Eco
Geração do eco vazio, ruído sem essência. Clama por validação, mas esquece o valor. Preenche-se de aparências e esvazia-se de propósito. Perdida entre telas e promessas, não sabe quem é, nem o porquê de existir. Busca as riquezas do mundo, mas ignora a maior delas: o sentido.
O Eco do Silêncio
Por Roseli Ribeiro
Caminhamos como fantasmas em uma multidão de espelhos,
Olhares fixos em telas que brilham no escuro,
Corações distantes, embora os corpos estejam perto.
A tecnologia, que prometia unir os mundos,
Criou abismos onde antes havia o calor de uma voz.
Nas mesas de jantar e nas calçadas da vida,
O silêncio das redes sufoca a velha cordialidade.
Amigos e famílias habitam a mesma casa,
Mas vivem exilados em seus próprios aparelhos.
Esquecemos o toque, o riso solto, o olho no olho.
Para as engrenagens frias do grande mercado,
Não temos rosto, história ou dignidade:
Somos apenas números em uma planilha descartável.
O progresso avança a passos largos e firmes,
Mas deixa para trás o trabalhador sem chances,
Pois o conhecimento ainda é um privilégio de poucos.
No topo do castelo, guardiões do poder legislam,
Com banquetes caros pagos com o suor do povo.
Enquanto o luxo deles brilha nos restaurantes,
A base da pirâmide luta pelo pão de cada dia.
Como moldar o amanhã se a lição do presente
É que a vantagem própria vale mais que a justiça?
Não há futuro no solo fértil da esperteza.
É preciso resgatar o humano antes que o mundo vire máquina.
EU, POEMA DE MIM
Sou verso antes da palavra,
eco antes do som,
mistério que se procura
no espelho do próprio dom.
Habito em muitas moradas,
sou plural em cada fim;
às vezes nem me conheço
quando faço poema de mim.
Sou o eu lírico que canta
o amor, a dor e a esperança,
que veste roupas de sonho
e brinca com a lembrança.
Sou o eu inanimado,
pedra, estrada e paredão;
dou voz ao banco da praça,
à enxada, ao velho portão.
Sou a poeira do caminho,
a folha seca a cair,
o relógio esquecido
que continua a seguir.
Sou também o abstrato,
o que ninguém pode tocar;
sou saudade, sou silêncio,
sou vontade de ficar.
Sou a dúvida da noite,
a fé buscando razão,
o medo escondido em sombras,
a coragem do coração.
Mas sou também o real,
carne, osso e cicatriz;
sou o homem que tropeça
na procura de ser feliz.
Carrego marcas do tempo,
vitórias, perdas e ais;
sou feito de muitas vidas
que já não voltam jamais.
E quando junto esses eus
num só verso, enfim, assim,
descubro que o universo
fez um poema de mim.
Pois sou palavra e ausência,
fantasia e chão sem fim;
sou o que escrevo no mundo
e o mundo escreve em mim.
O Eco do Adeus
Você foi o sol que escolhi seguir,
mas se fez noite sem avisar.
Deixou a promessa do que iria vir,
e o silêncio pesado em seu lugar.
O amor que eu julgava ser cais
mostrou-se apenas maré vazia.
Você foi embora, e nada mais
restou daquela velha poesia.
O dado não é inteligência. É apenas o eco do que já aconteceu. A sabedoria não está em acumular informações, mas em rastrear a origem de cada uma delas. Quem confunde volume com verdade constrói castelos sobre areia movediça. A previsibilidade não nasce do acúmulo, mas da curadoria. Protocolo Hidra
Sou verso antes da palavra,
eco antes do som,
mistério que se procura
no espelho do próprio dom.
Habito em muitas moradas,
sou plural em cada fim;
às vezes nem me conheço
quando faço poema de mim.
um eco sem voz é uma faísca guardada na caixa de fósforos vazia. sou o rascunho de um plano que o tempo esqueceu de executar, feixe de dados disfarçado de carne algoritmo poético que sangra tinta invisível um labirinto que muda de paredes a cada passo constante como a maré, instável como o vento sou a resposta que faz a pergunta chorar um sopro no vidro que embaça a realidade nada além de um ponto final que insiste em ser reticências...
O tempo passará e nós dois partiremos, deixando para trás apenas o eco das nossas histórias. No fim, a nossa permanência no mundo depende da significância que plantamos hoje. Entre as marcas boas ou ruins que podemos deixar, que a nossa escolha seja ser saudade da melhor qualidade. Se seremos apenas memórias, que sejamos a melhor lembrança na vida de alguém.
O Eco do Peito Aberto
Dizem que o coração é um músculo forte,
Feito para aguentar o compasso da vida.
Mas ninguém nos avisa sobre a fragilidade do romance,
Nem sobre o estrago de uma linha que se rompe.
O que acontece quando o peito é rasgado?
Não foi um corte limpo, cirúrgico ou planejado.
Foi um puxão brusco, uma despedida sem aviso,
Que deixou as bordas da alma desfiadas no chão.
Olho para dentro e vejo o espaço vazio,
Onde antes morava um abraço que eu achava que era meu.
Viver com o coração rasgado é caminhar sentindo o vento frio entrar no peito.
A gente tenta costurar com pressa,
Usa linhas feitas de memórias antigas,
Dá nós cegos com falsas esperanças,
Mas a ferida insiste em insistir.
A internet está cheia de conexões rápidas,
Mas o amor de verdade, quando quebra, faz um barulho silencioso.
A gente sangra por dentro enquanto sorri por fora,
Nesse teatro diário onde fingimos que a costura não dói.
Será que o Autor da Vida nos fez para quebrar?
Ou será que o romance é o risco que corremos
Para deixar de ser apenas um desenho frio e sem cor?
Talvez o coração precise ser rasgado algumas vezes,
Para que a luz do mundo finalmente consiga entrar...
E iluminar o que restou.
O Eco dos Anos
No limiar da meia-noite, o calendário curva-se novamente,
dissolvendo um ano em fumaça fina que escapa entre os dedos.
Não é o tempo que foge; é o eco que persiste.
Gestos repetidos como versos de poema gasto,
pensamentos sulcados na alma,
conversas nascidas velhas, pesadas pelo não dito.
Somos espelhos rachados.
Nelas reflete o mesmo espírito:
felicidade oca em dias cinzentos,
palavra de dicionário que evade a pele.
Buscamos reflexos polidos, amores distantes,
palavras que enchem o silêncio sem tocá-lo.
Num descuido ou graça súbita,
abrimos a porta da casa interior.
Ali, o caos negado: silêncios empilhados como móveis quebrados,
sorrisos mofados no escuro,
danças paradas no meio do giro.
As máscaras fundiram-se à carne.
Não sabemos onde acaba a encenação
e começa o real.
Avarentos com o coração, sabotamo-lo
por uma longevidade ilusória,
adiando o encontro essencial
como se a morte negociasse prazos.
Vivemos à espera — do fim do dia, do brinde vazio,
da distração que cala a voz insistente:
a vida não avisa o fim.
Quando a poeira baixa,
o novo ciclo surge não como promessa,
mas pergunta austera:
será possível, num lampejo lúcido,
acolher os cômodos vazios da alma?
Nesta virada, dispense jantares fartos e sorrisos falsos.
Chame-me apenas — para saber se estou bem.
Chame para a reciprocidade nua,
para aprender, devagar, empatia, generosidade, resiliência —
e as palavras que brotam no caminho, sem performance.
Voltemos ao templo que somos:
casa de sentimentos em pedra antiga e luz trêmula.
Com mãos lentas, sem julgamento,
varramos o ressentimento cristalizado,
lavamos janelas embaçadas,
deixamos o vento renovar.
Que nossas verdades ecoem no outro,
vulnerabilidade vire ponte de mãos estendidas.
Não reerga o edifício todo.
Entreabra uma janela,
deixe a luz cortar a poeira,
lembre: dançar é possível
entre escombros, peito partido,
eco persistente.
Que o templo seja morada, não prisão.
Ao limpá-lo, na poeira e luz tímida,
encontremos o espaço onde a reciprocidade inspire
Que os anos traga não felicidade premiada,
mas honestidade à criatura teimosa
que, apesar de tudo, escolhe estar...
Ysrael Soler
Os trilhos do Tramway da Cantareira silenciaram no tempo, mas o eco do seu apito continua vivo a cada vez que o coração de São Paulo canta a saudade do Jaçanã.
Reno Fioraso
Arquitetura da Alma
Não sigo trilhas feitas de fumaça,
nem busco o eco de aplausos vazios;
minha jornada tem o peso da graça,
da fé que molda os meus próprios caminhos.
Cada degrau foi ganho com suor,
no plantio firme de quem sabe o que faz;
minha colheita tem um brilho maior,
pois traz na essência o silêncio que traz.
Minhas raízes se fincam no afeto,
no riso claro que aquece o meu lar;
ser fortaleza é proteger este teto
e ter a mão sempre pronta a ajudar.
Quem vive de cópias não lê os bastidores,
não entende a força de quem se construiu;
sigo blindada, colhendo as minhas flores,
na melodia mais linda que a alma sentiu.
Ir além, dar um passo a mais
subir no monte e olhar a exuberância da vida
como um eco ter várias existências
liberto em palavras, ser imortal
como um rio, ser puro
idêntico ao mar, desejado
infinito como os desejos
lindo como o beijo
azul feito de céu
doce incomparável
Ter além de mim mesmo
um sonho
uma vida intensa
ser criança de vez em quando
adulto quando precisar
água para purificar
mas o que somos na vida,
senão um tempo que passa
enruga e amassa
e como passa ligeiro
esvai como fumaça
levando pelo vento, o tempo
aquele que passou por nós...
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