Tamara Klink
Sempre será mais fácil desistir antes da partida. A tentação será por vezes incontrolável.
Desistir é renunciar à chance de partir. À chance de descobrir que a vida pode ser muito diferente do que ela parece ser. Que nosso peito pode aguentar mais trancos, que nossas mãos podem ser mais precisas, que nossa garganta pode projetar mais vozes, que nossos olhos podem ver mais cores do que pensávamos ser possível.
É preciso ir longe, pelo menos uma vez na vida, para descobrir o prazer de estar de volta. Para separar o supérfluo do essencial, saber quem são as pessoas que nos fazem falta. É preciso completar a travessia para descobrir que o sentido de toda viagem está no ponto de partida.
Nossa casa é o único lugar que nunca partirá de nós. E o melhor lugar de onde partir de novo.
Se eu cheguei inteira, não foi por ter coragem, mas por nunca ter deixado de ter medo.
Coragem foi seguir em frente, mesmo quando a razão trazia novos motivos para desistir.
Os textos estão condenados a serem incompletos, tentativas de descrever um mundo que não cabe numa língua.
Não foi preciso ter coragem para chegar aqui. Foi preciso acreditar, caminhar, arriscar, renunciar, aprender, me arrepender, insistir e tentar de novo, de outro jeito.
Sempre será mais fácil desistir antes de partir. As razões para ficar se multiplicam outra vez. Não sei ainda aonde chegaremos, mas, ao menos, me dou a chance de começar, de novo.
Não sei mais descrever o que pensei, o que temi, antes de o frio ser tão presente quanto o ar, antes de a solidão ser minha maior companheira, de o silêncio ser a canção que mais escuto, que mais repito, já não sei mais como era a vida antes de a saudade sumir.
Tenho raiva das palavras. Parece que tudo que escrevo é invenção, porque as palavras não são as coisas, são um punhado de manchas e senhas.
O que será a vida depois de dar a ela outra definição?
O futuro nunca será um calendário em branco, liso e vazio. Será sempre como uma geleira irregular onde se abrem crevasses e de onde caem pedaços, onde nascem rios e a neve esconde armadilhas. A vida real é mais vasta e complexa que os planos. E o maior risco de postergar o projeto seria perder a vontade. Para coisas há substitutos, para a vontade não.
Sem outros humanos, não sou mais o Outro. Experimento como é ser universal. Nem forte, nem fraca: sou o resultado dos meus gestos. Não sou mais meu rosto, minha idade, meu nome. Desaprendo a tentar caber. Isso demanda disciplina, porque ainda penso dentro dos limites das línguas que conheço, ainda faço associações com as fotos, os livros, os filmes que já vi.
Assim que viro a câmera para mim, me pergunto se posso aparecer do jeito que sou ou se preciso atuar: lavar o cabelo, tirar os pelos do rosto, sorrir. A verdade espontânea acontece fora da câmera. Corro, salto, danço, brinco. Quando me sinto bem, tenho a sensação de voltar a ser criança.
É difícil lembrar de isolamentos de mulheres. Talvez porque somos desincentivadas a nos arriscar, ou porque nossos relatos foram menos publicados, menos lidos. Quero dizer a todas: “Experimentem ficar sozinhas! Tentem!”.
Minha avó tinha razão quando disse: “Tenho medo que você esqueça como é ser feminina”. Acho que ela desejaria esquecer também se descobrisse como é bom não ter medo de estar sozinha, e ser livre.
Por 26 anos, vivi entre humanos. Outros marinheiros me disseram que seria perigoso viver sem. E é. Mas quando comparo os perigos daqui com os das cidades, me sinto confortável.
Aqui, caminho sem temer ser perseguida. Durmo sem medo de ter minha casa ou meu corpo invadidos. Danço sem medo de ser atacada. Nem fraca, nem forte, pois não há comparação. Corro, brinco, pulo, salto, canto. Não sou excluída por ter útero. Não sou subestimada por ser jovem, ou excluída por não ser. Não sou obrigada a sorrir quando não quero, a agradar quem me desagrada. E não preciso ter superpoderes para obter respeito.
Se um dia as falas negativas dos outros me doeram, hoje me fazem lembrar das dificuldades do caminho até aqui. São minha prova de coragem.
É incrível quanto tempo sobra quando a gente só precisa agradar a si mesma.
A gente se acostumou a viver nos intervalos do trabalho. Dos amigos, bastam as festas. Dos anos, bastam as férias. Das semanas, bastam os fins. Das pessoas, os bens. Da música, os plays. Das comidas, proteínas. Do mar, as praias. Das notícias, os títulos. Da floresta, os frutos. Do clima, o conforto. Das famílias, os nomes. Dos países, os números. Dos livros, resumos. Das mães, o passado. Do pais, os presentes. Dos filhos, a presença. Do futuro, basta a promessa.
Ao me sentir em segurança, paro de ver os perigos e me exponho mais. Tenho que me lembrar de que o perigo nem sempre dá medo.
