Cronicas de Luiz Fernando Verissimo Pneu Furado
Já vi pessoas até escolhendo a quem amar. Mas jamais descobri alguém que tenha escolhido em quem confiar. Uma vez perdida, a confiança nunca voltará a se instalar por mera decisão. Nem mesmo o perdão tem poder para resgatá-la, pois se o primeiro é concedido, a confiança que oferecemos precisa ser conquistada.
Quando já se perdeu contextualmente a referência em conceitos como verdade e mentira, tanto faz o que você diga, pois cada qual seguirá pensando o que já consolidou para si. Desmentidos, nestes tempos, são mera perda de tempo e fonte de desgastes. Busquemos, portanto, ser fiéis apenas às nossas crenças, não importando quais sejam, sem a proposta de fazê-las valer aos demais. Com a perda total dos referenciais à nossa volta, os únicos a que devemos atentar são os nossos proprios valores. Esses, sim, são aqueles dos quais não podemos nos distanciar.
Ninguém discute o poder terapêutico da música para nos colocar no clima de harmonização interna e devolver-nos o equilíbrio que este conturbado planeta nos retira. Mas há instantes em que até ela me chega como infratora, impondo sua presença ao silêncio de que a alma está carente. São nesses momentos que se descobre como o nada pode ser tudo o que se precisa, e do quão precioso pode ser esse encontro do todo universal com o todo de nós mesmos.
Questionar se Deus existe ou não existe, se o aparecer do homem convence mais pelo Gênesis ou pela teoria da evolução das espécies, e até se a terra é produto do Big Bang ou de uma decisão divina é perfeitamente razoável, independente do viés dogmático ou científico, já que não se possuem elementos concretos e incontestáveis para fundamentar qualquer dessas possibilidades. Mas daí a se propagar certas “filosofias” construídas sobre aspectos que a ciência já demonstrou há séculos, a que estudiosos como Galileu e Copérnico dedicaram suas vidas a comprová-lo, e a própria experiência humana revela no cotidiano mais simplório de que eles sempre estiveram certos, que me perdoem seus defensores, mas até os dogmas para embasar qualquer doutrina requerem um resquício de lógica que seja! Aquele tipo de fé que aposta num “surpreendente ineditismo” que contraria a inteligência até mesmo do que se tem diante dos olhos, não só deixa de ser uma hipótese a ser provada como expressa a mais autêntica burrice, pois que até pra ser ignorante há que se ter um limite!
O fundamentalismo - o primeiro entre tantos "ismos" que o homem inventa para emprestar um título à sua ignorância - é degradante não só por cegá-lo para a mais simplória das lógicas, mas também por extirpar de seu cérebro uma tênue esperança que seja de reverter o câncer mais temível que já se instalou na mente humana.
Não há crença que justifique abrir-se mão da reflexão de modo a não questionar a própria fé. Quando aquilo que se professa não admite dúvida que suscite a busca de entendimento, como esperar, então, que haja condição de absorver tal nível de verdade divina, se até para o mais reles contraditório não se faz uso da inteligência?
Tempos degradantes esses em que vivemos, quando as vozes que antes se levantavam contra o aviltamento social já não exteriorizam o desespero que lhes vai na alma. Percebendo-se mergulhados num lamaçal de infâmias, acabam sempre sufocando o grito ainda nas entranhas por saberem-se sem voz tanto por conta dos que se comprazem com a própria ignomínia, quanto pelos que a assimilaram como seu novo e natural status quo.
Um dos maiores prazeres que tenho atualmente é descobrir novas formas de simplificar o meu dia à dia: reduzir a operacionalidade para executar muito mais coisas, manter-me na contramão do consumismo e eliminar tudo que não seja indispensável e essencial, buscar no simples tudo – e apenas – o que me deixa feliz. O objetivo é emprestar leveza e significado à vida através do “mais com menos” introduzido à prática do cotidiano. Isso desvia o foco do prazer para a plenitude das pequenas coisas, elimina o stress pelo fácil gerenciamento e coloca empenho na harmonia do tempo com a vida por tê-lo dedicado ao que se mostra realmente importante e, porquanto, permanente!
A principal diferença entre uma ideologia que busca o bem coletivo com imparcialidade e uma seita fanática desprovida de pudores é que, na primeira, quando o propósito se perde, antigos apoiadores se rebelam e cobram o respeito à linha de ação. Já na segunda, após o líder assumir status de "divindade" seus seguidores permanecem defendendo o indefensável, independente da natureza das ações cometidas. A permanência, dessa forma, passa a justificar todos os meios empregados para mantê-la, sejam lícitos ou ilícitos, aceitáveis ou infames!
A sabedoria crística nos mostrou a necessidade de nos adequarmos ao mundo quando ensinou: "Sê manso como as pombas e astuto como as serpentes" (Mt 10:16). Mas ao lidar com tais extremos no convívio diário me arriscaria a completar: "...mas não esqueça de ser manso COM as pombas, e astuto COM as serpentes!"
Houve um tempo em que guardávamos fotos dos momentos importantes, e os amigos compartilhavam vídeos de viagens inesquecíveis. Hoje morbidamente compartilham-se as doenças, o batonzinho novo e até se o cocô do bebê saiu duro ou mole. Seria a internet fazendo crer que se precisa ser famoso ou um novo entendimento de que a vida só faz sentido quando levada a público?
Sentir-me honesto, antes de tudo, é assumir minhas próprias dúvidas e enxergar-me como um eterno buscador, ainda que nunca chegue ao fim do caminho, antes de adotar verdades consagradas que meu íntimo não identifica como minhas. É não temer ser condenado por um ser supremo que, pela minha lógica, plantou-me dúvidas para que eu não aceitasse, sem questionar, as verdades de outrem.
Com toda essa onda de violência e insegurança que hoje integra nosso cotidiano, percebo vários dos meus amigos que passaram a ter medo de sair de casa ou ir a todos os lugares que gostariam. Como eles, eu também sinto muitos desses medos. Mas tem um em especial que me assusta mais do que todos: é o de que eles se tornem maiores do que minha vontade de sentir a vida, e então os desafio aproveitando-a tanto quanto possa.
Fazer-se maior não é o mesmo que exibir sua força. As águas dos rios nos mostram que sua vitória sobre as pedras no caminho para o mar não é lançar-se sobre elas, mas contorna-las sem as quebrar, livrá-las de suas arestas e deixar-lhes o limo para que não firam. Assim podem seguir sua missão de compor um poderoso oceano que herdou deles humildade para se posicionar abaixo de todos os rios do mundo.
Firmar posição de que a Terra é o único lugar com vida inteligente no universo, frente à minúscula dimensão do planeta que habitamos, não só se mostra de uma pretensão igualmente ridícula como também de ignorância comparável a de quem refuta a vida em uma caverna porque a escuridão o impede de enxergar dentro dela. Diante do que não entende a mente deveria buscar na dúvida sua única afirmação de inteligência.
Ao contrário do que se acredita, a ameaça à humanidade não virá do espaço através de uma invasão alienígena inesperada. Ela vai sendo introduzida quase imperceptivelmente por quem já está entre nós, estendendo sutilmente sua rede de poder bem nas barbas de uma massa acomodada e conivente que, no momento do golpe final, se apresentará como seus primeiros adeptos e, ao longo do tempo, como principal força de sustentação.
O estado de direito com que um dia sonhei foi o que nos daria advogados para levar justiça aos inocentes, promotores para que a impunidade não se tornasse ancoradouro de culpados, e juízes capazes de entender a diferença entre ambos. Bastaria esses estatutos se mostrarem fiéis a seus propósitos para mudar a realidade que nos foi vendida como “direitos humanos”.
Nenhuma doutrinação passiva é legítima. É direito de todos entender as interfaces de suas peças para montar o próprio quebra-cabeças, o que torna odioso o dogmatismo por ação externa para usurpar a decisão alheia, com o intuito de ampliar poder e destituir as pessoas do seu inalienável direito de escolha. E aos que se mostrem funcionalmente incapazes de fazê-lo deve ser garantida proteção contra o domínio dos que estão atrás apenas da força emprestada pelo volume, e não pelo pensamento.
Como pais, sempre cometeremos erros com nossos filhos e eles farão o mesmo com os deles, por conta da inexperiência da juventude quando os geramos, até a maturidade nos oferecer a todos uma segunda chance. Se as feridas de ontem, porém, não cicatrizaram, cabe-nos perguntar se este segundo tempo foi usado para corrigir o primeiro ou se seguimos repetindo os mesmos erros, mesmo sendo possível fazê-lo. Haverá, por certo, um ponto da estrada em que já não poderemos culpa-los por seu amor não ter resistido à inutilidade de tantas esperanças traídas, mas em qualquer caso nossa parte precisará estar cumprida.
Nossos filhos têm todo o direito de cobrar-nos presença, já que personificam nossas escolhas e não há alegação válida para não dar-lhes suprimento. Mas pais eles não escolhem, e não lhes cabe o dever de dar amor a quem não tenha antes conquistado seu respeito. O que diferencia o pai de fato do pai de direito – bem como o direito legal do moral – não é o ato de se gerar um filho, mas o de fazer-se pai, que é muito mais substantivo e meritório do que o papel de mero provedor.
