Coleção pessoal de PensadorRS
Não comemore se o seu calçado nunca estiver sujo, pois provavelmente é um sinal de que você está sempre parado.
Trinta e um
Mais um mês acaba
Em trinta e um dias
E menos um mês
Que acaba em trinta
O que aconteceu?
O que não aconteceu?
Não importa, já passou
Um outro mês chegou
Conforto ou desespero
Depende do que se foi
Imersos no dia de amanhã
Enquanto o sol se põe
Confiamos no dia primeiro
E, às vezes, não em nós
Grande coisa o calendário
Virão ainda novos sóis
Não é a data que altera
Nem o mundo que muda
A mudança vem de dentro
Terráqueo, não se iluda!
Goste demasiadamente da rosa que certamente algum dia, ainda que sem querer, ela lhe ferirá com os seus muitos espinhos; ignore a presença da rosa que ela, abandonada e sem cuidado, murchará lentamente e morrerá; aprecie moderadamente a beleza da rosa que ela será para sempre sua.
Conversa particular
Bem que você poderia
Ser popular... mas optou
Por ser particular, então
Prepare-se para escutar
Você não é tudo isso
Que anda aparentando
Seus risos são falsos
Estou lhe analisando
Obedecendo todas regras
Da sua vida programada
Tu és apenas mais uma
Então por que te achas?
Sua maquiagem disfarça
Porém nunca escondeu
A tristeza que revelas
A cada movimento seu
Vestindo-se para agradar
Suas supostas amigas
Que falam mal de você
Embora estejas linda
E eu até gosto de ti
E essa é a maior ironia
Talvez nem lhe olharia
Mas tu és particularzinha.
Aluno apaixonado
Não pode ser coincidência quando a garota que você gosta senta-se ao seu lado em uma sala com outras cinquenta cadeiras disponíveis.
Mistério
Usava apenas uma camiseta preta
Ninguém sabia sua origem de fato
Todos lhe chamavam de Mistério
O primeiro a chamar? É mistério!
Alma perturbada entregue no olhar
Uns passos desparelhos, sem parar
Ninguém sabia seu rumo ao certo
Alguns se atreviam a chegar perto
Até o dia em que descobriram um sábio
Até o dia em que conheceram um gênio
E refletiram sobre tanto preconceito
Que mantiveram pelo homem sem jeito
Só que ele já se encontrava morto
Era tarde demais para pedir perdão
Vocês mataram o seu próprio Deus
Vocês mataram o seu próprio irmão.
Por trás de um grande homem, sempre há uma grande mulher; atrás de um homem excepcional, com certeza há mais de uma.
Morena da cafeteria
Querida, para mim és sonho bom
Mesmo que possa parecer ilusão
Quando tu passas, lhe vejo bela
Imponente vulto, como em passarela
Adoro ir à cafeteria nas terças
Porque lá posso, enfim, encontrá-la
Adoro o seu charme ímpar ao andar
Que certamente não iria reinventá-la
Te vestes de preto, mas pareces anjo
Teu cabelo negro não dá-me espanto
És o nuance da noite, inspire-me
Apenas me olhe, que já é sublime
Eu sento à mesa e não peço café
O local é pretexto para lhe fitar
Eu fujo da aula e não quero voltar
Para lhe encontrar, deposito fé
Não exijo-lhe nada e nem deveria
A sua presença me confere alegria
Ainda que seja somente em um dia
És tu a morena da cafeteria.
Otário
Máscaras caem a cada dia
A quem tu queres enganar?
Fazer o que queres da vida
Ou o que o sistema mandar?
Por que tu és revolucionário
Apenas no mundinho virtual?
Na rua, lhe chamam de otário
E tu ainda consideras legal
Venha ver a realidade, cara
Estagnado aí, nada mudará
Mude, ouse, falte uma aula
O seu medo poderá lhe custar
Na faculdade, tu és um cliente
Na família, tu és um ouvinte
Quando que podes opinar?
Ah, lembrei, tu vais ao bar...
Sangue tóxico
Em pensamento já feri milhares
Em minha alma reina obscuridade
Se ser jovem significa se intoxicar
A juventude não pode me representar
Nenhuma droga me acalma
Nenhum vício me sustenta
Dispenso os falsos abraços
Prefiro beijos prolongados
Há quem ache prazer no veneno
Outros reclamam de tudo
Como se o destino tardasse
Ele decide bater na porta
Não há devedor para acertar
Nem a conta pode ser quitada
Diversas bocas querendo falar
Mas eu não quero ouvir nada!
Um sangue que contagia
A honra sendo confrontada
Um truque que parece magia
E várias famílias desabrigadas
Inferno é jogo, sofrer é treino
Juro que agora não mudo
Mesmo se me obrigassem
Sou eu que traço minha rota.
Eu interior
A beleza, quando imensa, parece absurda
Enxergada de longe, quase inalcancável
Ela é, na verdade, plenamente realizável
Pela alma, fruto do sonhar, do ser e do estar
De nada adiantariam mil vidas, todas elas
Sendo rotineiras, comuns e pouco vividas
Se o espírito não se elevar, o corpo é vago
Somente a imagem de aparência antiga
A esperança, embora forte, não sobrevive
Sozinha e sem a ambição de fazer o novo
Os atos, muitas vezes estranhos, estes dizem
O que todos buscamos e antes ocultamos
A ficha sempre cai, vem à tona, sem dó
É preferível que haja a chance do pior
Pois só assim a surpresa triunfa poderosa
Quando menos se espera, ela é generosa
Sejamos, então, gratos ao nosso eu interior
Não nos abandonou nas crises frequentes
Soube se mostrar grande e venceu o terror
Que poderia crescer permanentemente.
