um ato sem honra, sem guia,
feito no medo, na covardia.
E o povo, que nada entendia,
ergueu-lhe um trono — ironia.
Promulgaram-no rei por herança,
morto em sua própria arrogância.
Assim finda a realeza vazia:
um pão frio, uma fé tardia.
Um francês que quis ser alguém,
e acabou rei — depois, ninguém.
Luccas Perottoni
"Descobri que era e sempre serei um pecador, desde o momento que comecei àme julgar da mesma maneira que julgo os outros."
Seu olhar era cativante
Como navegar em maresias das sensações
Seus cabelos brilhava como sol
Que nascia cada dia
A cada andar o pulsar envolvia
Como chama ardente
Movimento dos detalhes das emoções.
Kaike Machado
Depois da dor, não quero mais o que era. Quero o que é real, mesmo que doa. Porque só o que é verdadeiro permanece.
Perdão sem palavras
(Eliza Yaman)
Não disseste “me perdoa”, e eu sabia:
teu gesto era mais puro que o perdão.
O tempo nos lavou com poesia,
e a dor se dissolveu na redenção.
Não há culpa onde o amor se refaz,
nem rancor onde o afeto é raiz.
Teu silêncio me deu tanta paz,
que até a mágoa se tornou feliz.
“Perdido”
Estou cansado e perdido, não posso mais esconder
Achei que era o errado, eu realmente tentei entender
A culpa não foi minha, agora vejo
O quão miserável se tornou esse seu cortejo.
Quantas partes você ainda quer tomar de mim?
Já não basta ter me tirado tudo enquanto nos olha com essa frieza sem fim?
Minhas memórias, infância, até meu riso você levou.
Por que ainda não está satisfeito com o quanto você me quebrou?
No fim do dia, nada vai mudar.
Seu soldado fiel e letal ainda estará ao seu lado quando ordenar.
Apenas me prometa algo, meu mestre…
Seja rápido, sem que nenhuma parte minha reste.
Eu te amei quando você não era nada,
Então decidi lutar para te dar tudo,
Forcei sua escalada, pesada, suada,
Enfrentamos o mundo,
Finalmente você alcançou,
Gloriosa no trabalho, bela para todos,
E na lama, o nosso amor lançou,
E de presente, ofereceu-me engodo,
No ápice da sua melhor situação,
Dividiu, se submeteu, se entregou,
O corpo entregue a podridão,
E a alma se envenenou,
Não fui eu o escolhido,
Para dividir a sua glória,
Na verdade eu fui tolhido,
A migalhas e esmolas.
O mundo analógico na era da inteligência artificial é uma grande oportunidade de aperfeiçoar o conhecimento.
Vi você partir,
e o mundo desabou em silêncio.
Cada passo seu afastando-se
era uma lâmina no meu peito,
cada suspiro deixado para trás
uma dor que se instalava devagar.
E mesmo sem você,
aprendi a caminhar sozinho,
com a memória do que vivemos
como guia na estrada do que virá.
K.B
