Desconfiar
Depois de algumas feridas, a mente aprende a desconfiar até daquilo que poderia fazê-la feliz. O medo de conhecer alguém novo nem sempre nasce da falta de amor, mas da lembrança da dor que um dia já foi chamada de amor.
-Jouberth Toffoli
Você pode desconfiar de uma verdade. Mas uma mentira, como tal, é sempre rigorosamente verdadeira.
Quanto mais uma sociedade teme o abuso do poder, mais deve desconfiar do poder sem limites criado para combatê-lo.
Nietzsche desconfiou das verdades absolutas; o jurista deveria desconfiar especialmente das verdades que beneficiam sempre os mesmos.
A Filosofia ensina a desconfiar das respostas fáceis; o Direito ensina que algumas respostas ainda precisam ser dadas apesar da complexidade.
O mundo costuma desconfiar de quem pensa demais. Talvez porque a inteligência enxergue o abismo antes de dar o primeiro passo, enquanto a certeza raramente olha para baixo.
O Direito deveria desconfiar tanto do poder que invoca Deus quanto daquele que invoca a ciência para escapar do debate público.
Podemos desconfiar dos sentidos, questionar as aparências e suspender nossas crenças; aquilo que não podemos eliminar sem pensar é o próprio ato de pensar.
Todo conhecimento começa nos sentidos, mas a inteligência começa quando aprendemos a desconfiar daquilo que eles nos mostram.
A arte ensina a ciência a enxergar o invisível; a ciência ensina a arte a desconfiar do aparente. Entre ambas, o pensamento encontra profundidade.
“A pior prisão não proíbe pensar; ensina o pensamento a nunca desconfiar de si mesmo. Chamam isso de educAÇÃO.”
O QUE FAZER QUANDO DUAS FONTES CONFIÁVEIS DISCORDAM?
É relativamente fácil desconfiar de uma fonte evidentemente ruim.
O problema realmente interessante começa quando duas fontes aparentemente boas chegam a conclusões diferentes.
Dois especialistas. Dois estudos. Duas instituições. Dois profissionais experientes.
Se ambos possuem credenciais, experiência e argumentos, em quem confiar?
Talvez a pergunta esteja mal formulada.
Não precisamos começar escolhendo uma pessoa. Podemos começar examinando o que exatamente está em desacordo.
As fontes estão respondendo à mesma pergunta? Usaram os mesmos critérios? Analisaram populações semelhantes? Trabalharam com evidências equivalentes? Estão expressando fatos, interpretações ou recomendações? Qual é o grau de incerteza?
Essas perguntas transformam confiança em investigação.
Reconhecer autoridade epistêmica não significa transferir integralmente o julgamento para uma autoridade.
Significa reconhecer que determinadas pessoas ou instituições possuem razões para receber maior peso em campos específicos.
Peso maior não significa peso infinito.
Autonomia intelectual não é independência absoluta.
Dependemos do conhecimento dos outros todos os dias. A questão é aprender a depender sem desaparecer intelectualmente dentro dessa dependência.
Quando duas autoridades discordam, talvez nossa primeira tarefa não seja escolher rapidamente uma delas.
Talvez seja descobrir onde a discordância realmente está.
Porque duas respostas diferentes nem sempre significam que uma delas é falsa. Às vezes significam apenas que fizemos uma pergunta simples demais para um problema complexo.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
Ensinar a pensar não basta; é preciso ensinar a desconfiar do pensamento sem transformar a dúvida em paralisia.
Carlos Eduardo Balcarse
