Coleção pessoal de PensadorRS
Peixe fora d’água
Sai de casa e habita quaisquer ruas
De uma cidade que agora é violenta
Observa a juventude sem propósito
Pensa no que dizer, mas nem tenta
Há feridas que tornam-se tatuagens
E há marcas de batom em seu corpo
Contemplando informações inúteis
Faltando muito para chegar ao topo
Conhece a música, a arte e a poesia
Ouve falar de chatice, tédio e rotina
Sabiamente deixa o relógio trabalhar
Uma hora a conversa fiada termina
Só Deus sabe o que irá lhe encantar
Tem uma moreninha metropolitana
Seu futuro ainda não foi descoberto
Sendo as mãos lidas por uma cigana
Ainda persegue a rota de esperança
Alternativamente o moçoilo acredita
Entre inúmeros indivíduos descrentes
Se ele é peixe fora d’água, que resista.
Dia a dia
Não dá para crer em liberdade
Estando trancado em uma jaula
Sem sentir o sol, a chuva, nada
Só peça no tabuleiro da cidade
Passam as horas, acaba o dia
O outro recomeça sem mudar
Diante desta cansativa rotina
Poucos têm chance de inovar
A maioria comemora na sexta
‘Sobrevivemos! Conseguimos!’
Mas a vitória seria no dia a dia
Fazendo o que confere alegria
Ir dormir tarde e acordar cedo
Trabalhar muito, ganhar pouco
Seguir o modelo da sociedade
Que faz do homem mais louco
Esquecendo as suas ambições
Preferências, ideias e emoções
Correndo dentro de um círculo
Estando recluso a um cubículo
Em subliminar, há a alternativa
Que envolve pessoas realizadas
Podendo escolher o seu destino
Com coragem em suas jornadas.
Detalhes do perfume
Gostaria de saber a origem daquele perfume
Que acaba na madrugada e volta na semana
Com o pensamento longe, sigo caminhando
Um tanto distante de todo o pessoal bacana
É que quando viajo sozinho no quarto escuro
Parece que tanta gente não gera a diferença
Que uma pessoa, apenas, pode fazer comigo
Esquecendo o orgulho e qualquer desavença
A multidão grita alguns sons desconhecidos
Está difícil de entender o que querem dizer
Se a minha mente não está no mesmo lugar
E eu termino mais um dia sem sequer saber
No constante aprendizado de novos ideais
Convenhamos que levar a sério é olhar a si
Percebendo o que a emoção diz, a razão ri
E que, ao final, ambas deixam os seus sinais
Se existe alguém, no mundo, que entende
O menor momento é deveras importante
Pois, se olhássemos juntos, repetidamente
Foram detalhes que trouxeram-nos adiante.
A patrícia e o plebeu
Ela aprecia concertos de música clássica
Batendo palmas como a gente particular
Fica em evidência nos grandes eventos
Atua com maestria na arte de dissimular
Ele é a majestade maior da boca do lixo
Possui, no bolso, somente alguns trocados
Como um sujeito simples, tem desgostos
Carrega consigo um fardo muito pesado
Dividindo a mesma rua, o luxo e a miséria
Evidenciam a incrível desigualdade social
Corremos sem parar, mesmo sem refúgio
Como quem pode previr seu próprio final
Ela ostenta as joias que mantêm um brilho
Os holofotes se voltam, a câmera é focada
A televisão transmite, retransmite e assim
A dama torna-se cada vez mais desejada
Ele está apenas tentando achar um abrigo
Na metrópole, há homens que viram cães
Quem sabe consiga realizar uma refeição
Com as migalhas que sobraram dos pães
Entre o marginalizado e a ilustre rainha
A maioria decide qual caminho escolher
Ignorando visões alternativas dos fatos
Parece que o importante mesmo é ter.
Saindo por sair
Marca meia-noite no relógio de um integrante
Do bar da Cidade Alta, local nada adequado
É irônico que a chuva apareça só no sábado
Após toda a semana com um clima radiante
O caminho que eu faço para voltar para casa
Nunca pareceu tão longo, tenso e perigoso
Ainda que mude a rota, dificilmente escondo
O quanto essa indefinição deixa-me nervoso
Saindo por sair, eu lhe visto em outras almas
Torcendo para que alguém toque no seu nome
Entendo que há meses mantemos toda a calma
No papel, visto que anseio que tu me chames!
Se eu consigo chegar, enfim, às seis da manhã
E visualizo a mensagem que deixaste para mim
Visivelmente emocionado, posso deitar em paz
Nós dois, um mais um, tem tudo para ser assim.
Super-heróis
Frequentemente sonho que estou voando
Que posso levitar ou atravessar paredes
Eu nunca me vesti como os super-heróis
Mas que bom seria poder contar com eles
Nós somos minúsculos diante das injustiças
Crianças são assassinadas na Faixa de Gaza
O Super-Homem, se real fosse, deprimido
Provavelmente ficaria trancafiado em casa
Precisamos de poderes especiais todo dia
Para superarmos a insensibilidade imensa
A segurança inexiste entre quatro paredes
E as novas gerações permanecem tensas
Sangue é entretenimento para as massas
Terrorismo na manchete dos telejornais
O homem baleado está na capa da revista
Desvirtuadamente esperamos por mais
No intervalo das notícias, o horário eleitoral
Então o voto se torna uma escolha aleatória
Vamos girando a roleta sem ouvir propostas
No lugar de tentar construir outra história
Temos escolhas, mas não sabemos escolher
Nos acostumamos com uma realidade desigual
Enquanto assisto filmes com os super-heróis
Logo penso que eles não seriam no mundo real.
Se diversas pessoas gostam da mesma coisa por motivos diferentes, então pode-se dizer que, na verdade, elas gostam de coisas diferentes.
Historinhas de dragões
Eram meninos animados
Eram meninas arrumadas
O sol que já partira
E a chuva que reinava
Um sonho que não cabia
Um quadro de arte abstrata
Eram historinhas de dragões
Sobre a areia da praia
Historinhas...
...que até parecem mentira.
A aparência masculina não é um fator primordial para as mulheres, pois elas já estão ocupadas demais cuidando da sua.
Há tanta gente
Há tanta gente indo e voltando
Há tanta gente parada no mesmo lugar
Há tanta gente quase se formando
Há tanta gente sem escola para estudar
Há tanta gente contando o dinheiro
Há tanta gente contando os dias de vida
Há tanta gente procurando emprego
Há tanta gente com cargo de chefia
Há tanta gente agradecendo a Deus
Há tanta gente pedindo perdão a Ele
Há tanta gente com os princípios seus
Há tanta gente querendo copiar aquele
Há tanta gente que reflete todo dia
Há tanta gente que não está nem aí
Há tanta gente que conhece a alegria
Há tanta gente que dificilmente sorri
Há tanta gente que lê Paulo Coelho
Há tanta gente que não aprendeu a ler
Há tanta gente que quer dar conselho
Há tanta gente que não quer nem saber
Há tanta gente que quer ser
Há tanta gente que quer ter
Há tanta gente que muito sabe
Há tanta gente que pouco sabe
Há tanta gente...
A estrangeira
Estrangeira vinda de um lugar qualquer
Hoje eu preciso conhecer o teu jardim
Essa beleza que trazes junto ao peito
É um delírio total para mim, sem fim
Me contaram que és muito solitária
E que tu és repreendida pelos pais
Tua banda favorita não é do Brasil
E que preferes pintar com o azul anil
Me contaram que tu não lês poesia
E que trocas o romance pelo terror
Talvez quem disse seja uma inimiga
Que ainda não percebeu o teu valor
E eu lhe conto: que incrível o efeito
Do vento que antes passou por mim
Associei às conquistas adolescentes
Quando, de repente, pensei em ti
Demonstras em gestos carinhosos
Que, de fria, não tens quase nada
Desejaria se, realmente, fria fosses
Que a minha vida fosse congelada.
