Coleção pessoal de noi_soul
Às vezes só tenho vontade de me acolher
De me encolher
De me esconder
Do mundo
Colocar meu corpo debaixo de um chuveiro
Que pinga água uterina
Água quentinha
Aconchegante
Num lugar com luz solar
Abundante
Com uma vela acesa
Um cheiro de ervas
Alecrim
Capim santo
Sabugueira
Fechar os olhos devagar
Divagar
Pensar em nada
Apenas me abraçar
Sentir a água escorrendo
Pelos recônditos
Do corpo e da alma
Ouvir o som dos pássaros
Que burburinham bem ali
As folhas das árvores dançando
O vento suave e amigo
A respiração fácil
Na pele, um arrepio
Anunciando bonanças
E devolvendo-me esperança
De dias de pleno festio.
Queima-me, sol
Com o seu furor ardente
Inclemente
Flamejante
Iridescente
Queima-me a alma gélida
A liberdade do não viver
Queima-me toda desculpa
E toda disputa
Do meu não entender
Queima-me, fatigante sol
Queima-me
Como se eu fosse
Você...
Como se as respostas
Cercassem-me por todos os lados
E meus poros, continuamente fechados,
Não ousassem sorvê-las
Além do que se pode suportar
Tendo apenas uma alma
Humana
Humana deveras
Impregnada de dores
Dissabores
Temores
Dentre os quais o maior é
Viver...
Sofro de falta d'amor
Fome me escapa da pele
Pele sofre de fome
Fome mata a dor
Dor alimenta a fome
A fome me desespera
Também desespero a fome
Sou filha da sua quimera
Não raro ela me esconde
No fundo do seu penhor
Na casa da sua janela
O poço que me cavou
Sem por onde ela some
No barco da sua procela
A fome só me consome
Refúgio que me faz dela
Um êxtase comedido
Move-me insolente
Espreita os meus pecados
Conduz minha mão dormente
Enterra as paredes mudas
Sabe quando a alma mente
Mas não deixo o seu domínio
Exilar-me de mim mesma
Seus olhos não me fascinam
E rio da sua destreza
Ele se vê adestrado
Disfarça-se de cúmplice meu
Olvida que ao seu lado
Eu mato quem já morreu
Permita-se sofrer enquanto sofre
Absorva todo o sentimento impudico
Impulsivo
Imprudente
Envolva-o como ele envolve sua alma
Consuma-o como ele consome seu corpo
Inteire-se dele como ele se apossa dos seus sentidos.
Vivo distraída
Entre meus próprios lamentos
Entre meus próprios tormentos
O mundo precisa de mim?
Sou uma desconhecida
Sou uma nau naufragada
Dentro do meu mar
Dentro do medo de amar
Com o tempo a gente aprende
a enxergar quem apenas nos quer
por perto por mera utilidade...
E, com isso, é mais fácil dizer NÃO.
- Não!
Eu gosto de estar perto de quem me quer,
principalmente
... quando sou inútil.
Especialista em qualquer coisa
A nova fase pós moderna
Eu vou falar sobre tudo
- Sobretudo
Que não entenda nada!
Complexidades humanas
Certezas e devaneios
Água, terra, sol ou chamas
Das teses que ainda não vejo
Humanas complexidades
Olhares de dor ou pudor
Estranhas as falsas imagens
Do ego que se insinuou
Complexidades humanas
Humanas complexidades
Talvez o desejo que inflama
Destrói do seu olho a verdade…
Isso é o que mais me assusta
- A possibilidade!
Se houvesse certeza
Data marcada
Direção guiada
Se houvesse uma pedra fincada
Mas não há…
Tudo o que existe é
possibilidade
possibilidades
Finitamente infinitas
E não respeitam agendas
planejamentos
planos
sonhos
pensamentos
Acontece-se em si mesma
E não justifica
Não nos diz o porquê
Não nos consola
Apenas emerge
a qualquer momento
de qualquer maneira
em qualquer estrada
- A possibilidade!
É minha maior fonte de (pre)ocupações.
Você tem medo daquilo que não conhece
A respiração queima
Falta oxigênio
Sobra CO2
De onde exala?
Da multidão irrefreada!
As parcas diretrizes dizem
“Pare”
E você para – limitado
Na própria cegueira da escuridão
Sua paixão leva ao devaneio
e sua têmpora demonstra a gota
de sangue, de suor, de lágrima
- Nem mesmo você o sabe!
Perde-se no desatino pavoroso
da falta
da falsa
da farsa
da farta
dor do sentir...
Medo!
O órgão vital quase afunda
de tanto flutuar na caixa torácica.
- Não! Estou triste
Muito triste
E me permito ficar assim
Até a alegria voltar
A invadir minh'alma.
Escrevo por instinto e não por razão
Sou aquele animal ferido por uma lança
acuado, revolto, inflamado
Com sua língua lambe a ferida
Sorve seu próprio sangue
A palavra é meu sangue
Escrevê-la é minha língua
Esse é o mundo
Não se esqueça
Ele é o mundo
Não se iluda
Este é o mundo
Não se endureça
Ele é o mundo
Está aqui
Está à frente
Está em tudo
Está em nós
Ela conduz o meu corpo
Dança o que a alma sente
Ela que esconde o meu rosto
Sorve o mundo inclemente
Manibus
No vão do livro
há um segredo
Qual o segredo há
no vão do livro?
Há um espaço escuro
indistinguível
há um segredo
no vão do livro.
