Isadora Bastos
Verso de Sombra e Luz
Cala-se o mundo, descansa o olhar,
No tom da cinza, me deixo encontrar.
Não preciso de cores para transbordar,
Pois no preto e no branco, a alma sabe falar.
Meus traços são versos, contornos da história,
Guardados no tempo, em viva memória.
Sem luz excessiva, mas cheia de glória,
Sou eu, em silêncio, minha própria vitória.
O Inventário do Invisível
Talvez não tenhas me perdido num golpe,
num corte súbito de adaga ou de vontade.
Foi, antes, um desatar de nós mansos,
um esquecer-se de ser por pura distração da memória.
Não houve o estrondo da renúncia,
apenas o passo que, de tanto não voltar,
esqueceu o rastro do caminho.
Havia, outrora, um vulto, um breve estio,
um pólen de mim que pousava em teus dias;
uma cintilação de que eu, de algum modo,
atravessava o teu horizonte.
Hoje, o que resta é o vácuo, essa arquitetura muda.
E o silêncio não é ausência de som,
é o peso de um espaço que desistiu de ser preenchido.
Talvez não tenha faltado querer,
talvez tenha sobrado tempo, esse rio voraz
que carrega as margens que não são de pedra.
E eu, náufrago de um cais que nunca se firmou,
procuro o instante preciso da minha transparência:
quando foi que meus passos deixaram de ecoar no teu chão?
Ou terá sido minha alma, em seu delírio,
que desenhou cidades onde havia apenas deserto?
O Alento da Ausência
Outrora, eu era vigília e fresta,
ansiando o teu olhar como quem acende a luz
no cais de uma espera deserta,
suplicando ao horizonte que te trouxesse de volta.
Hoje, as sombras me bastam.
Prefiro o abismo desse silêncio inteiro
à tua presença fragmentada, que não habita apenas visita.
Pois o que oscila entre o vir e o partir
não oferece abrigo; apenas turva o cristal da memória.
Ver-te agora, ainda que sob o véu da distância,
não é bálsamo, mas interrogação.
Cansou-me o fardo dos intervalos,
os sinais que desbotam antes de se tornarem rastro,
esses quase-encontros que são, em verdade, desertos.
Se o teu destino é o não-estar,
que a tua ausência seja, enfim, absoluta e limpa.
Sem o eco de passos breves,
sem o toque fantasma que tateia mas não sustenta.
Há uma quietude austera em renunciar à espera.
Descubro, no vagar dos dias, a lição mais difícil:
que o esquecimento, por vezes,
é a forma mais profunda de zelar por si.
3 de maio
Hoje, finalmente, colhi os teus restos
dos cantos onde nunca criaste raízes.
Não houve o estalo súbito da raiva,
apenas o peso manso da exaustão:
o cansaço de mendigar afetos em migalhas,
de te buscar no avesso de palavras vãs,
e de habitar, precária, esse intervalo
entre a promessa que vinha
e o rastro que nunca ficava.
Fechei a porta.
Não por falta de sangue ou de ferida,
mas porque o vão aberto era um abismo
que me roubava o chão.
Apaguei os teus rastros como quem limpa o vidro
de uma estrada que findou em muro.
Agora, há um silêncio novo sob as costelas.
Não é o vácuo da perda,
mas o ruído surdo de quem se reorganiza.
Pois soltar não é o eclipse da memória,
é a consciência tardia
de que as mãos já não suportam
o peso de um fantasma.
Se um dia o meu vazio te alcançar,
que não te doa a falta.
Mas que te espante o fato de que,
entre o teu nada e o meu tudo,
eu finalmente me escolhi.
Vão Livre
Eu quis a permanência.
Houve em mim um esforço mudo,
uma arquitetura de silêncios
para tentar habitar o teu mundo
e encontrar pouso entre tuas certezas.
Mas eu era areia escorrendo entre dedos:
uma presença translúcida,
leve o suficiente para não ser rastro,
apenas um sopro que atravessa os teus dias
sem mover uma cortina sequer.
Eu possuía a voz contida,
mas o sentir era um oceano em fúria.
E, no entanto, nada em ti se deixava tocar.
Fui me acomodando nas bordas,
nos recônditos onde a luz desiste,
tornando-me sombra de mim mesma
para não perturbar o teu desenho.
Até que o corpo entendeu a lição:
não era a vontade que faltava,
era o chão que não existia.
Compreendi, enfim, que o amor não é poda.
E ninguém sobrevive onde o preço do abrigo
é a própria anulação.
Ninguém se demora
onde é preciso deixar de ser
para poder estar.
O Despiste do Porto
Ontem, finalmente, abri as mãos,
Não por coragem ou por desamor,
Mas pelo peso dos vãos e dos nãos,
Pelo cansaço de carregar o que é dor.
Soltei-te sem a leveza da brisa,
Com o tremor de quem se improvisa.
Doeu a ausência do que não nasceu,
A herança de um plano que mal floresceu;
Pois em meu peito havia um altar,
Erguido ao hábito de te esperar,
Um vício mudo de ler teus sinais,
Em ventos que já não sopram mais.
O abismo que hoje em mim se faz
Não é teu vulto, nem tua paz,
É o naufrágio do que imaginei,
Da ponte de vidro que eu mesmo tracei.
Fiz o que é justo, o que o tempo ordena,
Mas a retitude também me condena.
Soltar não é o fim do sentimento,
É apenas cessar o próprio tormento;
É decidir, em um gesto profundo,
Não mais se perder no erro do mundo.
Se amanhã a dor se fizer pequena,
Hoje a lição ainda é severa e plena:
Aprendo a existir, em silêncio e lugar,
Sem os meus olhos terem que te procurar.
