Cronicas de Luiz Fernando Verissimo Pneu Furado

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Ser indiferente ao final triste alcançado por alguém pode não estar associado a nenhuma espécie de maldade ou sentimento de vingança, mas tão somente o de preservar a fé, acreditando que a vida é justa o bastante para não deixar que quem viveu para tornar pior a de todos não saia dela sem ter descoberto que tal escolha não vale à pena.

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O próprio Senhor do Universo, ao expulsar Adão e Eva do paraíso e condenar um de seus anjos mais amados a reinar nas trevas, quis mostrar que o retorno é proporcional ao feito, e que oferecer simplesmente o perdão a todo mal produzido é ser conivente com ele e estimular o transgressor a se afastar ainda mais do caminho que lhe foi apontado.

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O parâmetro para o limite da minha fé é a lógica que não desafie minha inteligência. Se uma ação ou decisão divina for capaz de agredir até mesmo a mim enquanto ser humano sujeito a inúmeras falhas, nunca serei convencido a dar-lhes crédito, pois que o Deus em que creio me deu como escudo o discernimento para que eu não fosse induzido a erro por falsos senhores da verdade. A chamada “fé cega”, que se permite conduzir por interpretações dadas por outrem, à priori é fruto da manipulação que se apressa em preencher o vazio deixado pela ignorância.

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Nao usa o poder que te delegaram apenas com teus amigos, se queres que ele perdure. A sabedoria ensina que se a cobiça e a arrogância substituírem a justiça e a igualdade que precisa ser levada a todos, tu e aqueles que privilegiaste serão esmagados pela outra parte que esqueceste, mas que também foi responsável por estares lá.

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O bombardeio de ”likes” que se segue a imagens sem qualquer significado, se confrontado com a ausência quase absoluta de reações para um texto relevante que force a reflexão, dá a dimensão exata das prioridades desse novo mundo mostrado em tempo real. A roupinha “fru-fru” que o pet ostenta na foto adquiriu mais relevância que o desejo de se ter um mundo melhor, e na frivolidade da vidinha cênica e sem conteúdo mostrada nas “selfies” é o que as pessoas efetivamente esperam que as demais acreditem.

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Os funerais existem para atender os vivos, e não os mortos. Antes ser lembrado pelo que fizemos do que pela imagem cadavérica, sem relação com o que fomos e rodeada de tristeza no fundo de um caixão, revelando todas as marcas que, se pudéssemos, não gostaríamos de ver exibidas sequer no espelho do banheiro. Que os que me amam me prestem sua homenagem poupando-me dessa última exposição pública tão contrária ao que busquei ser ao longo de minha passagem pelo planeta.

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A menos que sua descoberta seja surpreendente o bastante para mudar o mundo, não perca muito tempo ensinando às pessoas como podem melhorar seu dia a dia: elas vão sempre escolher errar pra descobrir, ou fazer do jeito delas. E ainda que sua idéia possa transformar o mundo, cuidado com os que o preferem do jeito que está, pois lhe apontarão seus canhões para não se verem forçadas a abrir mão do que gostam de acreditar ou do que ainda pode mantê-las no topo por quanto tempo o consigam.

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Com toda a informação que já se tem sobre os efeitos colaterais das drogas - por quem usa e por quem paga pelo vício deles - o único modelo admissível de drogados vítimas é o das crianças, e talvez o dos que caem na droga por debilidade mental, que traz incapacidade analítica para os próprios atos. O restante é formado por um exército de cínicos egoístas que colocam sua diversão acima do comportamento criminoso despejado sobre o restante da humanidade.

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Sentimentos são dessas coisas de caráter estritamente pessoal, e não estão vinculados às pessoas próximas das que os inspiram, pois depende de um histórico próprio e intransferível entre elas. Não se pode, assim, desejar que nossos amigos estendam também a nossos cônjuges, pais, irmãos ou filhos o carinho, amor ou gratidão que nos dedicam, pois que o respeito que recebemos pode não estar presente entre todos aqueles de quem gostamos. Jamais cobre essa vinculação, portanto, nem a transforme em moeda de troca para manutenção de algo bom que cabe apenas a você e a cada um construir ou desconstruir por si mesmos.

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O medo é um agente duplo de poder quase absoluto: enquanto o manténs distante e ocupado em infiltrar-se no inimigo, ele te trará conquistas inimagináveis; mas se deixares que se volte contra ti vais te deparar com o mais poderoso e cruel inimigo que já enfrentaste, pois não conseguirás fazer uso de qualquer dos teus recursos para manter domínio sobre nada mais, e principalmente sobre ti mesmo.

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Quando te derrubam com a primeira “pernada”, descobres que cometeste um erro de avaliação. Na segunda do mesmo padrão, fica claro que faltou inteligência para não amargares a raiva que sentiste de ti mesmo. Na terceira, porém, já te têm em conta de idiota, e está na hora de mudar o rumo ao preço de teu auto-respeito.

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Planeja tudo o que desejas realizar, pois quanto mais pensares em teus sonhos, mais reais se tornarão. Quanto aos teus temores, deixa para quando acontecerem, para não sofreres com eles desde já. Antecipar coisas só vale para as melhores, até porque algumas das ruins podem nem se concretizar, e todo o sofrimento que te impuseste por elas terá sido em vão!

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O tipo de caráter no Brasil, entranhado na formação moral de seu povo, mostra-se ainda mais degradante quando comparado ao das culturas orientais: lá eles colocam a moralidade num patamar mais elevado do que a própria vida, pela convicção de que a desonra a macula de forma indelével para não mais justificar sua manutenção. Assim, quando expostos por falhas da honra, é comum escolherem o suicídio antes de conviver com a vergonha. Em nosso país a valorização do homem não reside em esquivar-se da ilegalidade, mas na competência para negá-la à exaustão mesmo diante de todas as evidências contrárias, sendo esta capacidade motivo de orgulho por quem a domina e de admiração pelos que o defendem. A regra é de que o reconhecimento do delito jamais se faça por parte do criminoso, e a estratégia seja sempre a de transformar constatações inequívocas em "perseguições do poder vigente", e a correta aplicação da lei em injustiça.

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Talvez a lição mais importante que aprendi nas últimas décadas é que na vida tudo acontece exatamente como numa partida de xadrez: sempre que a estratégia inicial de vitória falha, o próximo lance do adversário pode promover uma reviravolta tão decisiva que, mesmo quando já se dava o jogo por perdido, tudo pode mudar novamente a nosso favor. Daí porque não se pode jamais aceitar a inexistência de saídas antes de aguardar pelo que vem a seguir. Se todos soubessem como esse mecanismo de alternância funciona, o desespero que leva muitos ao suicídio seria visto como realmente é: apenas mais uma ilusão de ótica igual a muitos outros equívocos criados pela mente humana e que subtrai, de forma abrupta e vã, a grande possibilidade de uma segunda chance.

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Existem pessoas que carregam tanto preconceito, arrogância, inveja e desonestidade para inviabilizar até tentativas de ajuda das mais próximas, que ainda assim seguem com ideias odiosas a respeito do mundo e se vendo eternamente injustiçadas por ele, o que reforça a tese de que nem toda compaixão se faz útil, e nem todo perdão consegue promover mudanças.

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Ainda que pareça incoerente a princípio, são as pessoas de comportamento distorcido e torpe as que mais julgam, expressam preconceito e tecem críticas ácidas contra o comportamento alheio. Mas existe uma lógica simples nisso: as justas não vivenciam o mal no dia a dia para ver a maldade nas outras, e por isso até viram presas fáceis de quem a possui. Então, por um processo de identificação natural e involuntária, são as más que atribuem aos outros a realidade que trazem em si mesmas.

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Nos últimos anos venho descobrindo que não é propriamente o avanço da idade que faz com que as pessoas desenvolvam tanto medo da velhice, mas sim a indiferença social que passam a receber por parte dos demais, independente de revelar algum tipo de limitação física ou mental para realizar qualquer coisa com a mesma desenvoltura de antes. O que leva tantas ao ridículo de querer aparentar juventude eterna é o sentimento de se verem tratadas como débeis mentais por conta do passar dos anos

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Sempre me perguntei porque tantas pessoas, principalmente as que alcançaram patamares sociais elevados, entram num estado de angústia tão grande ao deixar de ocupar o mesmo espaço de antes por conta da idade, e algumas não. Descobri recentemente que se trata de despreparo para entender que a perda da evidência social é pré-requisito para que a sabedoria ocupe o espaço deixado livre na mesma proporção, e o desespero só chega para as que não o descobrem a tempo.

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O passar do tempo, principalmente no estágio avançado de nossas vidas, nos ensina uma lição preciosíssima: a de que poderemos continuar fazendo a maior parte das coisas que sempre fizemos, só que de modo muito mais simples. Aí se descobre de que o que acontecia antes é que não existia sabedoria o bastante para não complica-las tanto quanto acreditávamos que fossem.

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Algo verdadeiro se propaga sempre por muitas fontes, bem como o que não se mostra autêntico não se repetirá por várias, preservando a íntegra do que se divulgou na primeira. Assim, cruzar as informações do maior número possível de origens oferece muito mais confiabilidade quanto à veracidade do conteúdo, seguindo-se a identificação das mais idôneas dentre elas antes de emprestar-lhe aval, acurando o senso crítico para não aceitar como real a que mais se identifique com suas próprias crenças.

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