Coleção pessoal de pensador
Estamos sempre nos despedindo de nós mesmos. Sem medo e sem pressa. Apenas indo. Chegamos e continuamos a ir.
Não faça o mal e não faça malfeito. Faça o bem, e a todos os seres, incluindo tudo e todos em suas ações, palavras e pensamentos.
Envelhecer não é apenas tempo de se lamentar, de relembrar, mas também de criar causas e condições para atingir o que ainda não foi atingido, individual e coletivamente.
Assim devem se sentir os velhos que nunca mudaram de cidade, ou de bairro. Pensam que conhecem os lugares, mas ao sair são eles os estrangeiros. Memória é só memória. Acreditamos que dominamos o mundo, e o mundo ri da nossa cara.
Pensei que, quando crescesse, teria mais respostas para as perguntas que me trouxeram até aqui. Mas sempre surgem novas. Crescer não nos dá mais respostas, nos dá mais lembranças.
Os fins de semana perdem o sentido sem os dias úteis. As férias e as viagens são mágicas porque finitas. É o fim das coisas que lhes dá valor.
As cidades, a pressa, a internet nos fazem esquecer que a vida acaba – é talvez por isso que a gente renuncia às sensações. O sentido da vida é sentir.
O amor não está em prêmios, objetos, prestígio, números numa conta, listas de países viajados. Ele mora nas sensações.
Não imaginei que me sentiria completa sozinha. Que, no escuro, encontraria beleza. Que encontraria nos perigos a liberdade.
Ao me sentir em segurança, paro de ver os perigos e me exponho mais. Tenho que me lembrar de que o perigo nem sempre dá medo.
A gente se acostumou a viver nos intervalos do trabalho. Dos amigos, bastam as festas. Dos anos, bastam as férias. Das semanas, bastam os fins. Das pessoas, os bens. Da música, os plays. Das comidas, proteínas. Do mar, as praias. Das notícias, os títulos. Da floresta, os frutos. Do clima, o conforto. Das famílias, os nomes. Dos países, os números. Dos livros, resumos. Das mães, o passado. Do pais, os presentes. Dos filhos, a presença. Do futuro, basta a promessa.
Se um dia as falas negativas dos outros me doeram, hoje me fazem lembrar das dificuldades do caminho até aqui. São minha prova de coragem.
Aqui, caminho sem temer ser perseguida. Durmo sem medo de ter minha casa ou meu corpo invadidos. Danço sem medo de ser atacada. Nem fraca, nem forte, pois não há comparação. Corro, brinco, pulo, salto, canto. Não sou excluída por ter útero. Não sou subestimada por ser jovem, ou excluída por não ser. Não sou obrigada a sorrir quando não quero, a agradar quem me desagrada. E não preciso ter superpoderes para obter respeito.
Por 26 anos, vivi entre humanos. Outros marinheiros me disseram que seria perigoso viver sem. E é. Mas quando comparo os perigos daqui com os das cidades, me sinto confortável.
