Coleção pessoal de TiagoScheimann

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Há algo quase indestrutível em quem já não teme mais se perder, porque já esteve perdido e voltou.

Eu não venci a dor eu aprendi a coexistir com ela sem permitir que ela decidisse o meu fim.

Existe uma lucidez perigosa em quem já esteve no fundo e percebeu que ainda assim continuou existindo.

​Às vezes, o olfato me trai e me devolve aquele cheiro ferroso, acre, de um tempo que eu gostaria de ter deixado para trás. Vejo-me novamente confinado naquelas caixas de concreto frio, em quartos de hospital onde o sol nunca ousava entrar com força. A memória é um curto-circuito, flashes de um ambiente sem relevo, uma monotonia de cinzas onde o único relevo era o barulho incessante das máquinas monitorando o que nos restava. É uma lembrança que não flui, ela fere em fragmentos frios e mecanizados.


- Tiago Scheimann

​Viver é vagar por um inverno sem margens, onde os pés descalços tateiam o abismo sob o manto de uma chuva que não lava, mas petrifica. Sob o negrume de noites sem fim e dias de um cinza estéril, o horizonte se dissolve, e a jornada deixa de ser sobre o destino para se tornar a pura resistência da matéria contra o nada.


- Tiago Scheimann

A vida não me moldou com cuidado, ela me atravessou até que eu descobrisse o que em mim era inquebrável.

Eu permaneci não porque havia esperança, mas porque algo em mim se recusou a obedecer ao fim.

Há um silêncio dentro de mim que não é ausência, mas excesso de tudo que nunca pôde ser dito.

Eu não me reconstruí, eu me reorganizei em torno do que não conseguiu morrer.

Há uma forma de existência que nasce depois do colapso, uma existência que não depende mais de sentido, apenas de permanência.

Carrego em mim a estranha mutação que nasceu no instante em que percebi que, mesmo em ruínas, ainda havia algo que se recusava a ceder, um pulso teimoso, quase indomável, insistindo em existir contra o próprio vazio.

Carregar cicatrizes é provar que a vida tentou, mas não conseguiu te vencer.

Eu já estive no fundo, e foi lá que encontrei a base da minha reconstrução.

Sobreviver é uma vitória que só entende quem já pensou em desistir.

A vida não me poupou, mas também não conseguiu me apagar.

Eu não sou o que me fizeram, sou o que sobrou depois do impacto, o que sangrou, caiu… e ainda assim se levantou.

A fé não elimina o medo, mas impede que ele seja o autor da minha história.

Mesmo quebrado, eu continuei inteiro o suficiente para recomeçar mais uma vez.

A dor me ensinou a enxergar profundidades que a felicidade jamais ousaria mostrar.

Há uma força invisível em quem decide não desistir, mesmo quando o mundo inteiro já virou as costas.