Coleção pessoal de TiagoScheimann
Meus silêncios não são ausência de som, são gritos que aprenderam a se comportar para não assustar os que ainda acreditam na leveza da vida. Por dentro, sou um estrondo de vidros quebrados, por fora, apenas a poeira que se assenta após a queda.
Existe uma beleza aterrorizante em ser um náufrago no próprio quarto, vendo as paredes se transformarem em maré enquanto as memórias flutuam como destroços. Não peço por terra firme, peço apenas que a água não apague a tinta com que descrevo o abismo.
Escrever é o meu jeito de dizer ao tempo que, embora ele esteja vencendo a batalha contra o meu corpo, minha voz ainda ecoa nos vãos das horas. Cada palavra é um prego que martelo na parede do esquecimento, tentando segurar o retrato de uma alegria que já não reconheço.
Às vezes sinto que minha alma é um piano de cauda abandonado sob a chuva, onde cada gota que cai sobre as teclas evoca um acorde de saudade que ninguém mais sabe tocar. A música que resta em mim não é para os ouvidos do mundo, mas para o silêncio dos que já se perderam de si mesmos.
A dor é o único mestre que nunca mente, ela nos despe de todas as vaidades até que sobre apenas o osso da nossa fragilidade radical.
O sono, para mim, é apenas um campo de batalha onde os monstros do dia trocam de roupa para continuar o cerco sob o véu da noite.
Sentir-se desperto em um mundo de sonâmbulos é a punição de quem ousou olhar para o sol da verdade sem a proteção das mentiras sociais.
Viver nesse estado não é uma escolha estética, é a única forma de habitar um corpo que já não reconhece o sol como uma promessa.
Não se entra aqui sem se sujar de poeira e sem sentir o frio que emana de lareiras apagadas há décadas pela chuva da indiferença.
Há um ranger de tábuas velhas em cada pensamento meu, um eco de presenças que partiram e deixaram apenas o vácuo como inquilino.
Escrever é o gesto de quem já compreendeu que o grito não alcança ninguém, resta, então, converter o pavor em grafia. É usar o próprio sangue como tinta para riscar uma saída numa parede de concreto que jamais cederá aos ombros cansados. Cada frase estanca, por instantes, uma hemorragia interna que o mundo ignora enquanto exige sorrisos e produtividade. Sou o náufrago que, em vez de pedir socorro, consome os últimos fôlegos descrevendo a beleza aterradora do oceano que o afoga.
Minha alma tem a textura de uma casa abandonada, onde o vento sopra entre as frestas de memórias que eu deveria ter enterrado.
Sou o somatório de insônias, esperanças remendadas e a vontade absurda de continuar, apesar de todos os prognósticos.
A escrita é o meu suporte de vida. Nada romântico, apenas o oxigênio necessário para quem se sente sufocado pelo real.
Não busco salvadores, busco testemunhas. Alguém que valide minha travessia sem tentar consertar o que é, inerentemente, humano.
Minhas cicatrizes criaram relevos na minha alma, elas limitam meu alcance, mas definem a singularidade da minha jornada.
Sou um caos que encontrou na poesia sua única forma de ordem. Sem os versos, eu seria apenas estilhaços.
Meu silêncio é transbordamento, não vazio. É o resultado de sentir tanto que nenhuma palavra parece suficiente para traduzir.
Luto diariamente para não me tornar um fantasma de mim mesmo, um corpo que ocupa espaço, mas que já não habita o presente.
Abandonei a busca pelo final feliz. Hoje, busco apenas o final honesto, aquele que respeita a complexidade do caminho.
