Coleção pessoal de TiagoScheimann
Carrego cicatrizes que ninguém vê.
Mas são elas que moldam meus passos, minhas escolhas, meus medos e minhas pausas. Elas me acompanham como sombras discretas. E, mesmo invisíveis, determinam muito do que eu sou.
Nem todo silêncio é paz. Às vezes ele é o som mais alto que eu não consegui dar. É o acúmulo de tudo que ficou preso. É o eco de sentimentos sem saída. E o que não foi dito acaba vivendo, pesado, dentro de mim.
O mundo exige pressa. Minha alma, porém, ainda caminha devagar. Ela precisa olhar para trás, entender o que ficou pelo caminho, porque seguir sem elaborar a dor é apenas outra forma de se perder.
Não sou inteiro. Sou feito de remendos, restos, reconstruções e adaptações. Mas talvez seja justamente essa imperfeição que me sustente. Quem já se quebrou aprende a voltar de outro modo. E seguir, às vezes, é isso: refazer-se com o que sobrou.
Existe uma parte de mim que continua acreditando. Mesmo quando tudo ao redor desmente qualquer esperança. É ela que me mantém de pé quando o resto já vacila. É ela que me empurra adiante. E, por vezes, essa pequena chama vale mais do que qualquer certeza.
Não é falta de força. É excesso de peso carregado em silêncio. São histórias que ninguém viu, guerras que ninguém nomeou, e ainda assim me cobram como se nada tivesse acontecido.
Aprendi que algumas feridas não cicatrizam por completo. Elas apenas aprendem a coexistir com a minha presença. São hóspedes antigos de uma casa cansada. E eu sigo arrumando os escombros para que ainda seja possível chamar isso de vida.
Há noites em que minha mente se torna um labirinto sem saída. Penso, penso e, quanto mais mergulho, menos me encontro. Há partes de mim que parecem morar em um lugar inalcançável. Nem sempre consigo tocar o que sinto. E isso também é uma forma de dor.
Resistir, muitas vezes, não tem nada de heroico. É apenas permanecer no dia mais difícil. É levantar sem acreditar. É seguir mesmo sem sentido. É existir apesar de tudo aquilo que tenta apagar o que ainda resta.
Sou feito de silêncios mal resolvidos. De palavras que nunca tiveram coragem de nascer. De sentimentos que aprenderam a se esconder para continuar existindo. E, mesmo assim, dentro desse caos contido, há algo em mim que insiste em não desistir.
Escrevo porque, por vezes, transfigurar a dor em linguagem é a última tentativa de impedir que ela me consuma de dentro para fora. Ainda assim, existem melancolias que transcendem as palavras, perpetuando-se em regiões abissais da alma onde o tempo não possui poder curativo, apenas condiciona o espírito a sustentar, com silenciosa elegância trágica, o incêndio irreversível da própria existência.
- Tiago Scheimann
Há memórias que queimam com tamanha profundidade que deixam de ser apenas lembranças e passam a integrar a própria estrutura emocional do indivíduo. Tornam-se permanências invisíveis, cicatrizes incorporadas ao pensamento, marcas que o tempo não dissolve, apenas aprende a esconder sob camadas de rotina e aparente normalidade. E então, nos instantes mais inesperados, um som, uma palavra, um cheiro ou um simples silêncio devolvem tudo com violência absoluta, como se o passado jamais tivesse realmente partido.
- Tiago Scheimann
As recordações não me atingem de maneira abrupta, elas possuem a crueldade das coisas lentas. Infiltram-se em silêncio, ocupam espaços esquecidos da consciência e começam a consumir a alma de forma gradual, quase imperceptível. São como brasas ocultas sob cinzas aparentemente frias: durante muito tempo parecem adormecidas, até que, de repente, voltam a arder com uma intensidade devastadora. E talvez seja justamente essa lentidão que torne tudo mais doloroso, porque não há explosão capaz de encerrar o sofrimento, apenas um incêndio contínuo e silencioso que corrói por dentro sem jamais se extinguir completamente.
- Tiago Scheimann
Entre textos inacabados, frases dispersas, pequenos poemas escritos à margem da lucidez e rabiscos nascidos de pensamentos transitórios, vou acumulando fragmentos de mim mesmo, vestígios silenciosos de tudo aquilo que nunca encontrou forma suficiente para ser dito em voz alta. Cada palavra parece carregar resíduos de memória, como se a tinta tivesse sido diluída em melancolia e o papel se tornasse incapaz de suportar o peso invisível das lembranças que insistem em sobreviver dentro de mim.
- Tiago Scheimann
A dor me ensinou verdades que a felicidade jamais revelaria. Mostrou-me profundidades que eu preferia não conhecer. Ainda assim, foi ali que aprendi a enxergar o invisível. Talvez por isso eu veja beleza onde antes só havia superfície e distração.
Há dias em que tenho a perturbadora sensação de estar me fundindo à própria cadeira do escritório, como se, aos poucos, eu deixasse de ocupar aquele espaço e passasse a pertencer a ele. O ambiente corporativo, com suas luzes artificiais, o zumbido contínuo das máquinas e a liturgia repetitiva das obrigações diárias, por vezes parece deixar de ser apenas um local de trabalho para transformar-se em uma espécie de universo hermético, uma bolha silenciosa onde o tempo perde organicidade e a existência se resume a telas acesas, notificações incessantes e pensamentos confinados em intervalos cada vez menores de lucidez.
Existem momentos em que o corpo permanece estático diante do monitor, mas internamente há um colapso silencioso em andamento. A mente atravessa labirintos de exaustão emocional, pressões invisíveis e reflexões que jamais são verbalizadas. Sustentar produtividade contínua enquanto o espírito lentamente se desgasta exige uma força que raramente é percebida por quem observa de fora. E talvez seja justamente essa invisibilidade que torne tudo mais sufocante: a obrigação quase involuntária de aparentar estabilidade enquanto, por dentro, algo vai se tornando progressivamente mais fatigado, mais distante, mais anestesiado.
Às vezes, o escritório deixa de parecer um ambiente profissional e assume contornos existenciais. As paredes tornam-se fronteiras simbólicas entre o mundo exterior e uma realidade paralela feita de prazos, silêncios protocolares e uma rotina tão reiteradamente mecânica que passa a corroer a percepção dos próprios dias. Há uma estranha melancolia em perceber que grande parte da vida adulta se desenrola sob luzes frias, cercada por teclados, planilhas, relatórios e relógios, enquanto fragmentos inteiros da subjetividade vão sendo silenciosamente arquivados em nome da funcionalidade.
E o mais inquietante é que o verdadeiro esgotamento raramente chega de maneira abrupta. Ele se infiltra de forma gradual, quase imperceptível, dissolvendo pequenas capacidades humanas: o entusiasmo espontâneo, a contemplação despretensiosa, a leveza diante da existência. Até que, em determinados dias, tudo o que resta é a sensação de estar enclausurado dentro da própria rotina, como se aquele escritório tivesse se tornado não apenas um lugar de trabalho, mas uma extensão psicológica da própria solidão.
- Tiago Scheimann
Nem todo recomeço nasce da esperança. Alguns surgem da exaustão de permanecer no mesmo lugar. Chega um momento em que ficar dói mais do que mudar. E então, sem força e sem certeza, a alma escolhe partir. Não por desejo de novidade, mas por fome de sobrevivência.
Há um cansaço que não mora no corpo, mas na alma. É o peso de existir sem interrupção, de sentir demais em um mundo que exige dureza, e ainda assim continuar respirando como quem tenta bastar.
Carrego em mim versões que não resistiram ao tempo. São fragmentos de quem eu fui e precisei abandonar para seguir adiante. Às vezes sinto falta até das dores antigas. Elas, ao menos, eram conhecidas, este vazio novo ainda me nomeia.
Nem toda fé é clara, serena ou luminosa. Algumas nascem no escuro, entre dúvidas, perdas e noites longas. Crer, nesses momentos, não é conforto. É quase o último fio que impede a alma de afundar.
E, por mais frágil que pareça, esse fio ainda me sustenta.
