Coleção pessoal de TiagoScheimann
Minha mente é um calabouço, frio, escuro e esquecido. Aqui dentro, o tempo é relativo, um nó entre o passado e o presente. Tudo é confuso, há mais perguntas que respostas. Não sei quanto tempo faz, nem se a liberdade é uma promessa real. Enquanto o fim não vem, vou aceitando esse estado de sobrevivência.
Os espíritos imundos não param de sussurrar no meu ouvido, vivo em um cemitério de lápides vazias, quebradas, com nomes escritos que não consigo decifrar. Os fantasmas que me atormentam não têm rostos, não falam comigo, apenas me observam na escuridão em que me enterro.
Há uma tristeza que é hereditária, que vem no sangue como uma herança maldita de antepassados que também não souberam o que fazer com a própria vida. Eu tento quebrar essa corrente usando a poesia como um alicate, cortando os elos de amargura que tentam me prender ao passado.
O amor é um hóspede barulhento que bagunça toda a casa da nossa alma e depois vai embora sem ajudar na limpeza, deixando apenas o cheiro de um perfume que odiamos lembrar. Mas, no fundo, a gente sabe que a casa vazia e limpa é muito mais triste do que o caos que ele causou.
Chopin tocava o piano como quem acaricia uma ferida aberta, buscando a nota exata que fizesse a dor se transformar em beleza sonora. Eu tento fazer o mesmo com as letras, buscando a palavra que faça o meu peito parar de arder por alguns segundos de leitura silenciosa.
A fé não me tira da tempestade, mas me dá um remo e a ilusão necessária de que eu posso chegar à outra margem se continuar remando com fé. Às vezes, a ilusão é o que nos separa do fundo do mar, e eu a abraço com a força de quem não tem mais nada a perder.
A saudade é uma onomatopeia que ninguém consegue pronunciar, um eco de passos que nunca chegam a tocar o chão do corredor. Escrevo o teu nome no vidro embaçado, esperando que o frio traduza em som o que o peito tenta, mas falha em organizar. No fim, resta apenas esse vocábulo estranho, um balbucio oco, a onomatopeia de um adeus que não teve coragem de fazer barulho.
Minha alma tem a textura de um papel de carta que foi dobrado e desdobrado tantas vezes que as marcas da dobra agora fazem parte da mensagem. Sou um texto cheio de rasuras, correções de última hora e uma caligrafia que revela o tremor da mão que o escreveu.
O tempo é um ladrão que nos rouba a juventude, a saúde e os amigos, mas que, ironicamente, nos deixa a sabedoria de que nada disso nos pertencia de fato. Somos apenas guardiões temporários de tesouros que a terra acabará por reclamar para si no final da jornada.
A depressão é como um nevoeiro que entra pela janela aberta e apaga as cores do jardim, deixando tudo com um tom de cinza-hospitalar que nos tira o apetite de viver. A gente aprende a tatear os móveis e a caminhar no escuro, esperando que o sol decida voltar das suas férias eternas.
Sinto que minha vida é um filme em preto e branco passando em uma sala de cinema vazia, onde eu sou o único espectador que não consegue ir embora antes dos créditos finais. A beleza está no contraste, na forma como a sombra define a luz e a ausência define o que restou.
Meus olhos já viram tanta coisa desmoronar que hoje eu desconfio até das montanhas, esperando que elas também revelem sua natureza de areia a qualquer momento. A impermanência é a única constante, a única verdade que o tempo não consegue desmentir com suas promessas de eternidade.
A solidão é o preço que se paga por ter uma alma que não aceita imitações e que prefere o isolamento à companhia de quem só sabe falar do que é superficial. É um custo alto, mas a vista do deserto é muito mais honesta do que a da cidade iluminada por luzes artificiais.
O mundo é um moinho que tritura nossos sonhos até que eles virem farinha para o pão de cada dia, uma massa insossa que comemos apenas para sobreviver. Eu tento temperar essa massa com um pouco de poesia amarga, para que o sabor da existência não seja totalmente esquecível.
Há um ranger de tábuas velhas em cada pensamento meu, um eco de presenças que partiram e deixaram apenas o vácuo como inquilino da minha memória. Eu converso com as sombras, não porque perdi o juízo, mas porque as sombras são as únicas que sabem ouvir sem interromper.
Minha escrita nasce da dor e da fé, desse atrito constante entre o que eu perdi e o que eu ainda espero encontrar em algum lugar além do horizonte. É o fogo que surge do choque entre a pedra da realidade e o aço da minha vontade de continuar sendo.
A vida não é sobre chegar ao topo da montanha, mas sobre o que você escreve nas pedras enquanto está tentando não escorregar no barro da encosta. O topo está sempre nublado, a beleza está no esforço da subida e nas feridas que o caminho nos deixa de presente.
O coração é uma caixa de música quebrada que, de vez em quando, solta uma nota perfeita no meio do ruído de engrenagens emperradas. É por essa nota que eu ainda luto, por esse lampejo de harmonia que justifica todos os anos de dissonância existencial.
A tristeza é um mar calmo onde a gente pode afundar sem fazer barulho, deixando que a pressão da água nos abrace até que não sintamos mais o frio da superfície. É um refúgio perigoso, um abraço de ferro que nos protege do mundo ao custo de nos tirar o ar.
Sou feito de insônias e cafés frios, de orações sussurradas para um teto que nem sempre responde, mas que serve de anteparo para os meus medos. A fé é esse diálogo com o silêncio, onde a resposta não é uma voz, mas a força para aguentar mais um dia.
