Cronicas de Luiz Fernando Verissimo Pneu Furado
Sentir raiva é natural e tão benéfico quanto o medo. Ainda que os vejamos como sentimentos ruins, eles nos protegem de riscos reais como o de sermos manobrados por outrem ou de ficarmos indefesos diante das ameaças. Ambos são molas propulsoras para recomeços de modo a que a energia dispendida possa ser usada para corrigir rumos e atingir o ponto de equilíbrio que precisávamos. As coisas são como são, e a raiva nos ajuda a enxergá-las, prevenindo novos sofrimentos e revelando-se uma grande aliada nas lições que não aprendêramos até então. E a consciência de todo esse ganho culmina por dissipá-la, devolvendo a alegria – agora real e sem disfarces – ao coração.
Só os mais sensíveis conseguem distinguir as pessoas essencialmente más daquelas que adotaram o mal como forma de se defender de um mundo que nunca as tratou bem. As primeiras, para nossa sorte, não são a maioria, e as outras dependem das sensíveis e generosas para perceber isso, pois que precisam apenas receber amor e respeito para reaprender a oferecê-los.
Com tantas atrocidades cometidas por muitos que trazem o mal de índole, além de outros tantos que levam o caos à vida humana por conta de sua inconsciência, um número grande dos conscientes e responsáveis são impedidos de tocar a sua às vezes por uma mera dificuldade funcional num exame de trânsito. A forma de reduzir o desequilíbrio é focar em sermos melhores a cada dia, de modo a tornar o mundo menos pesado pelo menos para aqueles que nos rodeiam.
Tem algumas pessoas que fazem com que a gente se sinta abrindo a janela todas as manhãs para receber a luz que emitem, e acha a coisa mais natural do mundo que isso se repita eternamente, de forma obrigatória e quase imperceptível. Até um dia em que as cortinas abertas não repetem o brilho e o calor dos anteriores e a sensação enorme de frio – seguida da percepção do escuro – adentra os ossos, nos dando conta do quanto nos eram essenciais!
É inútil esperar soluções tentando conciliar o inconciliável , dividir o indivisível e fazendo omelete sem quebrar os ovos. Enquanto não houver humildade para trocar o que se quer pelo que se pode, não se chegará a milagre algum: a vida vai continuar mandando a conta e batendo nos pedestais até transformar em cacos as orgulhosas figuras posicionadas sobre eles.
Ainda que não sendo fácil aceitá-lo, a receita para a harmonização interna permanece inalterável: Não queiras mais do que precisas, nem pede além se já tens o necessário. Dá aos outros o que podes e não sofre com o que não podes. Dá a ti mesmo as soluções para o que surge e oferece-as aos outros com a consciência dos teus limites. E caso para eles não seja o bastante, busca auxílio no limite do indispensável.
O maior desejo? Nunca parar de pensar. E bem mais do que isso, partir do pensamento para a ação, perceber que continua errando e não desistir de tentar, sair da filosofia para a concretude da vida. Por mais que enxerguemos as coisas da forma correta, o pensamento ainda não é o bastante para levar o bem às pessoas, nem tornar o mundo minimamente melhor caso não se converta em atitudes e passos firmes na direção certa.
Eventualmente alguém me procura na expectativa de que eu seja tudo o que escrevo, e então repito a resposta de que estou sempre em busca de ser o que penso e sei que devo, embora nem sempre o consiga. Acalmo meu espírito, no entanto, com a lembrança de que jamais desisto de tentar novamente e a consciência de, a cada nova tentativa, haver dado um passo a mais, por menor que seja, em direção ao objetivo.
Qual a melhor parte de não esperar que os outros façam nada por você? É que os seus dois lados – o que faz e o que recebe – estarão sempre buscando o mínimo que não sacrifique o outro: seu lado servidor só irá fazê-lo até o ponto em que o consiga, e o lado servido sabe que precisa respeitar esse limite para continuar recebendo. Com isso o todo encontra harmonia automática entre o que se quer e o que se pode, mantendo-se imune a frustrações ou sentimentos de culpa e sem cobrar nada além do necessário para sentir-se satisfeito e feliz. Nossas relações conseguiriam o mesmo se exigíssemos dos outros o mesmo que cobramos de nós mesmos.
Nada mais libertador do que ser protagonista da própria série, em vez de coadjuvante de tragicomédias de temporada permanente. Há que se saber a hora de abandonar os palcos mambembes, os enredos trágicos de sorrisos forçados onde personagens congelados encenam dramas que se repetem em moto-contínuo. A vida real só atinge sua plenitude quando descemos do palco.
Um dos maiores enigmas do comportamento humano é entender porque muitos permanecem carentes e inseguros ainda que rodeados por pessoas e mergulhados nas muitas coisas que acumulam sem cessar. A resposta é que vêm desde sempre de uma solidão coletiva e das tantas posses sem significado, permanecendo em busca de cura para o incurável e suprimento que universo algum poderá suprir, já que o vazio se faz por dentro e não por fora.
O direito chama de “inimputáveis” aquelas pessoas que perdem a capacidade de fazer escolhas. Mas entende que quando se mostrarem lúcidas o bastante para fazê-las, devam ser igualmente responsáveis pelos resultados delas e tratadas em condição de igualdade com qualquer indivíduo no pleno exercício de seus direitos e deveres. Não lhes cabe, portanto, reclamar os bônus e se eximirem dos ônus por suas inconsequências.
Existe uma tendência para se confundir idade com grau de consciência, ignorando-se o fato de que tanto há jovens irresponsáveis ou concientes quando idosos responsáveis ou inconsequentes no pleno uso de suas faculdades. O que não se pode é tratar todo jovem como sujeito de deveres e todo idoso como passível apenas de direitos, quando ambos sabem o que estão fazendo e devam assumir as consequências na mesma proporção, isso sem contar o agravante da experiência.
Conhecem a “síndrome da auto-reversão”, que costuma acometer os complexados? Sempre que presenciam um elogio feito a alguém, de imediato reagirão de forma agressiva como se uma ofensa tivesse sido dirigida a eles. A completa ausência de auto-estima de que são possuidores os induz a raciocinar por exclusão. Dessa forma, uma referência à inteligência de alguém, por exemplo, é o mesmo que dizer que todos os demais – incluindo ele – são burros.
Demonstrar respeito aos outros não é uma escolha, mas obrigação devida a todo indivíduo enquanto pessoa. Ninguém pode estar sujeito àquela falta de respeito que o exponha ou inferiorize, isso é fato. Mas há um outro tipo de respeito que nos brota na essência, queiramos ou não, e não se consegue oferecer gratuitamente quando o outro revela não dá-lo a si mesmo. Resta-nos, nesse caso, dedicar o obrigatório a todos, porquanto seres humanos, mas não desperdiçar aquele de caráter íntimo com quem inequivocamente não dá qualquer importância ao ato DE SE FAZER respeitar.
É comum se ver pais com dificuldade de entender que seu papel enquanto educador prático e teórico dos filhos é encerrado no momento em que estes atinjam o estágio de autocondução. A partir desse momento a atribuição é transferida à vida, e por mais que discordem das posições dos filhos cabe-lhes tão comente aceitar, nunca interferir. Entre pessoas adultas a abordagem correta é a do respeito, e a educação – caso tenha continuidade – será pelo exemplo, e não pela ação.
Passar pela existência não é o mesmo que evoluir. Este segundo conceito acontece quando trocamos a pergunta "O que vou fazer?" por algo como "Por que o estou fazendo?" e, ato contínuo, definimos prioridades para o próximo momento e retemos do passado apenas o que deu bons frutos.
Ter reunido mil pensamentos não significa que ainda concorde com boa parte deles, já que expressam etapas distintas do meu crescimento e o primeiro fica longe de retratar o homem que me tornei ao escrever o último. A importância de todo o conjunto é servir como indicador de minha caminhada, e de referência a outros no momento em que se identificam com eles. Não há nada mais assustador do que comparar um primeiro pensamento com o último e descobrir que nada mudou entre um e outro!
Dói-me ver pessoas olhando a vida pelo retrovisor e a dividindo – de forma tão simplória – entre erros e acertos somente. No que me toca vejo alguns erros que não me agrada tê-los cometido, mas que converti em referência sobre o que não deveria repetir. Incorri também em alguns que, após revistos, considerei indispensáveis na construção da pessoa em quem me transformei; e houve ainda aqueles que alguns podem chamar de “erro”, mas me geram gratidão pela consciência de agora, da qual tanto me orgulho. Malgrado suas diferenças, sei que todos – sem exceção – me ensinaram a mais importante de todas as lições: a da prerrogativa de converter erros em traumas ou em aprendizagem, e tanto olhá-los como o mestre mais importante que já tivemos, ou o juiz que nos irá julgar até o último de nossos dias.
Quando se segue justificando um líder sem caráter não há como escapar de um destes entendimentos: a pessoa não se informa, e a ignorância fá-la crer que é esperta; ela ainda olha para seu mundo de faz-de-conta com “olhar de poliana”; ou – o que é pior – ela tem o caráter tão distorcido quanto o líder que apoia. Mas encaixá-la sempre neste último tipo não revela uma visão menos distorcida e indigna do que qualquer outra.
