Coleção pessoal de RosangelaCalza
Indefinição
Neves lá longe... perpétuas.
Sobre os pés estrada negra.
Curvas que se sucedem.
O vento é forte e gélido
Os homens nem sabem o que perseguem.
A lua brilha no céu
As estrelas mansamente bruxuleiam.
Céu sem nuvens.
Estrelinhas faceiras por ele passeiam.
Cheio de música o mar.
As ondas na praia a se esparramar.
O mar ondula.
Eu, armada de medo, mas aprendi sim o mundo enfrentar.
Equilíbrio
O que é a caminhada
quando se acredita que o fim vai dar em nada?
O que são os obstáculos
se pra nada vai servir o esforço que faço?
Na linha do tempo
não dá pra firmar os passos...
Me equilibro...
De nada serve o esforço que faço.
As curvas da vida estão me deixando tonta.
Tento como uma louca alinhar tudo o que a vida comigo apronta.
Cheia de medos...
Cheia de medos...
Sigo?
Vazia de todo o resto...
será que consigo?
Pode o medo me atrapalhar?
Pode o medo meus olhos vendar?
Pode o medo me paralisar?
Pode o medo me sufocar...
e de medo me matar?
Decidiste partir.
Eu quis te seguir.
Me impediste - "Não, comigo tu não podes ir".
"Sem mim, a partir de agora, pelo teu caminho deves seguir."
Sem ti não vou conseguir!
"Ah! Sim.... consegues sim..."
Disseste pra mim.
"O caminho é seguro.
Não tenhas medo do escuro.
Alguém vais encontrar...
bem aí na frente... no teu futuro."
Tristemente sorri.
Não era do meu caminho o medo...
Não era de mim que eu estava falando...
Meu medo: é tu... sem mim pelo mundo andando.
Finjo
Enquanto isso eu finjo que vou... faço de conta que nada mudou... não preciso mais fingir sorrisos... estão eles escondidos.
Mundo perdido?
Há uma guerra se travando por aí... há tanto ódio sendo destilado... em inseguranças estamos banhados.
Guerra externa: indivíduos contra indivíduos que nem se conhecem... sim, sabem que existem... pelas redes sociais. Poderosa essa rede: enredou-nos. Por mais que tentemos nos desenredar, ela está bem aí a nos abocanhar. Já tentei dessas cordas me desvencilhar, mas - tenho certeza de que você também já tentou se deletar desse mundo invisível, cansada de tela do computador... onde se vê tanta gente sempre, mas incapaz de ver a dor... até porque quando em frente à tela, somos todos amor.
Guerra interna: coração no peito apertado... desolado. Vamos exatamente pra que lado? Sensação de ondas do mar de um lado pra outro a nos jogar. Viemos à tona... pra logo em seguida afundar... mal dá tempo pra um respirar.
E assim vamos seguindo. Fingindo.
Uma hora tem que acabar. Uma hora o vendaval vai se acalmar. Uma hora vamos recomeçar: num caminho de flores, num mundo só de amores, numa vida cheia de cores.
Por enquanto é cinza... muitos tons de cinza.
Acalma teu coração enquanto espera... espera enquanto finge... finge enquanto espera... e finge que não finge.
Ah! e lembra: nunca ninguém disse que seria fácil... só que, sem Deus,
certamente é bem mais difícil.
"Why are you so paranoid?
Don't be so paranoid
Don't be so
Baby don't worry bout it
Hey there don't even think about it
You worry bout the wrong things
The wrong things [...]" (Paranoid (feat. Mr. Hudson)
Kanye West)
Rosangela Calza
Amor meu
Amor meu, por que te foste?
Deixaste baralhada minha mente,
O céu mortiço faz de conta que nada vê.
Partiste e me deixaste a sofrer.
Vivo no mais grande tormento.
Meu coração um eterno lamento.
O choro meu interminável companheiro.
Volta, volta pra mim... e volta ligeiro.
Na noite mergulhada em trevas...
Não mais alegria meu coração sente.
Olvidaste o que me prometeste?
Dizias sempre que me amar irias eternamente
Amores...
Um dia me fizeste uma jua: irias me amar por todo o sempre...
Hoje aqui amargurada fico a pensar neste amor que não deu em nada.
Onde estás recordas-te de mim?
Onde vives, pensas um pouquinho em mim?
Por que não voltas pra mim?
O desejo por ti me tortura...
Torna minha vida tão escura.
Faltam-me teus beijos, teus abraços
Era tão bom deitar-me em teu regaço.
Estou aqui, meu amor...
Se voltares, vais encontrar o mesmo amor de sempre... aquele que jurei amar-te eternamente.
Juras de amor
Construímos castelos de areia.
Veio a onda do mar e derrubou...
Era tão fraco nosso sentimento
um pelo outro
um leve vento tudo bagunçou.
Nosso amor bateu de frente com cheiro de madressilvas...
Para o feitiço não houve outro jeito...
Nosso amor mostrou-se completamente imperfeito.
E agora?
Agora, minha alma chora.
Acabou de ti por mim o encantamento...
Meu coração é só queixas, só lamúrias... vive um triste desânimo, num eterno abatimento.
Meu coração bate por ti
Meu coração bate por ti.
Sente ele uma dor...
Por que te foste daqui, meu amor?
Meu coração espera por ti.
De pensar em ti ele nunca se cansa...
Continua a bater na esperança de aqui te rever.
Meu coração só ama a ti.
Nem sei por que ele ainda te ama.
Quando partiste, deveria ter se apagado a chama...
Mas meu coração é teimoso...
Já me avisou: se um dia eu deixar de amar meu amor, será exclusivamente porque morri.
Minha sina
Sôfrega de esperança
Enfrento o mundo.
Anoitece. Faço minha prece.
Às vezes tenho a impressão de que, às vezes, Deus de mim se esquece.
O frio gela meus ossos.
O desespero parece tomar conta de tudo em mim.
Sono picado...
Acordo tão cansada.
Desespero: tenho de continuar.
Abro a cortina.
Vejo o sol pela janela entrar.
Ávida de esperança, me armo.
Continuar a continuar... eis minha sina.
Solitário e enganado
Meu dia enganado e solitário chega ao fim.
A noite com seus acordes negros enche o ar.... de um ar pesado.
Sobre meus ombros peso dos dias passados.
A claridade vermelhada no horizonte tinge-se de mil tons de cinza até no mais escuro breu se transformar.
A minha dor a me alucinar.
Humanos destinos...
que desatinos.
A intranquilidade da escuridão
assombrando com suas assustadoras sombras movediças.
noites de trevas e insônias...
um passo adiante e tudo se quebrará
sem sintonia, toda fantasia se esfumará.
Uma concha de indiferença sobre minhas emoções se formou... levou minha paz.
Tudo é sombrio.
Peito em luto...
Já não luto mais.
Fragmentos
Ofuscados e solitários
São os meus dias
Elucubro aqui
em como acabar com tão triste nostalgia.
Essa triste vida de alegoria.
Tudo não passou de fantasia?
Fantasia da minha cabeça louca?
Meus pensamentos… cacos, estilhaços... fragmentos.
Há pedaços de mim
espalhados por todo lugar.
Não sei quando essa aflição vai acabar.
Esse mar revolto
Esse dia em acinzentadas nuvens envolto.
Que tristeza mais triste no meu caminhar.
Não quero deixar o caos conta tomar.
Volta! Volta pros meus estilhaços se colarem no seu devido lugar.
Gata Borralheira
Não há sons.
Sumiram todos os tons.
As noites carregadas de azuis deleites não mais são.
As noites de luas cheias vazias estão.
Noites escuras de breu absoluto
Tudo submerso em densa névoa.
Tudo um imenso deserto.
Não há mais prosa, nem versos.
Tudo está ao inverso.
As batidas do coração aceleram,
a cabeça anda às voltas.
Um mundo fictício.
Nessa corda bamba – um suplício.
Cena de cenários desfeitos...
Nada faz efeito.
Neon.
Intempestiva vida.
Sonhou cinderela.
Acordou gata borralheira...
E como gata do borralho viverá a vida inteira.
À porta de entrada da casa um par de sapatos largados...
Eternamente na mente projetados.
Projeto que deu errado.
Pra sempre
Tua ternura me abrandou
Levou pra longe minha natureza tosca, selvagem
Transformou minha rudeza indomável numa doçura suave e bela…
Teu perfume me perfumou.
Hoje só me quero em teus braços.
Segurar entre as minhas as tuas mãos.
Beijar tua boca... num beijo doce e saboroso.
Feito do teu sabor é o nosso amor.
Quero te amar e ser amada por ti.
Sinto tua presença, em meu delírio ardente.
... Nós dois fomos feitos pra ser pra sempre
Demente
Diante do mar
a repousar…
as ondas no seu vai e vem… vaivém…
gaivotas pelo ar a voar…
Gosto de lugares tranquilos
Onde posso o tempo devagar passar.
Fujo do mar de pessoas.
Gosto de ficar à toa…
No silêncio e na solidão
Escuto a voz que de mim ressoa…
Gosto de me esvaziar.
Deixar leve meu coração.
Limpo a mente… Demente.
A ordem surge do meio do caos.
Em cada curva da estrada
caem por terra pensamentos de guerra.
Há você
Há você.
Além de tudo há você.
O Sol a tudo aquecer.
E há você.
As flores a tudo perfumar.
E há você.
As borboletas a tudo leve tornar.
E há você.
Os sonhos a me embalar.
E há você.
A chuva a tudo refrescar.
E há você.
As estrelas... a Lua a tudo iluminar.
E há você.
Uma enorme dor
Uma fração de tempo
…apenas.
E tudo se esvai... tudo embora vai.
Não há aviso prévio.
Clica um botão – uma divindade que não se vê... que não se sabe onde está – e para o coração.
Último respiro.
Nada levamos.
Todos os choros e risos a nada reduzidos.
Antigas lembranças... lembrar pra quê?
O exemplo é o que deixamos.
Dor a muitos causamos – não porque queremos.
Um pouquinho de nós em outros se preserva.
E isso, juro, me enerva.
Escuridão fúnebre
Estava escuro como breu quando ele partiu...
E a escuridão persiste...
Já faz tanto tempo e nada muda de cor.
Nenhuma luz difusa paira sobre mim.
Nenhuma luz confusa a me ofuscar.
Tudo a se negrejar.
Há um odor a desespero em volta de mim.
Tudo jaz em uma umidade lúgubre, feral... sinistra... por onde passo.
Pálida, lívida, adoentada, derrotada, cansada... estou assim
Se decidires
Se decidires não mais me amar,
afasta-te de mim.
Por favor, vá sem aviso prévio!
Busca outra estrada pra caminhar.
Procura outro jardim pra o perfume das flores sentir.
Busca outro mar pra mergulhar.
Se decidires não me amar...
Afasta teus olhos de mim...
Se decidires não me amar,
vá... de nada valerá querer me explicar
por que decidiste o que decidiste...
entendo... é o fim de nossa estrada juntos,
cada um seguirá seu próprio caminho
sozinho.
Ficarei, por aqui, taciturna, silente... por um bom tempo... até parecerei doente.
Pensarei: estava eu tão acostumada a nós...
É difícil quebrar velhos hábitos...
Mas eu hei de quebrar...
E abrirei meu coração pra outro homem nele entrar...
Fazer morada...
Serei namorada.
Tudo num instante conciso irá acontecer.
Nós dois houve um tempo em que era pra ser... agora não é mais... quando chegar a hora, eu vou entender.
Teu sorriso lindo
Escuro do caminho não tenho mais medo não.
Trago sempre comigo o teu sorriso.
Não estou sozinha... tenho teu sorriso a me acompanhar... a tudo a iluminar.
Em cada momento do dia e da noite... em cada lugar por onde eu passar.
Cintilam as estrelas no céu.
Cá embaixo teu sorriso a cintilar
Transforma em passeio toda a minha caminhada...
Não temo nada.
Memória
Na contramão da História eu me desencontro.
Depois de tantos passos… colisões, trombadas e encontros…
A essência do que sou vem à tona.
Ainda falta muito para o fim da maratona.
Corrida maluca contra o tempo.
Tempo que passa depressa.
A vida se faz de momento em momento.
Não aguento…
Não sei do amanhã absolutamente nada
O que me aguarda?
O que vem depois da próxima curva?
O que me acontecerá na próxima batida?
O que me trará o amanhã?
Mantenho a guarda.
Gerencio minha emoção…
Na mão e na contramão…
Que mistério será a vida?
