Ele
Hoje eu já acordei toda derretida , toda apaixonada . E eu sou tão dele , tão dele e ele nem sabe! Ele está presente em cada pensamento do meu dia, em cada respiração, e eu queria que houvesse um modo de expressar isso , de me encher de coragem e gritar esse amor aos quatro ventos , mas sou covarde , sou covarde e tenho medo da rejeição e do abandono , por isso eu grito pela minha escrita , minha poesia , meus versos mal elaborados e insanos
Se você me perguntar sobre meus versos, se são para você ou para ele confesso que não sei.Antes eram para você, agora são para ele, mas quem sabe no fundo meus versos não sejam para nenhum de vocês e sejam para mim mesma...ou quem sabe sejam de outro, alguém que o destino colocará na minha vida mais cedo ou mais tarde...E quem é que sabe o dia de amanhã? O amor pode ser um buquê de rosas ou uma cicatriz que corrói, hoje se ama, amanhã não se ama mais, depois de amanhã é sexta- feira e ninguém sabe o que pode acontecer.
E se me perguntar o porquê de dar um tapa nele eu nem sei dizer. Foi resultado de ele ter me deixado, foi resultado de ter vindo atrás e pedido perdão, foi o fruto de meu orgulho venenoso que se misturou a uma saudade traiçoeira. Foi o amor gritando para ser ouvido nas trevas que eram o meu coração.
Tudo era tão simples e podia dar tão certo!Eu e ele, isso bastava para dar certo, o resto do mundo não tinha nada que ver com isso. A gente conversava,a gente brigava, a gente ria e isso bastava para dar certo.Não importava a opinião dos outros, não era preciso orgulho, nem disputas, nem ciúmes.O amor de verdade é simples, as pessoas é que são complicadas...
Eu o procurei por todos os lugares, do palco até a porta, das mesas até os banheiros , e nada, ele não estava em lugar nenhum além de em meu pensamento. E parecia incrível , mas todos os caras ao meu redor tinham seu perfume , sua risada ou sua fisionomia. Ele nublou meus olhos, por isso todo cara que eu via se parecia com ele , ele confundiu minha mente, e desde então eu não pensava em mais ninguém, ele mexeu no meu coração , e daquele momento em diante me impossibilitou de amar qualquer pessoa que não fosse ele.
Depois daquele fora, daquele choque, daquela ofensa, eu comecei a rir de maneira histérica. Ele pediu se eu era louca e me deu as costas.Continuei rindo por mais um tempo, porque rir era a única coisa que eu me permitia fazer, porque eu ria para não chorar, porque rir de tudo é desespero.
Ele disse que precisava ir, que tinha um jogo de futebol ou qualquer coisa do tipo e deu um beijo no rosto das garotas presentes. No meu caso, não. Ele pegou minha mão e a beijou. Não sei porque ele fez isso; se foi porque me desprezava para dar um beijo no rosto ou se foi porque eu estava muito longe. Eu nunca vou saber o porquê. O fato é que ele beijou minha mão de forma cortês e saiu. Ele me beijou a mão, se fosse o rosto ou a boca eu não teria ficado tão vulnerável, tão frágil, tão fácil, tão dele...Por um segundo eu fui dele e ele nem percebeu.
E quanto a ele, bem...Estive pensando e apesar de ele ter sido grosseiro, me falado aquelas coisas horríveis, eu sentia paz. Sentia paz por ter resolvido nosso impasse, nosso chove não molha, essa angústia que me dilacerava há mais de mês. Por mais que agora doesse, não doía ao ritmo de uma sinfonia de Beethoven, e sim ao ritmo de uma bossa nova e era como se o amor doesse em paz.
E eu e minha amiga rimos e falamos de garotos, até que ela tocou no nome dele e eu disse como ele era idiota e que bom que estava fora da minha vida. Só que quando fui dormir, como todos os dias, ele ainda foi o último pensamento do meu dia. Quer dizer, o penúltimo, porque o último foi uma frase de Drummond: "essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca ,às vezes sara amanhã".
E ele estava sozinho e ele estava sofrendo e pagando por cada uma das minhas lágrimas derramadas, por cada gota de rivotril tomada. Isso me deu vontade de assistir um filme de Carlitos, correr uma maratona e morrer de rir.
Desde o momento em que ele entrou na sala, seus olhos não deixaram meu rosto. Chico Buarque diria que "ele me comia com aqueles olhos de comer fotografia" mas não era bem assim, pois seus olhos eram mais insistentes, mais selvagens. Eu corei inteiramente, mesmo tendo visto a cena com o canto do olho.E corada permaneci por uma hora, que foi o período que seus olhos iam e vinham me me analisando. Eu sei que você vai dizer que é impossível uma pessoa ficar corada por uma hora, que não é lógico, mas meu bem, amar não é nem nunca foi lógico, e se já foi, com certeza não era amor.
Talvez ele tenha me traumatizado com os aeroportos para sempre. Talvez eu esteja estragada e nunca mais consiga voltar a ser inteira. Talvez eu não consiga mais entrar num aeroporto e sentir a leveza e a calma na alma , e só consiga sentir angústia. Não sei. Talvez até Fagner esteja certo quando diz que "o amor deixa marcas que não dá pra apagar". Mas não fique triste por mim, porque eu não estou. E apesar de tudo, essa é minha vida: brilhante, surpreendente, poética e louca. Talvez o futuro seja azul, azul como o céu, o mar, o amor e a música do Djavan. Quem sabe tenha amor e poesia , ou quem sabe seja repleta de tragédias e escuridão, traumas e angústias. Eu não tenho como saber , mas nesse meio tempo eu aposto: aposto no sol que brilha, no amor que consome, nas músicas que alegram , nos sentimentos que nos salvam , nas escolhas que nos definem, e na sorte.
Ele riu de uma maneira deliciosa e isso fez meu peito ficar em fogo, como se fosse uma fera selvagem que eu tentasse domar. Eu ia repreender minha felicidade boba mas me contive. Há quanto tempo eu estava repreendendo minha felicidade e não a deixando ser plena, ser livre, flutuar nos céus como balões ? A vida era muito curta e talvez um amigo meu estivesse certo quando disse que devemos nos permitir sentir, deixar o coração ser selvagem, como na música do Belchior, e se libertar das amarras da razão.
Hoje foi um dia engraçado, pois eu me peguei tentando lembrar das músicas que relacionei a ele e ri alto por lembrar de apenas duas entre dezenas. Outrora aquelas músicas pareciam definir minha vida, como se as palavras desenhassem a trajetória da minha história com ele, como se ao serem cantadas espalhassem o meu amor pelos ares. E ele era a minha vida, as músicas eram pedaços fragmentados de minha própria alma e agora eram só palavras ao vento. São engraçadas essas voltas que a vida dá.
E quanto a ele...Ele já foi perturbação , já foi arrepio , já foi flor e espinhos. E acho que no fundo ele é mais espinhos do que flor , talvez por isso amá-lo seja sangrar de corpo e alma. Ele é instável, sendo às vezes brisa , às vezes tempestade e é tão mutável, tão volúvel, que jamais daríamos certo, mesmo que tentássemos por mil anos.
Ele disse como eu era linda enquanto me abraçava e eu pensei com surpresa que meu último namorado fazia a mesma coisa quando me abraçava e me surpreendi ao lembrar dele sem um pingo de saudade. Talvez meu amor por ele tenha voado para longe, ou congelado nas minhas veias, ou ainda, como gosto de pensar, ele tenha ido morar nos meus versos e assim viverá para sempre.
Senti satisfação quando ele me chamou, uma espécie de orgulho de mim mesma por ter algum tipo de poder sobre ele , exercer sobre ele alguma espécie de atração. Contudo, em momento algum meu coração palpitou , minhas mãos suaram e meu corpo tremeu. Isso fez eu me sentir como uma árvore oca e seca judiada pela geada , como se meu coração tivesse secado e não houvesse deus ou homem que o fizesse florir de novo. Talvez não haja.
Ele disse que eu tinha esgotado o vocabulário dele no
Inglês e para mudarmos a conversa para o português . Eu prontamente concordei e quase respondi a ele que se ele quisesse eu falava Inglês , Português, Latim , forçava um Espanhol e enrolava um Italiano, mas que a paixão não tinha idioma, que ela falava por si mesma , traduzindo nossos sentimentos e gestos de um jeito que só ela podia e nenhuma outra emoção era capaz.
Me falaram que meu amor por ele não fazia sentido, que ele era muito imaturo, idiota e egocêntrico. Mas o amor não foi feito para fazer sentido. O amor não tem cor, nem idade, nem religião, então quem dirá lógica! O amor não é um cálculo matemático, cheio de frações e diretrizes; ele é irracional como um animal selvagem, pulando sobre você quando você menos espera, não obedecendo a lógica ou a gramática, apenas os seus próprios instintos.
Eu me enchi de orgulho quando ela disse que percebeu que ela era muito para ele, que ele era pequeno, tinha uma mentalidade pequena e nenhum plano de vida. Ele apensas existia, como um vegetal, ou até menos insignificante, pois os vegetais pelo menos realizam a fotossíntese. Eu sei como é a sensação de ser muito para alguém e do muito dessa pessoa ser pouco, como se você merecesse mais, infinitas vezes mais do que essa pessoa poderia proporcionar, como se ela nunca estivesse disposta a crescer. "Eu quero ver meu bem quando cê vai querer crescer ", diria Djavan, mas a verdade é que certas pessoas não crescem. Certas pessoas ficam estagnadas no tempo e lhes falta amor, doçura e empatia, sendo que o amor de um só não é suficiente para suportar um relacionamento, pois ninguém é Atlas e relacionamento é ato bilateral.
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