Desconfiar

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Depois de algumas feridas, a mente aprende a desconfiar até daquilo que poderia fazê-la feliz. O medo de conhecer alguém novo nem sempre nasce da falta de amor, mas da lembrança da dor que um dia já foi chamada de amor.


-Jouberth Toffoli

⁠Você pode desconfiar de uma verdade. Mas uma mentira, como tal, é sempre rigorosamente verdadeira.

Millôr Fernandes
Millôr definitivo: a bíblia do caos. Porto Alegre: L&PM, 2011.

Quanto mais uma sociedade teme o abuso do poder, mais deve desconfiar do poder sem limites criado para combatê-lo.

A Constituição é a memória escrita de uma sociedade que decidiu desconfiar do próprio poder

Nietzsche desconfiou das verdades absolutas; o jurista deveria desconfiar especialmente das verdades que beneficiam sempre os mesmos.

O jurista deveria desconfiar tanto da mentira evidente quanto da verdade confortável.

A Filosofia ensina a desconfiar das respostas fáceis; o Direito ensina que algumas respostas ainda precisam ser dadas apesar da complexidade.

A razão pública deve desconfiar de toda certeza que pede imunidade contra evidências.

A razão não promete certezas eternas; promete métodos para desconfiar das certezas prematuras.

O mundo costuma desconfiar de quem pensa demais. Talvez porque a inteligência enxergue o abismo antes de dar o primeiro passo, enquanto a certeza raramente olha para baixo.

A ciência desconfia das certezas; o Direito deveria desconfiar das certezas com poder.

O Direito deveria desconfiar tanto do poder que invoca Deus quanto daquele que invoca a ciência para escapar do debate público.

Podemos desconfiar dos sentidos, questionar as aparências e suspender nossas crenças; aquilo que não podemos eliminar sem pensar é o próprio ato de pensar.

O progresso começa quando uma sociedade aprende a desconfiar das próprias verdades.

Todo conhecimento começa nos sentidos, mas a inteligência começa quando aprendemos a desconfiar daquilo que eles nos mostram.

A arte ensina a ciência a enxergar o invisível; a ciência ensina a arte a desconfiar do aparente. Entre ambas, o pensamento encontra profundidade.

“A pior prisão não proíbe pensar; ensina o pensamento a nunca desconfiar de si mesmo. Chamam isso de educAÇÃO.”

O QUE FAZER QUANDO DUAS FONTES CONFIÁVEIS DISCORDAM?

É relativamente fácil desconfiar de uma fonte evidentemente ruim.

O problema realmente interessante começa quando duas fontes aparentemente boas chegam a conclusões diferentes.

Dois especialistas. Dois estudos. Duas instituições. Dois profissionais experientes.

Se ambos possuem credenciais, experiência e argumentos, em quem confiar?

Talvez a pergunta esteja mal formulada.

Não precisamos começar escolhendo uma pessoa. Podemos começar examinando o que exatamente está em desacordo.

As fontes estão respondendo à mesma pergunta? Usaram os mesmos critérios? Analisaram populações semelhantes? Trabalharam com evidências equivalentes? Estão expressando fatos, interpretações ou recomendações? Qual é o grau de incerteza?

Essas perguntas transformam confiança em investigação.

Reconhecer autoridade epistêmica não significa transferir integralmente o julgamento para uma autoridade.

Significa reconhecer que determinadas pessoas ou instituições possuem razões para receber maior peso em campos específicos.

Peso maior não significa peso infinito.

Autonomia intelectual não é independência absoluta.

Dependemos do conhecimento dos outros todos os dias. A questão é aprender a depender sem desaparecer intelectualmente dentro dessa dependência.

Quando duas autoridades discordam, talvez nossa primeira tarefa não seja escolher rapidamente uma delas.

Talvez seja descobrir onde a discordância realmente está.

Porque duas respostas diferentes nem sempre significam que uma delas é falsa. Às vezes significam apenas que fizemos uma pergunta simples demais para um problema complexo.

Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador

Ensinar a pensar não basta; é preciso ensinar a desconfiar do pensamento sem transformar a dúvida em paralisia.

Carlos Eduardo Balcarse

Com você aprendi a não acreditar mais em palavras e desconfiar de atitudes .

Inserida por marianaayres