Coleção pessoal de noi_soul
Uma entre uma infinidade
Descobri uma fórmula para viver a vida
Não sei se cabe para todos
Se vale para cada ser vivente
Ou se cada um deve descobrir a sua
Mas eu descobri uma fórmula
- Foi o que eu disse! Prestando atenção ao artigo
indefinido...
Podem existir outras mil
Milhares
Infinitas
Talvez seja igual ao número de viventes no Universo
- Sim! Não sou boba de achar que só há vida neste planeta
azul, lindo, quase redondo
- Geoide! É um termo melhor, me disseram...
Eu vi uma criança sorrindo
e correndo, confiante,
em busca de uma borboleta amarela.
Ela não sabe, nem a borboleta,
mas foram elas que me contaram
uma fórmula para viver.
Confiança!
- Apenas uma variável? Talvez, talvez...
Já notou que quem confia é mais feliz?
Tem sorriso no rosto
Tem disposição e disponibilidade para um abraço
Tem a face verdadeira
Dança
Brinca
Conversa
Despreocupadamente
Inventa
Une
Entrega
Corpo, alma e mente!
Quem confia tem uma beleza peculiar
Algo que não é explicável aos olhos físicos!
Quem confia guarda em si uma chave
Que destrava a gente
de dentro pra fora.
Quem confia pode mudar de opinião
sem se constranger!
Quem confia age, luta, ri, chora
e entende o seu precioso dever.
Acredita que há um propósito
Um porém
E um porquê.
E não se entrega ao desespero
Pois dorme em confiança,
nos braços desta criança,
que foi seu amor primeiro!
Pega-se o bonde quase andando
- Ninguém usa mais esta expressão!
Provavelmente eu seja cringe
Ou vão me chamar de “sem noção”
Nonsense fui lá no passado
Agora pescaram uma nova alusão
E eu vou boiando nesse arado
Sem tempo, sem pressa, sem razão!
Você me olha e me julga
Você não me conhece
- Nem tente! Eu ainda estou neste caminho!
Você acha que pode dizer
quem sou
para onde vou
porque estou
apenas pelas minhas vestes
Você nem me conhece!
- Nem tente! Eu ainda estou neste caminho!
Você franze o cenho
E, intencionalmente, me mede
Seus olhos, seu corpo, sua alma
- Nem negue!
Você acha sua falsa superioridade uma prece
e busca em mim reforçar sua tese.
Você me deseja rebaixada
e subjugada à sua palavra.
- Nem tente! Eu ainda não fiz meu caminho!
Você fala com olhar de desdém
- A quem? Você é apenas mais um sozinho…
E eu sou outro ser solitário
Num caminho de mil descaminhos
Num infindo pomar de esteios
Num perverso clamor de espinho.
Ah, se eu não estivesse aqui!
Não veria a vida
Não sentiria a vida
Não morreria em vida
Só para poder viver...
Se eu não estivesse aqui
As montanhas ainda assombrariam
Os sonhos e devaneios de alguém
Os animais vadiariam
E as pedras se esconderiam de quem?
Se eu não estivesse aqui
Ainda haveria nuvens
E o céu e o sol a arquejar
O tempo medido pela lua
As águas do rio e do mar.
Nada sentiria a minha ausência
Ou a não presença anterior
Tudo seria sentença
Do mesmo modo de amor...
Se eu não estivesse aqui
As árvores continuariam a bailar
Sob o som e os encantos dos vendavais
Sob as janelas e os coloridos vitrais
O pássaro voaria, de qualquer modo
Ignorando que eu nunca existi
As flores desafiariam a terra dura
E nasceriam mesmo assim.
Encontrei vestígios de mim
Por aí
Não era seguro andar pelas ruas
Não era bom senso andar distraída
Mas eu deixei-me ir
O corpo levado pela alma acesa
Incandescendo
Puro furor e êxtase
Vontade à mesa
De percorrer entre ideias soltas
E malandras
Que me fizessem crer
Novamente
No poder da andança
Da temperança
Da esperança
Da dança
Ah, dona valsante
Que me abriu os olhos
E as vísceras inteiras!
Ah, escaldante sol
Sobre minhas têmporas
Cheias
De vistas
Revistas
Analistas
Alquimistas
São tudo o que tenho em mim
E eu ainda procuro
- Como ouso?
Eu ainda procuro
Vestígios de mim
… pelo chão.
Viver aqui
É de uma beleza descomunal
É intenso
É raro
É único
É profundo
É desafiador
É estranho
É hilário
É milagroso
É intrépido
É quase surreal...
Não me cale!
Não ouse me calar
- Não mais!
Eu sou assim
Eu sou o que posso
Eu sou o quero
Eu sou o que gozo
Eu sou o que gosto!
Eu viverei de mim
- E ai de ti!
… se vier de novo
querer calar a minha voz!
Meus passos correm em busca de mim
Em busca de quem eu sou
Em busca de onde estou
Em busca do meu lugar no mundo
Do meu propósito
Da minha missão
Do meu ser
Do meu mais profundo
Eu sou os meus passos
Eu sou meu espaço
Eu sou o que toco
Eu sou o que vejo
Eu sou o que sinto
Eu sou a viagem
Eu sou o pouso
Eu sou a virtude
Eu sou a imagem
E semelhança
De quem me criou
Para ser...
Livre!
Eu ando
Um passo por vez
Eu ando
Um segundo por vez
Eu ando
Uma existência por vez
Eu ando
Uma paisagem por vez
Eu ando
Uma vida por vez
Minha alma acompanha meus pés
Sou uma criança
Em teus excelsos braços
Oh majestosa noite
Tu és mãe dos meus sonhos
Tu és sono das minhas dores
Tu és encanto da esperança
Tu és primor dos estertores
Estou desabando
Desisti de criar algo novo
- Pleonasmo, eu sei!
Estou descambando
Desisti de pensar em soluções
Estou enterrando
Todas as possibilidades
Todas as intenções
Todas as vias
Todas as cercas
Todas as ilusões
Estou me envolvendo
Com gente
De verdade
Na cara e no coração
Estou refazendo
Todos os passos
E, com eles,
Todos os tropeços
E, com eles,
Todos os abraços
Na vida ou no chão
Eu estou num lugar estranho
No limbo
Na vez
Na coragem
Da solidão.
Meus olhos insistem em ser cachoeira
O vento ainda não a dispersou
Sou intensidade altaneira
Inescrupuloso embaraço
Sou o traço
Do riso discreto
Os dentes falhos
A janela aberta
Da imensidão.
Sou estranha às vestes alheias
Mas não sou sozinha
Eu sou multidão.
Os meus olhos ainda persistem
Como jarros d’água
Infinitas fontes
A cruzar as pontes da escuridão
Eu sou a senhora
Sou a meninice
Sou a pausa e o pique
Da imperfeição.
Meus olhos reclamam por vida
Os braços não deixam enxergar
A pele tão destemperada
O fogo aterra a água e o ar.
Eu sou incredulidade
Palavra de quem argumenta
Motivos, sentenças, viagens
Ao grão da pura inocência.
Meus olhos
Estão cansados
De tanto verter um rio
A cada segundo
No seu mais profundo
Mar em desvario.
Eu trilho por caminhos cheios de espinhos
Uma estrada com muros
E praças fechadas
Dentro do caos
Que é viver
Dentro dos maus
Que é morrer
Eu vivo pulando as janelas
Dos hospitais e dos hospícios
Tento esconder minha gana
E sede de vingança
Mas as tormentas encontram
O pouso perfeito
Em meu coração
E eu desfaço a noite
Da minha razão.
