De Repente Nao mais que Derepente

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O Curioso Olhar da Terra


​Eu gosto de ver a folha verde,
o balanço leve na brisa da tarde,
o desabrochar que não faz barulho,
a vida crescendo sem alarde.
​Gosto de plantar e ficar olhando,
imaginando o que a terra esconde:
que trabalho secreto a raiz faz lá embaixo?
Para onde ela vai? De onde ela responde?
​E quando a chuva cai do alto,
eu pergunto ao céu o seu motivo.
Cada gota que toca o solo
sabe exatamente por que está viva.
​Olho a montanha antiga no horizonte,
firme, calada, atravessando a era.
Meus avós nem eram nascidos ainda,
e ela já estava ali, à espera.
​Pode ser que a ciência explique tudo,
mas eu prefiro a dúvida e o encanto:
o mundo é mais bonito e verdadeiro
quando a gente imagina em cada canto.

​A Fonte e a Origem


​No banho, a água murmura
um segredo que a terra guardou.
É a chuva de tempos antigos
na pele que o céu desenhou.
​Os cabelos descem sem pressa,
como rios de pouca vazão,
guardando o mistério da origem,
da força da primeira criação.
​Ela sabe o caminho das flores,
o momento em que a noite se faz;
traz nos fios a sombra da mata
e no peito um bocado de paz.
​Não é de brilho que se mostra,
é encanto que não se mede:
a mulher que conversa com o tempo
e que a água respeita quando pede.

Obra de Cuidado


​Quando o Criador te pensou,
o mundo parou em silêncio.
Ele juntou a luz da manhã
com o sopro de um amor imenso.
​Esculpiu o teu riso com calma,
misturou a poeira das estrelas,
colocou no teu olhar a clareza
que a gente só vê nas manhãs mais belas.
​Pintou os teus passos na terra
com a cor do sol quando se põe,
trouxe a paz para dentro do peito
e o som de antigas canções.
​Não houve pressa no traço,
nem rascunho deixado para trás:
Ele fez de você um poema
que a vida lê e pede mais.

A Leveza Guardada


​Ela cumpre as tarefas que o dia exige,
conhece as calçadas e o peso do chão,
mas guarda no olhar a janela aberta
onde o mundo ainda tem poesia e canção.
​Não há fuga da vida nem sobra de ontem,
há a escolha bonita de não se endurecer:
gostar da flor singela, da forma suave,
do sopro macio que o vento faz ver.
​O caminho dos anos não toca o mistério
de quem traz a leveza guardada por dentro;
é mulher inteira, dona de seu passo,
que faz da delicadeza o seu centro.
​Aprecia o pequeno sem perder a grandeza,
sabe que a alma não precisa envelhecer:
ser adulta é sustentar o próprio destino,
ser delicada é o modo de viver.

O Templo do Silêncio


​O mundo lá fora exige o horizonte:
a praia aberta, o vento na montanha,
o verde antigo que a fazenda guarda,
a luz que em campos distantes se espanha.
​Mas há um mistério que a chuva ensina
quando cai fria sobre a telha e o chão:
a poesia não pede paisagem,
pede apenas a pausa e o coração.
​Deitada no escuro, o corpo descansa
da lida pesada de mais um dia;
as mãos que cuidam, que erguem e sustentam,
encontram na noite a sua alforria.
​Não é preciso o mar para ser imenso,
nem a altura do monte para ver direito:
o verso mais nobre e mais profundo
nasce do silêncio guardado no peito.

O Mar Interior


​Há quem busque a vastidão das praias
ou o topo das serras para poetizar,
mas a alma que cuida e carrega o mundo
aprende na sombra a se recolher e amar.
​A chuva bate suave na janela,
o frio lá fora convida ao abrigo;
no leito aquecido, a mente se solta
e o tempo da noite se torna amigo.
​Não há pressa, não há cobrança de estrada,
nem a busca por um cenário perfeito:
a beleza mais pura e descansada
é esta que brota deitada no peito.
​As mãos repousam do dever cumprido,
o pensamento voa para onde quer;
no silêncio do quarto renasce a graça,
o verso sereno da própria mulher.
​Essa ideia de acolher o momento presente, exatamente onde você está deitada agora sob o som da chuva, traz uma paz muito bonita para o verso, não traz?

A Vontade e a Raiz


​O mundo pede a praia aberta e o topo da serra,
pede a mala pronta e o horizonte distante,
mas a poesia verdadeira finca a sua garra
é na terra da casa, no minuto presente.


​Há um olhar curioso que não passa batido:
repara na planta que finca a raiz no chão,
busca saber como a vida se tece por baixo,
vê a força invisível que sustenta a criação.


​E no fim da lida, quando o dia se entrega,
o banho quente acolhe a mulher que lutou;
a água desce, o cabelo se esparrama em cascata,
lavando o cansaço do mundo que ela carregou.


​Deitada no escuro, ouvindo a chuva na telha,
o corpo finalmente encontra o seu descanso,
mas a mente acesa não aceita o silêncio:
transforma a vivência em conselho e remanso.


​Não escrevo por vaidade, por status ou aplauso,
nem para enfeitar a frase com falso valor;
escrevo pelo chão que eu pisei e venci,
para deixar uma luz no caminho do outro.
​E se a voz se cala por medo, cultura ou guerra,
se o corpo não pode ir onde o mundo sufoca,
a palavra escrita atravessa qualquer portão,
entra na casa remota e a alma toca.


​Sem sair do leito, a leitura faz a travessia,
o texto vira farol, mapa e libertação:
a maior viagem é essa que a gente faz
com a força da vida guardada no peito.

Manipulação


​Eu só queria entender por que me entreguei a você sem antes me dar o devido valor. Rasguei a minha alma e me sujei no teu peito, enquanto o teu egoísmo me calava por dentro. Relembrar tudo isso ainda dói.
​Eu era tão imatura, tão apaixonada... Fiz-me cega para não enxergar os golpes repetidos de um jogo em que eu me perdia a cada rodada. Lembra-se do dia em que você manchou o meu nome? Acumulei desgostos e chorei por dias seguidos, afundada em uma escuridão que quase me levou a desistir da minha própria existência.
​Te conhecer foi e sempre será o meu maior erro. O que você fez comigo? Por que fez? Pareceu um plano cruel, em que eu representava a boa-fé e você, a maldade pura. Quanto desprezo guardo hoje do que vivemos. Houve um tempo em que desejei que a vida lhe retribuísse na mesma moeda, pela irresponsabilidade com que tratou os meus sentimentos. Como se pode cometer tamanha perversidade contra alguém que só buscava um gesto simples de afeto?
​Teria sido mais simples ter me tirado da sua vida, ter apagado o meu nome e a minha rota. Mas fui tratada como mero entretenimento, enquanto eu acolhia você como um verdadeiro presente.
​Que este desabafo definitivo varra de vez a sua sombra. Eu já te enterrei no passado. Não permito mais que a sua lembrança vagueie pelos meus dias como um pesadelo sem fim. A própria dor que você me causou virou a minha armadura. Nunca mais me aproximarei de você — nem nesta vida, nem além dela.

​Muralhas de Ferro


​Erguem-se altos os muros da estrada,
Pedra usinada pelo tempo e pela dor.
A vida, às vezes, é fortaleza fechada,
Onde a esperança hesita em compor.
​Os portões são de bronze e chumbo pesado,
Com ferrolhos gigantes que ranger nos fazem temor.
E encaramos o fosso, de um lado isolado,
Perguntando se existe passagem ao amor.
​Mas até o castelo de pedra mais dura
Guarda uma fresta por onde entra a luz.
Não há ponte levadiça que dure a amargura,
Nem ferro que vença a coragem que conduz.
​Pois a mão que moldou a pesada tranca
É a mesma que aprende a encontrar a saída.
E a muralha mais alta, por mais que imponha a banca,
Cede ao passo constante de quem vive a vida.

BFé Que Liberta, Rito Que Prende


​Queriam vender o espaço no céu,
Em troca de moedas, de medo e de dor.
Transformaram o sagrado em um pesado véu,
Dizendo que a culpa era prova de amor.
​Apagaram a alma, moldaram o pensar,
Fizeram do dogma uma escura prisão.
Diziam que para o divino alcançar,
Era preciso anular o próprio coração.


​Mas Deus não habita em barganha de templo,
Nem cobra pedágio na porta da luz.
A fé de verdade se mostra no exemplo,
É o amor sem algemas que o homem conduz.


​A fé que constrói traz asas nos pés,
Não força o espírito a se ajoelhar no chão.


Se a religião só traz correntes e viés,
Não vem do divino... é só invenção.


​Pois o Pai da existência não quer servidão,
Quer mentes despertas, o peito altivo.


A fé que é real não vende salvação:
Ela liberta a alma e nos mantém vivos.


​

​. A Religiosidade Que Mata


​A religiosidade virou uma prisão.
Em vez de salvar, ela tem tirado a vida,
Pesa nos ombros, sufoca o coração,
E deixa a alma ferida.


​Deus não habita no julgamento,
Nem no olhar duro de quem se acha puro.
Se a sua religião só produz tormento,
Ela não é luz, é muro.


​A verdadeira fé não mata, ela cura.
Não exige fardo, traz leveza e paz.
Quem ama de verdade não condena a estrutura:


Abraça, acolhe e o bem refaz.
​Mude o passo, abandone a rigidez.
Se a religião não te faz mais humano,
Ela perdeu a razão de ser.

O Veneno do Dogma


​Usam o nome do Sagrado
Para erguer muros, ditar a dor,
Transformaram a graça em tribunal
E esqueceram o som do amor.
​Gente de rosto fechado e bíblia na mão,
Pronta para condenar quem passa,
Adoecendo a si e ao irmão,
Confundindo veneno com graça.
​Mas o Divino não mora na opressão.
Não habita no medo, na culpa, na dor.
Se a sua religião sufoca o seu peito,
Ela é só regra de homem, não é amor.
​Desarme a mente, acolha o mundo,
Seja a leveza que o céu pediu.
A fé real não destrói ninguém:
Ela resgata o que a rigidez feriu.

“Uma ideia só é boa, quando é colocada em prática.”

A Janela e o Silêncio


​A vida entre nós tinha muros, limites e chão,
Um respeito guardado no fundo do meu coração.
Fomos o que foi possível, com o peso que a vida nos deu,
Entre conversas difíceis e o que o tempo acolheu.
​A notícia chegou num sopro, num dia qualquer,
Sem aviso, sem hora, sem o tempo que a gente quer.
E eu fiquei ali, no silêncio daquele salão,
Sem saída, sem pranto, presa na minha própria mão.
​Ao teu lado o tempo todo, como quem guarda um altar,
Na anestesia do peito que ainda não sabe chorar.
Parecia um sonho distante, um filme sem cor,
Onde a dor não tinha nome, não era nem raiva nem amor.
​Mas na hora da despedida, olhando além da janela,
Entre flores e pedras, na paisagem fria e singela,
Um choro prendeu na garganta, abafado e profundo,
Um choro pra dentro, teu gesto, despedida do mundo.
​Olhei para o fim sem sentir que era o fim de verdade,
Pois o que se viveu não se apaga na eternidade.
Fica a paz do respeito, a história que a vida escreveu...
A tua alma partiu, e a minha, em silêncio, entendeu.

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🌸 Tesouros na Calçada 🌸
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🎼 Ando pela rua com o olhar atento, 🎼
🐦 Reparo na vida que nasce do chão. 🐦
🌸 Florzinhas miúdas, presente do vento, 🌸
🌹 Nascendo nas pedras do meu calçadão. 🌹
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🍃 Borboletas leves vêm dançar no ar, 🍃
🎼 Chegam tão perto, quase me tocar. 🎼
🐦 Trazem tantas cores pra minha jornada, 🐦
🌸 Enchendo de graça a minha caminhada. 🌸
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🌿 E as asas mais escuras, tom de mistério, 🌿
🍃 Pousam no silêncio do meu caminho. 🍃
🎼 Mostram que a beleza exige um critério: 🎼
🐦 Ver a poesia em cada detalhinho. 🐦
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🌹 Seguro no peito essa doce alegria, 🌹
🌿 De ver o milagre que a rua nos traz. 🌿
🍃 Flor que nasce em pedra se faz poesia, 🍃
🎼 E o voo do encanto me devolve a paz. 🎼
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🌸 Na Paz da Minha Noite 🌸
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🎼 O dia correu leve, o dever foi cumprido, 🎼
🐦 A casa em ordem, o descanso chegou. 🐦
🌸 Na paz da minha noite, o peito acolhido, 🌸
🌹 Agradeço por tudo que o tempo me deu. 🌹
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🍃 Agora é o momento de olhar pra frente, 🍃
🎼 Preparar a mente pro que está por vir. 🎼
🐦 A dignidade financeira vem no tempo certo, 🐦
🌸 Pra dar estrutura pra quem me faz sorrir. 🌸
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🌿 Quero do mundo o que ele tem pra oferecer, 🌿
🍃 Pra repartir com os meus e proteger quem ama. 🍃
🎼 Guardo os meus no alto, em lugar seguro, 🎼
🐦 Onde o mal não alcança e nem se aproxima. 🐦
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🌹 Nenhum inimigo vai ver o nosso canto, 🌹
🌿 Pois Deus é o escudo que nos cobre de luz. 🌿
🍃 O Criador me sustenta e ilumina o rumo, 🍃
🎼 E na graça D'ele, o meu povo segue a salvo. 🎼
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Meu Pai Terreno


​Você foi a presença e a saudade,
Um enigma difícil de decifrar.
Às vezes lendo a sua alma inteira,
Outras vezes vendo você se distanciar.
​A vida foi curta, o tempo foi pouco,
E as sombras do mundo quiseram levar
O homem que trazia nos olhos um sonho:
O desejo bonito de me ver voar.
​Mas guardo no peito o seu melhor gesto,
A lembrança mais pura que não vai partir:
Suas mãos no meu cabelo, o cuidado no banho,
Arrumando a pequena pra o mundo florir.
​Você queria me mostrar um lugar lindo,
Passear em família, nos dar o melhor,
E mesmo nas lutas que travou sozinho,
Seu amor de pai quis me fazer maior.
​Pai terreno, de marcas e afetos,
Ficou a memória do que foi amor.
O tempo foi breve, mas foi intenso,
E na minha história, o seu cuidado ficou.

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🌸 Luzes na Mão, Luzes na Memória 🌸
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🎼 Na juventude eu ouvia falar, 🎼
🐦 Mas não entendia o mistério da luz. 🐦
🌸 Passava o tempo sem reparar 🌸
🌹 No brilho discreto que a noite produz. 🌹
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🍃 Vi num cinema a fogueira a queimar, 🍃
🎼 Um pote de vidro guardando a magia, 🎼
🐦 Pais e crianças no escuro a olhar 🐦
🌸 Aquela lanterna que o céu acendia. 🌸
🌹 🌹
🌿 Hoje guardo uma doce lembrança no olhar, 🌿
🍃 Sei que eles brilham em outro lugar, 🍃
🎼 Lá no sertão, onde a noite é serena, 🎼
🐦 Pela mata adentro, longe da nossa cena. 🐦
🌸 🌸
🌹 Fica no peito essa memória afetiva, 🌹
🌿 De ver na natureza essa chama viva. 🌿
🍃 Um agradecimento por cada ponto a piscar, 🍃
🎼 Guardando essa poesia que o tempo nos dá. 🎼
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🎼 🐦 🌸 🌹 🌿 🎼 🐦 🌸 🌹 🌿 🎼 🐦 🌸 🌹

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🌸 Cadê as Joaninhas? 🌸
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🎼 Olho pro vaso, procuro no jardim, 🎼
🐦 Reparo na folha onde o sol costumava bater. 🐦
🌸 Lembro do tempo em que era fácil assim: 🌸
🌹 Ver uma joaninha bem perto de mim nascer. 🌹
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🍃 Ela entrava em casa sem pedir licença, 🍃
🎼 Pousava na mesa, no meu avental. 🎼
🐦 Trazia uma sorte singela e intensa, 🐦
🌸 Um pingo vermelho no meu quintal. 🌸
🌹 🌹
🌿 Hoje procurei entre as pétalas da flor, 🌿
🍃 Caminhei no gramado com todo o cuidado. 🍃
🎼 Senti tanta falta daquele pequeno amor, 🎼
🐦 Do vestido de bolinhas que ficou no passado.🐦
🌸 🌸
🌹 Onde foi parar a joaninha do meu lar? 🌹
🌿 Aonde voou esse pedaço de encanto? 🌿
🍃 Guardo a saudade e a esperança no olhar, 🍃
🎼 De ver seu vermelho florir no meu canto. 🎼
🐦 🐦
🎼 🐦 🌸 🌹 🌿 🍃 🎼 🐦 🌸 🌹 🌿 🍃 🎼 🐦 🌸 🌹

​A Casa, a Montanha e as Asas


​Bati o tapete, arrumei o meu canto,
A rotina da casa se fez poesia.
Enquanto eu gravava, envolta em encanto,
Olhei pra montanha ao fim do meu dia.
A névoa descia serena e veloz,
Cobria o topo com um véu de algodão,
Como se o mundo guardasse nossa voz
Pra transformar a tarde em oração.
​E no meio desse cenário abençoado,
Um visitante de penas surgiu,
Com peito amarelo e olhar apressado,
Vindo do alto que a névoa cobriu.
Eles entram sem medo, procurando por mim,
Voam no espaço do meu próprio lar,
Pois sabem que a casa é um belo jardim
Onde a alma é leve e pronta pra amar.
​Se a chuva lá fora impede o banquete,
A mesa se põe em tom de louvor.
Nem a água que cai, nem o vento que mete
Desfaz essa laço de tanto valor.
Eu canto pro céu, pro Grande Criador,
E as asas se chegam pra me acompanhar,
Na brisa suave de um puro amor,
Onde homem e bicho aprendem a cantar.
​Como pequena mulher da criação,
Zelo por tudo que o Pai me confiou:
A montanha de névoa, a limpa canção,
E o passarinho que hoje me visitou.
​O que achou desta versão ampliada?