Coleção pessoal de TiagoScheimann
O amor nasce simples como estrada de chão, cresce entre olhares contidos e promessas impossíveis, e sofre calado porque nem todo sentimento pode atravessar a cerca que separa o coração do destino.
Em partida, o amor não vai embora de uma vez, ele se despede devagar, deixando a casa cheia de ecos, porque algumas ausências continuam morando na gente muito depois do adeus.
Na gaiola invisível do destino, o canarinho aprende que cantar é resistir, pois o silêncio seria a verdadeira morte antes do fim. Entre grades feitas de medo, tempo e saudade, a voz nasce pequena, mas atravessa o mundo. Cada nota carrega a memória do céu perdido, cada trinado é um pedido de liberdade que ninguém cala. Mesmo prisioneiro, ele ensina aos homens que quem canta com a alma nunca está totalmente preso.
A solidão às vezes vem com voz de amigo. Sento-me com ela à mesa e aprendo a ouvir. Ela me conta segredos que o mundo esqueceu de me dizer. Quando me despeço, sinto que cresci um centímetro por dentro. É estranho, mas a solidão tem lições que a alegria não ensina.
Os dias me ensinaram a carregar o mínimo necessário. Até o excesso de lembrança vira carga insuportável. Por isso guardo poucos objetos e muitas memórias escolhidas. Elas me aquecem como um fogo que não reclama. E me permitem caminhar sem tropeçar nas coisas velhas.
Existe uma música que só tocamos na cabeça. Ela passa notas de perda e refrões de resistência. Se alguém escutar, talvez entenda por que sorrimos devagar. A vida é uma partitura mal escrita que insistimos em interpretar. E há beleza em quem desafina com propósito.
As lembranças desfilam como cartas nunca enviadas. Cada envelope carrega um peso que cansa o peito. Algumas palavras queimam quando as leio de novo. Outras, surpreendentemente, consolam como um cobertor velho. E então percebo que cuidar de si é aprender a costurar as próprias roupas rasgadas.
No fim das tardes, o mundo baixa a cabeça como se rezasse. As sombras alongam os desejos que não viraram atos. Eu caminho com a sensação de ter esquecido algo essencial. Por vezes o essencial é apenas o nome de alguém. E chamar esse nome é como abrir uma porta sem saber o que vem depois.
Há um silêncio que tem cheiro de infância perdida. Ele se esconde nas gavetas e nos retalhos do falar. Quando me ponho a escrever, o silêncio ensina como ferir com calma. Sinto que as palavras são pontes frágeis entre mundos. E atravessá-las é ato de coragem e covardia.
Aprendi que o tempo não é cura, apenas mateiro. Ele disfarça as dores com cascas novas e leves. Mas quando anoitece, a lembrança volta com precisão de relógio. Há melodias que não tocam mais no rádio, mas habitam meus ossos. E eu aprendo novamente a escutar essa partitura antiga.
Quando me olho no espelho, o reflexo traz um mapa antigo. Marcas de batalhas que ninguém viu, trilhas sem sinal. Ainda assim, há um brilho tímido como vela em igreja pequena. A esperança é um resto de luz que insiste em ser farol. Sento-me e soube que, ao menos, sei esperar.
A chuva hoje tocou a janela como quem pede licença para entrar. Dentro de mim há móveis que rangem com lembranças. As palavras saem mansamente, como se pedissem perdão. Às vezes penso que sou feito de corredores vazios. E nesses corredores ecoam os passos que um dia me ensinaram a voltar.
Tenho um bolso cheio de noites que não cabem no sono. Cada uma delas traz a voz de um passado que insiste em ensinar. Guardo perguntas que não ouso responder em voz alta. O corpo se cansa mas o pensamento não dorme. Há uma leve certeza de que seremos menos estranhos à vida quando aprendermos a perdoar o silêncio.
No terreno estilhaçado onde a minha dor cavou raízes, aprendi que o corpo é um manual de guerras antigas, cada cicatriz uma sentença gravada na pele que o tempo tentou apagar, mas não conseguiu, e é nessa arena interna, entre o sopro de horror e o fio tênue da esperança, que a alma, ferida e incansável, se levanta como chama obstinada na noite, jurando ser mais que sobrevivência, ser prova viva de que o abismo pode engolir um corpo inteiro e, ainda assim, não apagar a luz que insiste em nascer no silêncio entre uma respiração e outra.
As lembranças são como sombras que não permitem que a luz me toque, são uma muralha que não tenho forças para derrubar. Atrás dela, o tempo se acumula em silêncio, transformando a dor em rotina. Não sinto saudade desse tempo, nunca senti. Tudo se tornou peso, um fardo que as vezes, penso em desistir de carregar, e sigo apenas existindo, mesmo sem saber se ainda sei viver.
A Bíblia é o único livro de amor em que o protagonista escolhe dar a própria vida pelo vilão da história.
Se alguém ousasse mergulhar na minha mente, seria imediatamente entorpecido pelo caos, aqui não existe repouso, apenas um conflito eterno entre passado e uma sucessão de pensamentos perturbadores que fazem da desordem o meu único lar.
Viver é uma apostilha contínua de recomeços e contratos rasgados. Assinamos promessas com tinta que escorre, juramos lealdade a dias que fogem. Ainda assim e talvez por isso, a vida nos dá segundos para reescrever, e é nesse segundo, pequeno e empedernido, que volto a acreditar.
Quando a dor parece ocupar toda a sala, eu falo com ela como a um parente. Pergunto seu nome, ofereço café, faço perguntas óbvias sobre seu humor. Às vezes ela responde com socos, outras, aceita sentar e dividir o jornal. Descubro que humanizar o sofrimento é um modo de domesticar o desespero.
O perdão próprio é um gesto de arquitetura: derrubo pilares, reconstruo paredes. Não é reconstrução imediata, é obra que avança com oficina aberta, com barro, paciência, e a presença de quem não teme lama. No fim, a casa fica mais simples, mas com janelas que deixam o sol entrar.
