Era
caiu um pedaço de poesia
na minha mente e coração,
foi pura devastação
acho que era um meteoro
de palavras e letras,
desde então,
experimento
solidão
e noites
de pura insônia.
Saudade das nossas conversas
Que passavam do habitual
Onde o tempo era tão curto
E desejávamos a eternidade
Do nosso amor,
Eram sonhos constantes
Que abraçavam nossos caminhos.
Lembro de tempos
Onde minha preocupação era assistir desenho
Ir pra rua jogar bolinhas de gude
Empinar pipa
Brincar na chuva,
Hoje tenho saudades
Queria ser criança para sempre
E ter a liberdade em meus braços
Correr na rua sem saber que direção seguir
Mas, sabendo que chegaria em algum lugar.
Todas as vezes que um filósofo procurou enxergar a verdade como veio ao mundo, as luzes da razão eram imediatamente apagadas para que ela pudesse se recompor
Ao observar a escuridão tentei abocanhar as estrelas, vi que era um sonho, polvilhei com o branco açúcar das nuvens e recheei com o doce amargo do céu
A era tecnológica nos faz sonhar para um novo despertar, mas estamos cada vez mais aprisionados em nosso antigo modo de ser
A espada não cortava apenas carne — mas também a ignorância. Era um traço de luz em meio ao nevoeiro da mentira.
Não era só uma janela
Era uma janela com ela
Quase sem roupa, quase sem alma,
Quase suplicando
Vem...
Vem...
Vem...
Uma luta eterna entre aceitar o que eu era e fazer o que os outros queriam. Ainda hoje essa luta existe. Silenciosa mas voraz, íntima mas reverberante. Vivo um conflito constante, ser o que sou ou ser o que o mundo quer que eu seja.
PATO COM LARANJA
Gafanhoto era o nome do meu pato,
Gato era o nome do cachorro,
Cachorro era o nome do papagaio
E o meu gato era canalha
Que um dia sumiu pelos telhados
Atrás da sardinha da vizinha
Cantava uma canção que eu não entendia
Fazia estardalhaço com a sardinha
Quebrava as telhas... ninguém dormia...
Até que gato latia
Como quem dissesse:
Esse vagabundo não tem jeito...
Até que um dia
Canalha apareceu todo duro,
Os dentes trincados
Mas essa história deixa tudo meio escuro...
Sardinha teve filhotes canalhinhas igual ao pai...
Gafanhoto voou pro quintal da vizinha
E virou pato com laranja...
Foi um almoço e tanto,
Mas depois deu até policia...
Gafanhoto ainda voa nas minhas lembranças
E se banha numa lagoa
Que nem existia,
E ali ele conheceu outros patos
Gansos e cisnes tudo fruto da minha fantasia...
RODIN
E o bronze Luzia...
O bronze beijava...
O bronze não era mais fusco...
O bronze Luzia mais que o ouro
O bronze Luzia mais que tudo.
O bronze amava e se multiplicava...
O bronze tinha vida.
O bronze se despia...
O bronze se exibia,
Mas não era vulgar, nem era um acinte...
O bronze tinha vida,
O bronze tinha formas humanas
E se preocupava...
O pensador pensaria mais nas dádivas de Deus,
Nas dádivas do gênio ou nas dívidas?
O bronze era filho do gênio,
O gênio era filho do barro,
O barro era criação de Deus...
Era a genealogia...
COMEÇO
Seis vidas passadas a lua era minha,
Era minha a rainha de ouro, a dama de espada,
Por sobre os telhados das casas era eu que comandava
A burguesia e o proletariado
Eu pisava a relva como um guerreiro,
Vitorioso depois da batalha,
Sabia que águas correntes e águas paradas
São lágrimas de arrependimento
Dos que caíram por amor...
Seis dias atrás eu ainda era
Um vitorioso nas minhas empreitadas,
Perdera parte do baralho,
Mas ainda tinha um trunfo, um coringa,
Tinha um sorriso na parede,
No quarto uma silhueta feminina,
E uma moringa com água fresca,
Pra matar a minha sede...
Seis minutos atrás diante de um sorriso
Não havia uma batalha que eu não tivesse vencido
Há seis segundos atrás, diante de um olhar
Eu não sabia o que dizer,
Eu aprendi o que é ansiedade,
Eu descobri este lado frágil,
Eu comecei a viver...
Um dia
Um dia um olhar me atravessou
E o que era lúcido
O que era translúcido
Vadiou na luz da noite,
Partículas de água marinha
Brincaram nos pingos de opalas,
Chovia rubis e cristais,
No orvalhar da matina
E a transparência do amor
Mostrou tons de turmalinas,
Um dia um olhar me atravessou na manhã,
E a luz desse olhar inundou o meu ser
E me fez transparente de felicidade...
UM POUQUINHO DE MIM
Todos os poemas que fiz,
Nos momentos que pensei
Que era triste ou infeliz,
Todas as palavras que falei
Ou tudo que deixei de dizer,
Todos os beijos por compaixão,
Por paixão ou por prazer...
Por tudo que eu disse sim,
Ou tudo o que eu calei
Quando não dizia não,
Por algum motivo á toa,
Todas as lembranças boas
Ou que eu julgava assim...
Foi por uma doce ilusão,
Que já ficou esquecida
E deixada para trás
Porque pensava infinito
O que era apenas bonito
Mas que logo tinha fim...
Por tudo isso eu digo,
Que todos os poemas que escrevi
Tinha um pouquinho de mim...
NAUFRÁGIOS
Umas me deitavam
Outras me cobriam
Sempre dei a sensação
De que era eu a caça
Era uma armadilha
E nunca deixei de ser ilha
E nesse mar de solidão
Elas se afogam
E pela madrugada
Vou recolhendo na lembrança
O que restou dos seus naufrágios...
TOQUES
Quantas vezes disse que era pra sempre,
sempre querendo entender o amor no olhar,
a tarde na praça, as nuvens no cume,
a criança no ancião...
sempre jurei pelos morcegos do final da tarde,
pelas cigarras no fim do verão,
apostando bombons de chocolates por beijos,
o amor se faz perene por desejos e sorrisos,
por toques e olhares,
por qualquer fato que valha uma exclamação...
devo seguir, acreditando na brisa do final da tarde
nas flores da primavera, nas histórias,
que seguiram cursos diferentes...
o amor continua na lua, em algo reminiscente
um perfume, um olhar insistente...
Quantas vezes disse que era pra sempre...
tantas vezes disse que era pra sempre,
sempre nas minhas introspecções...
Linda ilusão
Dolorosa paixão
Por que me abandonou
se era linda a ilusão
a falar dessa coisa infinda?
hoje fico a sonhar
com o que não me restou
e deliro com o prazer do passado
te vejo a caminhar
sobre o meu coração
governando o meu país
comandando a nação
me fazendo feliz...
lindo era o raiar do dia
teu corpo era o horizonte
onde a lua se punha
por onde o sol se erguia
a fonte desta energia
hoje fico a sonhar
sem nenhuma ilusão
não tenho força,
não tenho músculos
o horizonte sou eu mesmo,
sou eu esmo o crepúsculo...
