Coleção pessoal de SabrinaNiehues
Ele me disse que só gosto de fazer coisa errada. Talvez ele tenha razão. E talvez eu devesse ter dito que meu maior erro é ele.
Eu trocaria todas as festas
Todas as baladas
Todas as bebidas
Todos os meus cigarros
Os meus baseados
E tudo o que tenho
Apenas pelo teu amor
Já tem mais de oito meses que eu lhe fiz uma promessa. Já tem mais de oito meses que estou cumprindo-a. Lembra-se dela? Eu lhe prometi nunca mais te ligar. E não liguei, apesar de querer. Eu nunca soube se você mudou de número. Você disse que mudaria. Eu gostaria de saber se o fez. Mas eu estou tentando manter minha palavra. Não hei de lhe ligar.
O conto da flor rosa
Percebi que nos últimos dias ele estava meio cabisbaixo. Então resolvi, como ele sempre faz com todos, alegrá-lo. Só que descobri segundos depois que eu não tinha muito bem esse dom. Mas pensei em qualquer coisa, por mais sem graça que fosse. Então, me aproximei dele e, com as mãos juntas e fechadas, estendi-as à ele.
- Ei, tenho uma coisa para lhe mostrar.
Ele, um tanto curioso, perguntou-me o que era. Então, abri as mãos, ainda mantendo-as juntas, e perguntei-lhe se ele conseguia ver uma flor rosa. O fato era que não existia nenhuma flor rosa em minhas mãos. Elas estavam vazias. Mas ele disse:
- Sim, estou vendo.
Olhei-o um tanto curiosa. Então ele soube jogar. Soube usar a imaginação. E eu prossegui.
- Ok. Agora pegue essa flor nas mãos.
Ele fez de conta que pegava, porque a flor não existia. Feito isso, eu disse:
- Agora coloque-a no bolso. Mas, quando chegar em casa, tire-a do bolso para não amassá-la. Cuide bem dela.
Ele fez de conta que guardava uma flor no bolso da calça. e depois ele disse:
- Ok, mas a flor vai morrer depois de uns dias, e aí o que eu faço?
- Se quiser, chore. Ou apenas lembre dela. Lembre da beleza dela.
Terminado isso, me afastei dele. No dia seguinte, ele veio à mim:
- A flor ainda não morreu, mas já está murcha.
- Tudo bem, é a vida.
Ele ficou me olhando, parecia um olhar curioso. Perguntou-me:
- O que quer dizer com a história da flor?
- Ainda não compreendeu?
- Não.
- Pensei que já.
- Mas não entendi ainda.
- Ok, vou lhe ajudar. É simples. Relembre a história da flor. Agora imagine, no lugar da flor, uma pessoa. Uma pessoa qualquer, sem identificação.
Passados alguns segundos, eu prossegui:
- A flor é alguém que lhe ama. Você deve cuidar de quem lhe ama. Você deve apreciar a beleza interior de quem lhe ama. Você deve fazer isso antes que seja tarde. Antes que essa flor morra. Porque todos nós vamos morrer um dia, e não se sabe quando. Então saiba dar valor enquanto tem.
Olhos de Ressaca
Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.
Eu vou. Vou errar junto com aquelas que minha mãe tanto aprecia. E um dia quero dizer à ela sobre esse erro. Mas só para vê-la com a cara no chão. Só para vê-la se arrepender do mal que me causou. Eu vou para me vingar.
Tudo começou com a filosofia
E nós conversávamos sempre
Ele me chamava, eu chamava ele
E nós citávamos Da Vinci
Sócrates e outros filósofos
Nós chegamos a citar o amor
A dor, a política, a vida
Nós só não citamos nós dois.
Nem a mais incrível imaginação consegue imaginar o desespero. Se não foi sentido, jamais será compreendido.
Só quem sabe, só quem sentiu, sabe como é o desespero. Nesse caso, nem a mais incrível imaginação consegue imaginar o desespero. Se não foi sentido, jamais será compreendido. Você que está lendo isso, se é que alguém algum dia vai ler, você já sentiu o desespero bater à porta? Já pensou que estivesse ficando louco? Eu já. Eu tentei melhorar, mas ninguém colabora. Nem mesmo eu colaboro. É difícil para uma depressiva como eu sair da depressão. É mais difícil ainda a pessoa querer. E eu já não quero mais. Eu não quero mais ser feliz. Eu amo alguém que jamais me amará. Falo isso porque sei que é assim que é. E eu não posso passar minha vida ao lado de outra pessoa, pois eu estaria mentindo para mim mesma e para a outra pessoa também. Eu não estaria sendo justa. Não posso fazer com que uma pessoa perca seu tempo ao meu lado. Nem quero. Eu sei que viverei minha vida solitariamente. Talvez eu tenha como companhia uma carteira de cigarros, um litro de vodca, uns papéis e uma caneta. Já vai ser o suficiente. E então, quando eu olho para a frente, eu já sei o que me espera. E eu não acho que valha a pena. A única coisa que me leva pra frente é o fato de poder olhar para ele todas as semanas e a minha pequena vontade de me tornar professora de filosofia e tentar, dessa pequena forma, mudar alguma coisa neste mundo. Mas eu não sei se vale a pena ficar aqui apenas para tentar melhorar o mundo.
Eu não faço nada. Não sei nada. Não serei nada. Sempre fui o nada. Eu ainda sou nada. Vou morrer sendo nada. E mesmo sendo nada eu ainda consigo atrapalhar tudo. Eu sinto o nada. Meu nome é nada. Eu poderia morrer e todos sentiriam nada por mim. E nem quero que sintam. Se não sentiam enquanto eu era viva, depois de morta é que não será mais necessário. Depois de morta eu continuarei sendo nada.
CARTA PARA O MEU AMOR
Preciso dizer que te amo. Eu sei que não é necessário, pois eu sei que você já sabe disso. Sei que pode ver nos meus olhos e nos meus gestos. Mas eu apenas preciso que você tenha certeza. E nenhuma prova seria melhor que esta. Eu dizendo que te amo. Na verdade, escrevendo. Te escrevo essa carta porque não sei falar essas coisas muito bem. E eu também não saberia me expressar muito bem com palavras faladas. Não fui acostumada a expressar meus sentimentos através de palavras. Mas como sei que isso é importante, tento, por meio dessa carta, dizer para ti o quão importante me és. O quão importante sempre me será. Mesmo que não seja meu.
