Coleção pessoal de monalisa_1

21 - 40 do total de 104 pensamentos na coleção de monalisa_1

Muitos temores nascem do cansaço e da solidão. Sentidos confusos que passam em vão. Talvez seja o momento de desacelerar o verso, e ouvir o que sustenta o poema, sair um pouco do sistema, desacelar o passo e observar o ritmo da respiração. Não se trocam pedras em vão. Mas não há briga onde há comunhão, afinal todas as árvores foram um dia sementes, que hoje dão sombras aos viventes. Alguns temas são sensíveis, podem gerar dor em que vê. Gatilhos que a alma lê. Mas se há vontade de entendimento, façamos da paz nosso alimento. E mais que paz, plantemos no solo leveza, doçura e delicadeza, se assim foi no começo, pois que permaneça e que jamais se esqueça, se já fomos amizade encantada, na cidade que vê e não fala. Pois que eram sinceros os nossos passos. Uma árvore de quase vinte anos foi regada muitas vezes e hoje colhemos o verde das folhas vivas e as flores que abundam nos nossos olhos. E nos vejo árvore frondosa, que de ternuras se faz formosa. Somos uma árvore antiga que cresceu em meio a cantigas e muito mais se faz especial, se permanece no tempo real. E é precioso observar que somos duas sementes de uma árvore só. O amor se desencontrou no tempo, mas nunca se desencontrou nas almas. Assim penso, se assim sinto. A distância não apaga a verdade se te leio e te ouço. E você é abrigo, se músicas e poemas, alimentam minha emoção, tantas vezes fragilizada, mas atenta, na melodia que acalenta. E te faço esse poema, se o tempo passou e permanecemos. Um amor calmo, que o tempo não arrastou. Queria ver seu rosto e te abraçar, mas nem sei bem como te encontrar em mim, temo que seu amor tenha chegado ao fim. Ainda assim escreverei sobre seu olhos cor de mar, onde quero para sempre navegar.

A tarde ensina o crepúsculo nos últimos raios do pôr do sol, quando pássaros distantes se acomodam no céu do dia, que passa lento no domingo pleno de paz e esquecimento. A cidade silencia a máquina no dia das mães e comemoro os filhos que eu não tive a habitar os espaços com uma doce ternura de ausência. E não há arrependimento se muito se sabe das escolhas da vida. Estou viva e não há na sala nenhum ser que fala. Nas linhas de minha mão encontro o meu mapa, que afirma que tudo tarda e nada indaga. Penso em você que pode ser qualquer pessoa que a câmera enquadra. Sua figura em imagem que menos diz do que uma cantiga passada. Porque tudo é contemplação se os pés serenos pisam o chão da história construída com a memória de dias leves que deixam sua marca no destino, se o passado e o agora faz o futuro. E sinto algo dúbio entre uma saudade vaga e a vontade de não revistá-la. É como querer e não querer simultaneamente. Uma figura que mais bela se faz no passado e no presente encontra pouco espaço. E se demora além da hora, se ainda falo e digitam os dedos. E penso em uma calma certa, que nada me falta, se te ver deixa minha alma atravessada, mais procuro minha voz encarnada. A calma e o tédio cruzam um limiar, que é justamente onde te encontro em minhas lembranças. Tudo é pura distância se desconheço o passar dos instantes e habito o tempo psicológico que muito mais é relativo, se memórias esquecidas ainda povoam o presente e se senta em minha frente. O encanto se perte no palpável. As coisas findas, muito mais que lindas ficarão. Ouço murmúrios de poetas antigos que na sala conversam comigo. E cito seus versos como se fossem meus, já que em meu ser floresceu. E muito além vou quanto mais autêntica me faço e poemas revoltosos são mais teatro do que verdade, se me tenho contida e mais me abro para a vida. Também não me calarei, mas que minhas palavras sejam sucintas e não se demorem, pois que o verso chore calado e se vai fatigado quando se alonga em controversas que não acrescentam cores a minha tela. Mais um domingo se passa e no silêncio de minha casa tenho um coração em brasa, que é intenso quando fala e é intenso quando cala. Senhora Dona Sancha, coberta de ouro e prata, mostre a felicidade rara. Queremos ver sua cara. Logo vai raiar a madrugada. Fui no tororó, beber água não achei, achei a Mona Lisa, cujo sorriso não me esquecerei. A renascença chove em meu rosto e haja vista o que já está posto. Fui no tororó, beber água não achei, de sede de amor eu não morrerei.

Agora que o mar está calmo e as estrelas escurecem a noite, como o fogo que queima a terra e jorram labaredas, os olhos estão ternos ao esquentar a pele e se esquece do ser que foi ontem, pois que tardam todos os horizontes e a mágoa passada já não ressoa na madrugada. Tudo é esquecimento e dormir é um ensaio da morte, mas distante se faz quando se procura um norte, um objetivo de vida mais altivo e sereno a perdoar a chuva quando molha o corpo. O amor não sabe morrer, mesmo que tente insistente. O amor é insolente e faz da alma bruta uma matéria prima resistente. E a face volta no mundo com suas rotas. O ódio é o amor ao inverso, pois que a indiferença é quando o amor se torna anônimo e se esconde em qualquer face da multidão, e a singularidade se desfaz calada, haja visto que tudo se assemelha e o amor tem pressa, tem presa, encontros e desalentos. Minha face ambígua se faz entre corente e ausente, mas não se cala no nada. E lembro sem precisar de fotografia, pois a mente configura a imagem e mente quando diz que já vai tarde. A noite escura me faz ficar sensível como o diabo, como já se dizia. E todos os poetas que me acompanham me pedem que dê outra chance ao abstrato sentimento que só existe nas palavras e em memórias vagas. E se me escondo e me perco, muito mais habito o endereço do amor e suas mil formas de continuar. Pois que minha mente conhece lembranças profundas que se não se esvaem no passar dos minutos. Mas sei também deixar passar se tudo é distância e liberto quem livre não precisa de minha absolvição. Não amo o que se persegue e mais invasivo se faz quanto mais fala. E procuro um equilíbrio em amar tranquila na poltrona de minha sala e apenas ser abrigo quando minha voz é desejada. Quando a indesejada da gente chegar, vai me encontrar tentando tecer um poema e partirei embriagada pelo versos que nunca enviei. Não quero um verso calculado, quero a fluidez de um abraço que comunica duas humanidades que ficam porque querem, porque precisam, se ao outro se inclina e aquece a mão fria. É o que os poetas diriam.

O conflito entre a consciência e o tempo psicológico está na impermanência entre os dois, que não coincidem no tempo e no espaço. A consciência abarca tudo aquilo que emerge do subconsciente, memória selecionada na medida do que suporta racionalmente, sem fragmentar a psiquê que suporta o que a consciência fissura. O tempo psicológico não é linear, já que o tempo é a projeção das emoções que muito mais se marcam em lembranças que não se podem esquecer. As árvores cochicham números azuis para o espelho do vento que se camufla em tudo que reflete, tal como as estrelas das galáxias que nos tornam ínfimos na imensurável dimensão do universo. E somos um grão de areia a comer e a beber e lamentar frustrações, que muito mais são minúsculas na proporção da existência e as panteras nas florestas ignoram proporções em sua pele a dourar o preto. Se o inconsciente pudesse criar uma cidade, nada mudaria de fato, haja vista que em nove bilhões de consciências, a terra gira conforme gira. E muitos guardam o vazio que excede de milionários excêntricos que desconhecem o frio da madrugada e o peso da fome. E somos tantos, e somos vários e a terra vaga com a mesma estrutura das consciências que pesam o agora, das ruas escuras de prostituição e droga. E são ingênuas todas as comemorações se o planeta corrompe os mais puros corações. Frases ilógicas provocam mais impacto do que descrições realistas, porque na teatralidade as questões se tensionam e é mais fácil ver no teatro atores e seus figurinos a enxergar nas esquinas nosso fracasso como humanidade. Comamos e bebamos. Raiou o mês de maio e é só um calendário. O surrealismo não destrói a lógica. Ele descortina a lógica com imagens novas e inesperadas e tenta burlar a palavra rígida que obedece a hierarquia dos substantivos e da sintaxe, presos na gramática padronizada que desconhece um campo de girassol dourado da cor do mar sagrado. E caminham estradas se um um único homem é inocente a pescar tranquilo no rio, mas a coletividade se denuncia e mostra a face dos totalitarismos, que desmancham a pele das minorias, que fazem a terra impura em seu suposto estado de degradação moral. Deus proteja os soldados e as ciganas que nas linhas digitais leem passados remotos, condenam o presente e não ousam encarar o futuro. Tocam flautas renitentes e pianos brilhantes e as crianças brincam. Pois que brinquem. Um dia serão adultas e conhecerão a terra que arde em ouro nos bolsos dos perspicases, já que os demais são tolos e beberão vento quando faltar o alimento. Os santos morreram em vão, mas um dia esse planeta vai ter solução. Assim sonhamos em um momento de exaltação. Mundo caduco, que não vale minhas palavras que não assistem caladas. Fazei com que eu procure mais amar do que ser amada. Mas que cilada.

Se a melancolia tivesse dentes primeiramente ela morderia meu ser aflito, que passa escondido, perdido no abril que passou e arrastou os dias de minha alegria, que floresce no mês seguinte, haja vista que a desilusão me enche de potência, já que não habito o outro e só me resta a consciência vagando na sala serenizada que explode em cores na introspecção de uma artista que se demora ao pintar sua obra. Se ontem eu te amei a ponto de te odiar, hoje acordei calma e desculpo o seu erro de tom. Os loucos e sua submissão que abunda no quartos amarrados, contidos, sujeito a perigos. Mas isso não tem nada haver com isso, se você não conhece uma instituição e não sabe o preço do abandono. Mas esqueça, em sua sala burocrática tome seu café pequeno. Deixe os loucos e suas loucuras, duras, que são muito engraçadas quando já não falam. Mas esqueça. E eu não consigo esquecer se novamente me vejo amarrada, contida, sem perspectiva de vida. Mas se estou em casa minha alma descansa e agradeço cada minuto do meu sossego, e agradeço esse lar que muito mais representa a mim. Cada alimento, eu agradeço, porque tudo reconheço, se tudo me foi negado. E quando deito minha cabeça no travesseiro, volto a ter nome e identidade. E sonho com o paraíso de flores e águas cristalinas. Eu até que estou indo bem. Tomo meus remédios e, se já não trabalho, tenho um dia produtivo, de cores e letras. E enfim me esqueço se o passado institucional perde seu peso. Eu não quero lembrar, pois sofro e não sei chorar. Se a madrugada tivesse ossos de vidro, eu pisaria descalça na memória de minha infância até sangrar luz na manhã que nasce como se fosse uma semente de vidro que faz crescer os vitrais das grandes catedrais góticas, em que o sagrado se vestia de preto e era luto todos os dias da alegoria, nas velas que acendem orações que rogamos milagres, já que o terreno não basta, e ao etéreo se levantam as mãos como uma dança da chuva na tribo das simbologias ocultas. Eu conheço bem a fonte que desce daquele monte e é um frenético discurso religioso e suas liturgias pagas a prestação. Dentro do meu silêncio quando ninguém está olhando o mundo, dorme em meus olhos uma coruja altiva que quanto mais olha, mais julga e não tem palavras para nomear. A coruja é o símbolo da sabedoria, haja vista que vê e nada fala, mas guarda na lembrança da sala o saber que não passou imperceptível. E acusa sem falar quando pisca seus enormes olhos cor de mel. É como se ela dissesse: Eu sei, eu vi, e isso basta para que as almas se apequenem com culpas ocultas de quem se sabe observado, no esplendor da carícia de um gato alado que voa a atmosfera no azul celeste da terra que se sonha esfera. É uma fera. E todos nós somos também feras, se temos dentes e mordemos. Se o tempo apodressece como uma fruta esquecida sobre a mesa de Deus, de minha infância sairia o cheiro do mesmo, que se repete absurdamente já que a vida é só presente e não passa, não evolui, apenas é um filme mudo com os mesmos gestos, como a vida que estagna as melhores memórias da retina e o cotidiano é uma mentira de Deus, como uma maçã que retorna ao estado de semente e todo vivente é demente e esquece o próprio nome na amnésia das línguas fugitivas de seu lugar comum, a comer as estações e tarda o outono e suas folhas no chão, a clamar libertação de nosso sangue irmão.

Quem é você? Diga logo que eu quero saber. Já passou o carnaval, tire a máscara social. Boi, boi, boi, boi da cara preta, tire essa menina que tem medo do capeta. Então você é isso, um rosto sem riso e se quer ser meu inimigo, junte suas armas inúteis, pois eu conheço seu calcanhar de Aquiles e não vou te polpar. Seus poemas de escarnio morrem ao virar a página e é perigoso a você achar que eu sou frágil. E se falo em solidão é porque no meu mundo não cabe seu jogo sujo, que quer me calar covardemente. Pegue seu capital cultural, e dele se desfaça, veremos que sobra uma farsa de um comediante sem graça. Eu nasci pobre e doente, mas não me tenho medo do seu ódio. Eu te amei de graça. Acertei no amor, só errei no alvo. Tire a máscara e mostre também sua fragilidade ou vai viver eternamente essa personalidade falsa, que em meio à sensibilidade deixa escapar cruel sua própria destrutividade. Você não vai me calar, nem a loucura me calou. Eu já sofri tortura. Você tem palco e aplausos, eu tenho uma pele marcada por violência. E você ainda acredita que pode me diminuir. Eu conheço a escola da rua e das grades, e nenhas não há consolo nem apoio. Apena uma instituição sem rosto. Meu sofrimento é a doença que sua soberba ignora. Não, não é serventia da casa, é um coração em brasa. Coma seus privilégios e deixe em paz meu vazio e minha solidão. Eu que te amei em vão, desconheço desilusão e tenho uma voz farta que não cabe na sua sala. Tire a máscara e fale olhando nos meus olhos, sei que vai se calar, pois quem é você sem palco? Sapo cururu na beira do rio, quando o sapo canta maninha, é porque tem frio. Gélido coração é o seu e se um dia você ganhou minha confiança, hoje perdeu minha esperança do ser que eu pensava que você era, em meu estado de primavera. Eu amo João, você ama Maria. Quadrilha. Ciranda, cirandinha vamos todos cirandar. Não, não tire a máscara. Não quero ver seu rosto. Suba no palco com seu novo projeto. Eu te conheço no palco da vida. E você tem sido meu professor, me ensinando lentamente a te odiar. Mas vou simplesmente esquecer. Você passará. Mascarado passou. Meus versos continuarão se sei bem a pessoa que sou. A canou virou, quem deixou ela virar? Sou o avaro burguês que não soube remar. Tire de perto de mim a palavra amar. Eu não te odiar. Escreverei mil versos enquanto a vida for testemunha da minha existência. Eu sou resiliência calada. Essa é a serventia da casa. Meu peito, meu lar.

Tenho pão, abrigo e proteção
Enquantos muitos vagueiam
Triste e pobre caro irmão
Cachorros de raça passeiam
Sociedade sem direção
Ontem mataram os indígenas
Depois escravizaram os negros
Vejo privilegiados otimistas
Outros carregam os pesos
Minhas lágrimas são luxo
De que tem três refeições
No meu apartamento burguês
Faco minhas reflexões
Por que o luxo é lixo
Se carros importados
Não tem nada a ver com isso
Muitos querem pão
Querem droga também
Para anestesiar o chão
Em que dormem de frio
De congelar a mão
Caríssimo irmão
De quem me desvio
Nas ruas de então
Sua droga é minha solidão
É o dinheiro que excede
No bolso ostentação
No restaurante italiano
Na padaria francesa
Outros contram moedas
Cínica mesquinha riqueza
Sei no estomago que pesas
O preço da avareza
Eu tranco as portas
Para me refugiar
Da ingrata realidade
A me rodear
Não dê dinheiro
Pois ele vai beber
Pois que beba irmão
Se o alcool é sua solidão
Frases de efeito
Sociedade em putrefação
Se sou delicada
E me come a depressão
Muito mais doeria a alma
Se tivesse que dormir no chão.
Escrevo calada na cadeira
O que procuro esquecer
Que a desigualdade
Ainda vai crescer.

Beba irmão
Se o álcool é sua solidão
Eu tenho comida farta
E me mata a depressão
Cada um vive
A sua opressão
Mas não somos todos iguais
Na poeira do chão
Eu tenho remédios
Você tem invisibilidade
Somos dois seres
Morrendo na cidade
Eu sonho com igualdade
De pão e alegria
Mas na impotência
Eu só escrevo poesia

Beba irmão
Se o álcool é sua solução

Beba irmão
Eu vou beber solidão

Um dia na cidade
Putrefação e desigualdade

Se o tempo esquecesse meu nome, eu continuaria anônima, fumando um cigarro de hortelã dentro de uma caverna onde constelações respiram entre morcegos e uma estrela cadente cai lentamente sem fazer barulho, lembrando que o belo é breve como a vida das borboletas que vivem apenas o suficiente para ensinar o amarelo ao girassol e o azul ao céu.
No meio do mar existe uma porta aberta, e eu entro nela como Alice atrás do coelho, atravessando algas coloridas e peixes alienígenas que guardam civilizações antigas, onde talvez eu me afogue e minha alma se dissolva na fórmula da água cintilante que colore o invisível e abriga um pássaro que nunca nasceu.
A estrela que caiu antes de nascer germina como um vaga-lume verde piscando na galáxia com altivez silenciosa, porque dois elefantes não fazem uma girafa e dois e dois são quatro apenas quando a vida vale a pena e o humor permite respirar dentro do absurdo; então guardo essa estrela no frasco do perfume da minha alma sinuosa.
Se uma palavra pudesse sangrar, eu protegeria a palavra vida para que as sementes continuassem sonhando em brotar entre arranha-céus de vidro impecável nas cidades cinzentas onde as línguas mastigam fel e o silêncio dos poetas transfunde sangue nas bocas numerosas que esqueceram como se conter diante do abismo.
Antes de eu nascer, um espelho já lembrava a avidez fatal do óvulo e do espermatozoide que decidiram minha existência no deserto concorrido dos poetas, onde a escravidão mata a racionalidade enquanto o azul permanece celeste e os pássaros planam com a tranquilidade de um homem que se debate entre o amor e a embriaguez.
E assim continuo atravessando portas abertas no oceano invisível, carregando estrelas em frascos de perfume, protegendo palavras feridas, enquanto um pássaro que nunca nasceu aprende lentamente a respirar dentro da água que lembra meu nome antes do tempo existir.

Ela caminhava com o corpo curvado, de cabeça baixa, olhando para o chão, como quem carrega sua solidão com solenidade. Ela olhou para o lado e avistou um pardal, dois, três. E pensou que se ela fosse um pássaro, talvez tudo seria mais fácil. Não tinha acontecido nada ruim naquele dia, mas ela chorava uma vida inteira. Ela já foi feliz muitas vezes, mas se recusava a lembrar. Vinha à sua mente apenas abandono, vergonha, tristeza profunda. Em algum lugar da cidade um aluno lembrava dela com carinho. Professora por muitos anos. Mas nada mais importava. Sentia-se anônima e invisível. Foi ao supermercado e, em um caixa preferencial, cedeu o lugar a um idoso. Ele agradeceu. Ela respondeu "é um direito seu". O idoso puxou conversa e ela aproveitou para interagir alguns instantes. Ele falou que se não fosse a fé em Deus, ele nada seria. Ela pensou sobre como admirava as pessoas que tem fé. Ela respondeu descrente ao idoso "se o mundo todo se organiza, só pode ser a existência de Deus". O idoso respondeu que nem tudo se organiza, pois tem muita gente passando fome. Ela pensou que ele não era ingênuo, já que respondeu exatamente o que ela pensava, mas tentava esquecer. O idoso foi embora. Ela respirou fundo, segurou a angústia que sentia no peito e pagou a conta. Ela voltaria agora para o silêncio de seu apartamento. Colocou o ar condicionado no mais frio. Ela gostava de sentir frio. Tinha a sensação que o frio a distraia. Guardou rapidamente as compras e no celular ela assistia vídeos repetitivos, que a acompanhava no decorrer das horas, enquanto a noite caia lentamente. Solitude, solitude, solitude. Repetiu a palavra três vezes para tentar transformar sua solidão em algo mais palatável. "Se ainda houvesse minha mãe", pensou na dor de quinze anos atrás, quando sua mãe morreu em um acidente de carro. Depois que sua mãe partiu, ela nunca mais dirigiu. Tinha muito medo do trânsito. A solidão que ela sentia era decorrência de várias fatores. Ela mesma foi se afastando. Não queria mais ter amigos. Queria apenas o silêncio de seu apartamento gelado. Uma amiga antiga escreveu sobre a saudade que ela sentia. A amiga falou que ela brilhava. Ela respondeu sincera "são outros tempos. Agora convivo com a depressão". A amiga respondeu que ela sempre brilharia. Ela fechou os olhos com tristeza. Despediu-se da amiga, que tinha sido muito generosa nas palavras. Então se lembrou de um tempo feliz, como quem se lembra do cinema mudo. A amiga havia feito bem a ela. Então pegou os materiais de arte, tela, tinta, pincel. E pintou um gato bem colorido, no estilo pop art. Assim estava sendo sua rotina. Era como se carregasse um peso em seu corpo. E já não acreditava mais na medicina.

Uma lembrança esquecida é como uma borboleta que já não é mais lagarta. Liberta do casulo, ela voa entre as flores e nesse instante é para sempre borboleta, pois o presente é inexorável e, se há sol, a chuva é esquecida, como girassóis que não se lembram da semente. A vida acontece no agora e o arco-íris não permanece no céu.
Há em nossas mentes uma cidade que só existe quando ninguém pensa nela. Nessa cidade mora o passado esquecido e todas as pessoas que passaram como vertigem ignorada. Aquela velha preocupação já esquecida mostra que o tempo passa e não há bem ou mal que dure, como um rio que corre para o mar e ignora a margem transitória que o delimita. A cidade dos temores esquecidos e das alegrias peremptória. Restam dois olhos que observam, na agudeza da retina subjetiva, como o espaço que a câmera enquadra.
O universo está de tão forma organizado que se um objeto decide abandonar sua função, um efeito cascata acontece. Digamos que o relógio já não marca as horas, todo o mundo entra em desordem, pois nem sempre há o sol para marcar o tempo universal. Se um tanque de guerra passasse a lançar flores, não haveria cheiro de morte, nem corações pretos de luto.
O som pede desculpas com o silêncio. Antes de haver som havia o silêncio. O som é sempre uma quebra na ordem cósmica, um ruído que reverbera como uma flauta desafinada, que incomoda os ouvidos. Apenas a música como obra de arte vale mais que o silêncio, mas não é possível viver de aplausos. O silêncio é a resposta da natureza quando uma semente brota sem anúncio.
Eu me encontro em mim mesma em vários momentos do dia. Sou aquela que escolheu a direita e a esquerda e estive no céu e no inferno. E o inferno era a própria terra tomada pela ganância e seus horrores. No céu não havia nuvens, havia paz. E a paz é o silêncio primordial que organiza o caos em melodia. Não há inferno que ofusque a grandeza do paraíso. E então minha alma repousa e adorme em meio à natureza harmônica.

Leio poemas como alimento.
Não leio com os olhos,
Nem leio com a liguagem.
Leio com a fome
De quem busca significados.
E isso é sempre arriscado.
Em meio a palavras herméticas,
Entendo como quem conhece.
E tudo flui organicamente.
Se as vejo em um conjunto
De produção e sensibilidade,
Cuidadosamente arquitetadas.
Não sei vocabulário rebuscado.
Mas sei sentir cada palavra:
Um peixe vivo em minhas mãos.
Raramente encontro o retrato fiel
Do que vivo febrilmente.
E por um minuto me sinto compreendida.
Eu que tantas vezes me dei por vencida.
Não sei nomear o que a vida faz de mim,
No momento presente, incoerente.
Cansada que estou
De movimentos lineares.
Reprimo sentimentos viscerais,
Se sou muito nesse mundo,
Que observa e constrói regras.
Sentada longamente não esboço ação,
Mas meu peito corre mundos
E cria realidades imprevessentes.
Como conter impulsos
De um ser que transborda
Dimensões caosmáticas?
Se penso em Deus,
É porque Deus está em mim.
Sem religião, sem plateia.
Apenas uma força
Que sereniza minhas visões.
E me faz tratar o outro
Com a tenulidade que espero.
Estou isolada de todos.
Sei que amo e sou amada
Por amigos caros em
Minhas afetivas lembranças.
Mas preciso estar só,
Para que minha mente
Não se vá por caminhos
Que desconheço e temo.
Solidão ontológica
É o que me resta,
Se não encontro pares
Que eu ouço e me ouvem.
Mas nada lamento.
Se tive o corpo torturado,
Aumentou minha noção de justiça.
Talvez eu seja dócil na aparência,
Velho hábito polido na educação.
O que dizer sobre
O que se passa em minha mente?
Nasci como sou e sou como nasci.
Mas sei conversar calmamente
Como se minha mente não estivesse em
Ebulição, com pensamentos contínuos.
Escrevo essas palavras,
Que ouso chamar de poema.
Se falo tanto de mim,
Não é ferida narcísica.
Tenho consciência da minha
Peculariedade, se não sou
Uma pessoa pragmática.
A maturidade se aproxima,
E faço um restrospecto.
Erros e acertos se entrelaçam.
Sinto vontade de pedir perdão,
Mas palavras não curam sentimentos.
E já não sei mais onde errei ou acertei.
Sinto paz e me aceito com minha
Mente idiossincrática.
E sei sentir afeto duradouro,
Mesmo no descartável do
Nosso tempo veloz.
Sei que estou prolixa
E o poema se demora.
Sem garantias.
Espero que você me leia,
E se sinta capaz de entender,
Sem banalizar minha confissão.
Mas se eu não te interesso mais,
É justo que essas palavras caiam
No esquecimento sem nada dizer.
Minhas palavras são normoses,
E posso disser que sem palavra
Eu fiz um poema.
Sem nenhuma força,
Sem nenhum apoio.
Eu sou resistência plantada
No chão árido.
E estou feliz,
Porque a felicidade mora em mim.
E sorrio sozinha,
Por que minha ternura,
Não conhece opressão humana.
Sigo em frente, olhos abertos,
Navegando no amor
Que vislumbro no horizonte.

Eu ainda te amo
Nao como que procura
sua presença no escuro
Mas com sentimento profundo
Eu te amo quem olha seus olhos
E busco sua alma que me atravessa
Com calma, sem pressa
Perdemos as palavras
Perdemos o abraço terno
Que eu oferecia sem cálculo
E sua palavras cada vez mais curtas
E nada fluidas anunciam
Que o nosso amor não te mobiliza
E eu te pinto com tinta preta
Uma imagem de luto
Onde estão as juras de amizade eterna?
Nada mais resta.
Estou sozinha em silêncio
No despontar do anoitecer
E minha casa é meu refúgio
Um solo impenetrável
Onde reflito minha existência humana.
Eu me basto, mas meus lábios
São vazios sem os seus
Eu quero introspecção
Silêncio que se entente
Você quer expansão
Viva social
E em meio a muitos
Eu me sinto habitante
De outro ecossistemas
Estamas separados por anseios de vida
E nada espero de ti
A não seus olhos que me observam
E a distância de nossos lábios
Eu te amarei na memória
Você procura ação
Eu anseio vida privada
Isso nao me faz mais pobre
Eu converso comigo
Você conversa com o público
Eu não deixei de te amar
Amo na distância
E seus olhos olham os meus
E nosso boca se tocam em silêncio
E à distancia
Sei que nunca seremos indiferentes
E na noite de hoje
Sonho com diferenças serenizadas
E o encontro de nossos lábios
Mostras que somos todos iguais
E nos encontramos em nossos corpo
E saberemos que fomos amados
Apesar do mundo
Apesar de nós dois
O amor quer pele
O amor não quer razão
Unidos pelo desejo inconsciente
De sermos um
Em um mundo caótico
O meu amor está aqui
Entre desejo e ponderação
Olhe-me, simples mulher caseira.
E te abraçarei profundamente
E te curarei da razão.
Eu não sou palco
Eu não sou plateia
Eu sou o amor puro
Que sua alma reconhece.
Ainda que você negue.
O amor é abstração
E nada espera,
O amor não é humano.
É um pedaço de divina
Na esfera terrestre.
Eu te amarei sem nada esperar.
Ao dormir eu lembrarei dos seu olhos.
Seguirei em frente como que carrega
O segredo do universo.

A literatura brasileira pode ser entendida como uma tentativa contínua de construção de identidade nacional, mas não de modo linear ou estável. Desde suas origens, ela se constitui como um campo de reflexão sobre o próprio país, suas fraturas históricas, suas influências externas e suas tensões internas. Mais do que um reflexo passivo da nação, a literatura brasileira participa ativamente da elaboração simbólica do Brasil, questionando e reconstruindo constantemente aquilo que se entende por identidade nacional.
Essa instabilidade pode ser percebida ao longo da evolução de seus autores. Machado de Assis, por exemplo, não apresenta uma obra linear. Seus primeiros romances ainda dialogam com o romantismo, enquanto sua fase realista introduz a ironia como uma forma de leitura do mundo e do ser humano. A ironia machadiana não é apenas um recurso estilístico, mas revela uma visão ontológica: o ser humano é contraditório, autoconsciente e frequentemente incapaz de compreender a si mesmo plenamente. No entanto, em sua fase final, como em Esaú e Jacó, essa ironia se suaviza, indicando que a própria visão de mundo do autor se transforma ao longo da vida. Machado, portanto, encarna uma consciência literária em movimento, que evolui e se reconfigura.
Em Clarice Lispector, a literatura deixa de ser apenas narrativa de acontecimentos e passa a se concentrar nos estados do ser. Sua linguagem pode tanto revelar quanto dissolver o sujeito. A epifania clariceana, recorrente em sua obra, é um momento de revelação que simultaneamente desestabiliza a identidade do personagem. Em A Hora da Estrela, por exemplo, a linguagem se apresenta mais linear, enquanto em outras obras se torna mais hermética e introspectiva. Em todos os casos, porém, há uma tensão contínua entre revelar o sujeito e desorganizá-lo, indicando que a identidade nunca é plenamente fixa.
Essa dimensão ontológica também se manifesta em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. O sertão, ali, é simultaneamente geografia e metafísica. Embora a narrativa se construa a partir de histórias de jagunços, essas histórias funcionam como pano de fundo para reflexões mais profundas sobre Deus, o diabo, o amor e a própria realidade. O sertão rosiano representa um estado existencial no qual o ser humano questiona constantemente o sentido de sua existência. A linguagem regionalista, elaborada e inventiva, não limita o alcance da obra; ao contrário, serve como veículo para questões universais e ontológicas.
Na poesia de Carlos Drummond de Andrade, o “eu” frequentemente se apresenta deslocado. Esse sentimento de inadequação é simultaneamente psicológico, social e metafísico. Ao afirmar que não será o poeta de um mundo caduco, Drummond revela tanto sua leitura crítica da sociedade quanto sua própria percepção existencial do mundo. O deslocamento não é apenas individual, mas também histórico e ontológico, refletindo a dificuldade de encontrar um lugar estável em uma realidade em transformação.
O modernismo brasileiro, por sua vez, buscou romper com a tradição europeia, mas também se constituiu a partir dela. Influenciado pelas vanguardas europeias — como o cubismo, o futurismo e o expressionismo —, o modernismo brasileiro não pode ser considerado totalmente revolucionário. Ele representou, antes, uma reconfiguração cultural que reposicionou o Brasil dentro de um cenário internacional. Embora tenha introduzido novas formas de expressão e valorizado elementos nacionais, manteve diálogo constante com modelos estrangeiros, revelando a complexidade da construção de uma identidade cultural autônoma.
Lima Barreto exemplifica a fusão entre literatura e política. Sua obra é simultaneamente um ato literário e um ato político. Ao desconstruir visões ufanistas do Brasil e expor desigualdades sociais profundas, ele revela um país distante da imagem idealizada. Sua escrita, crítica e amarga, continua atual justamente por evidenciar problemas estruturais que persistem. A literatura, nesse caso, torna-se instrumento de lucidez social e histórica.
Na poesia de Cecília Meireles, a temporalidade assume caráter ao mesmo tempo nostálgico e metafísico. Seus versos frequentemente refletem sobre a passagem do tempo e a transitoriedade da vida, construindo uma nostalgia que não se limita à memória pessoal, mas se expande para uma reflexão existencial sobre o destino humano. O tempo, em sua poesia, é consciência da impermanência.
A questão da identidade nacional atravessa toda a literatura brasileira. Durante muito tempo, a produção literária refletiu fortemente influências europeias. Apenas ao longo do século XX, especialmente após o modernismo e nas décadas seguintes, é possível perceber a consolidação de uma identidade literária mais autônoma. Ainda assim, essa identidade permanece instável, construída em diálogo constante com referências externas e internas. A literatura brasileira não define uma identidade fixa; antes, revela a dificuldade de estabelecê-la de forma definitiva.
Por fim, a relação entre forma estética e verdade social é central na tradição literária brasileira. Em obras como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a linguagem seca e direta corresponde ao conteúdo narrado, criando uma unidade entre forma e temática. A estética não suaviza a realidade, mas a traduz e a intensifica. Quando forma e conteúdo caminham juntos, a literatura alcança maior potência expressiva e crítica.
Assim, a literatura brasileira pode ser compreendida como um espaço simbólico em que a identidade nacional é continuamente construída, questionada e reformulada. Ela não oferece respostas definitivas, mas evidencia a complexidade de um país cuja identidade permanece em permanente elaboração.

Hoje foi um dia quente, desses meio sufocantes, ainda que minha mente estivesse serena e até mesmo otimista, como quem vê um eclipse e enxer a parte do sol não encoberta. Ao longo do dia, usei a linguagem com força e ironia. A ironia é uma ferramenta útil, porque desconstrói a seriedade de uma linguagem linear. O desejo ficou em segundo plano, pois o calor impedia certo sentimentalismo. Não houve cansaço, houve uma busca incessante pela verdade, enquanto meu corpo transpirava suor. Se minha mente fosse uma paisagem talvez seria o mar e sua dimensão, enquanto eu ficava na areia fatigado pela alta temperatura do clima. Eu poderia entrar no mar, mas o sol gerou uma apatia paralisante. Eu já desisti de ser entendida. Meu comportamento é gentil e educado, mas minha mente é um vulcão em erupção. E eu já estou acostumada com labaredas de fogo, com um sorriso meigo nos lábios. Não que eu minta. Não que eu finja. Apenas não me explico com dez minutos de conversa. E me vejo em uma biblioteca folheando livros, com a calma de um pássaro que constrói seu ninho. Poderia estar em uma floresta e esquecer o homo sapiens por alguns instantes. Mas volto à civilização, porque esqueci de colocar uma vírgula em um texto qualquer. Não sou ruína, sou construtora de mundos, nos dedos ágeis do meu pensamento, no fluxo psicológico de minha mente. Pensamento puxa pensamento, às vezes um, às vezes múltiplos. E eu aguento, porque não sou capaz de não ser eu mesma, e minha sinceridade e transparência assusta como um urso que saiu do estado de hibernação. Eu não me movo. Na poltrona em que me sento viajo além. Apenas olho o mundo com uma frieza que meu sorriso desmente. Uma palavra que me define seria sincronicidade, pois me nego a acreditar que a existência seja aleatória. Ainda acredito em significados e me alimento de vagas ideias, já que o mundo não me dá certezas nenhumas. Sou uma mulher doce. Quem me vê talvez pense que sou domesticada, mas larvas de fogo escorrem pelos meus olhos, um jeito mais quente de decifrar a vida. Creio no ser humano, mas não em todos. Penso na massa que trabalha com seriedade, enquanto a elite do mundo elabora altos níveis de persevidade. Sinto medo da maldade humana e me escondo de olhares, em minha impotência de cidadã comum. E me agorro em Deus, última potência de salvação em um mundo comprometido com sociedades secretas sádicas e cruéis, de tal forma que me deixa horrorizada, em estado de choque. A minha alegria está no cidadão comum, que come o pão fruto do seu trabalho pesado. Penso se haverá esperança no mundo e me recuso a ter filhos. Minha vida caminha isolada e silenciosa. Meu silêncio diz mais que a palavras, porque é denso, pleno de palavras não ditas. Se eu falasse certamente seria desacreditada e me canso antes de dizer. Estou lúcida e a loucura me visita de tempos em tempos. A lucidez dói, porque escancara o real para mim. E tenho que lidar com uma sociedade corrupta e vendida. Minha vontade seria nunca mais falar. Não articular palavras. Mas dou bom dia, boa tarde e boa noite, com um sorriso melífluo, enquanto escubro uma hemorragia interno. E meu peito sangra pelos inocentes, que morrem sem saber porquê um dia nasceram. Nada posso fazer, apenas como formiguinha, acreditar na Educação como agente de transformação pessoal e social. Eu acredito em Deus.

A literatura brasileira, quando observada em sua profundidade, revela não apenas estilos e escolas, mas sobretudo investigações sobre a natureza humana. Ao percorrer autores centrais como Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Lima Barreto, Drummond, Graciliano, Cecília Meireles, Jorge Amado e João Cabral de Melo Neto, percebe-se que cada um deles, à sua maneira, construiu um modo singular de enxergar o mundo e o homem.
Em Machado de Assis, a razão humana e a hipocrisia não aparecem como opostos, mas como um contínuo. Quanto mais o autor investiga os mecanismos da razão, mais expõe as camadas de dissimulação que sustentam as relações sociais. Sua literatura não nega a inteligência humana, mas revela como essa inteligência frequentemente serve para justificar interesses, mascarar intenções e sustentar aparências. Assim, a análise psicológica machadiana não conduz à exaltação da racionalidade, e sim ao desvelamento de suas ambiguidades morais.
Clarice Lispector, por sua vez, constrói uma escrita em que lucidez e angústia coexistem de forma inseparável. Em A Hora da Estrela, a personagem Macabéa vive uma existência marcada pela dor e pela invisibilidade, mas sem plena consciência disso. A autora, no entanto, possui a lucidez de enxergar essa condição e, justamente por enxergá-la, experimenta a angústia. A escrita clariceana revela esse descompasso entre a vida vivida e a consciência da vida, mostrando que a lucidez sobre o sofrimento alheio pode ser uma forma profunda de inquietação.
No universo de Guimarães Rosa, o sertão ultrapassa a geografia e se torna um território psicológico e metafísico. Quando se afirma que “o sertão é do tamanho do mundo” e que ninguém o conhece por inteiro, sugere-se que a vida humana é feita de veredas parciais, de caminhos incompletos. A linguagem regional reinventada por Rosa não é apenas recurso estilístico, mas uma forma de deslocar o centro da linguagem e explorar a complexidade da experiência humana. O sertão, assim, torna-se metáfora da própria existência: vasto, desconhecido e atravessado por pequenas trilhas de compreensão.
Lima Barreto escreve a partir de uma lucidez que, ao desmascarar as estruturas sociais, inevitavelmente gera revolta. Sua crítica à República e ao nacionalismo ufanista revela um país marcado por contradições e fragilidades. A lucidez literária, nesse caso, não é neutra; ela expõe e, ao expor, denuncia. A revolta surge como consequência da percepção aguda das falhas estruturais e da distância entre o ideal proclamado e a realidade vivida.
Carlos Drummond de Andrade reúne ironia e melancolia em uma poesia que reflete a crise do indivíduo moderno. Ao questionar o sentido da poesia em um mundo instável e muitas vezes insano, o poeta revela tanto desencanto quanto consciência crítica. Sua ironia funciona como mecanismo de distanciamento, enquanto a melancolia evidencia a percepção de um mundo em transformação e, por vezes, em decadência.
Em Graciliano Ramos, a secura estilística é simultaneamente estética e existencial. A economia de palavras e a dureza narrativa refletem a vida marcada pela pobreza e pela sobrevivência no sertão. A forma seca não é apenas escolha literária; ela corresponde a uma realidade igualmente árida. Contudo, ao transformar a miséria em linguagem literária, surge também a tensão entre representar o sofrimento e estetizá-lo, evidenciando a complexidade ética da escrita sobre a pobreza.
Cecília Meireles constrói uma poesia profundamente espiritual e melancólica, marcada pela reflexão sobre o tempo, a finitude e a transitoriedade da vida. Seu lirismo volta-se para dimensões mais contemplativas e menos materiais da existência, privilegiando o efêmero e o metafísico. Em contraste com a poesia de Drummond, mais ancorada no mundo concreto, a escrita de Cecília enfatiza uma interioridade que, embora bela, por vezes se afasta da materialidade social.
Jorge Amado, ao retratar o povo brasileiro, busca celebrá-lo em sua vitalidade, sensualidade e força coletiva. No entanto, essa celebração pode também revelar fragilidades estruturais, expondo um universo popular atravessado por contradições. A alegria e o colorido narrativos convivem com uma realidade social complexa, em que a exaltação do cotidiano popular pode evidenciar tanto resistência quanto precariedade.
João Cabral de Melo Neto demonstra que a emoção não depende do sentimentalismo. Sua poesia racional e precisa, especialmente em Morte e Vida Severina, constrói uma emoção verdadeira por meio da estrutura e da clareza. A experiência do retirante nordestino e a sucessão de mortes ao longo do caminho produzem impacto afetivo não pelo excesso de lirismo, mas pela precisão formal. A racionalidade cabralina revela que a emoção pode emergir da lucidez e da construção rigorosa do poema.
Entre todos esses autores, Machado de Assis se destaca como um dos mais lúcidos na investigação da natureza humana. Sua obra desmonta as aparências sociais e revela a complexidade moral dos indivíduos. Ao expor a hipocrisia e as ambiguidades das relações, ele constrói uma visão aguda e duradoura da sociedade. Sua lucidez permanece atual porque continua a revelar mecanismos universais do comportamento humano, mostrando que, por trás das convenções e discursos, persistem contradições profundas e permanentes.

O quarto calado, ao sol de meio dia, lembra almoço farto e ritual. Mas sentada na poltrona, eu fumo um cigarro indiferente e penso na vida como quem olha um quadro de Monet. A vida mal delimitada e brutalmente bela. O sol forte no horizonte é mais do que a vida rotação do planeta, é um retrato recomeço após uma noite escura. Noite de trevas, sexta-feira treze e um gato preto passando debaixo da escada. Mas o ontem já não pesa. Estou desperta e viva. E sinto alegria quando percebo que a linguagem me acompanha e me constrói à medida em que a uso. A liguagem é uma onça no zoológico. É uma fera domesticada. Linguagem é poder. Ele delimita o pensamento, dentro de seu léxico e sintaxe. Procuro nela uma fera indomável, não maculada pelo cotidiano. Amo a linguagem como quem admira uma obra de arte. Eu sou capaz de ouvir uma música nas palavras candenciadas. Lembro-me do amor que morreu ontem na noite escura. E sinto um pequeno lamento por um amor que morreu pouco depois de nascer. Um feto mal parido. Todos os dias o amor morre, quando dormimos, e o sono é uma morte tímida. Eu te oferi as estrelas, sem perceber o céu nublado. E amei em você o retrato de mim mesma, na foto de minhas retinas. Mas foto não é mais que uma cena congelada e se apaga com o tempo. Lembro-me dos meus bisavós, que morreram sem me conhecer. E me vejo em lápide desgastada pelo tempo. Sentimento sombrio, que contrasta com o sol do meio dia. As pessoas desfrutam a vida, entre distraída e preocupadas. As estrelas permanecem inertes ou em expansão e não usam relógios. São alheias ao nosso cotidiano, terrestre demais para ser sublime. E me vejo em campo de girassóis, cortando parte da orelha, como Van Gogh, para silenciar o ruído do mundo. A vida é trágica e é cômica. Nada é tão cômico como uma pessoa em um leito de hospital. O sol impede meu cinismo e pinto um quadro com tonalidade amarelo ouro e fundo preto. Preto porque estou de luto pela noite que acabou. Antes fosse a vida uma manhã de chuva. Eu me tornaria líquida e escorreria pelo chão, buscando novo abrigo. A loucura é um descanso da lucidez. A lucidez é tirana como um raio em dias de trovão. A vida são meus bisavós que já morreram e não se responsabilizam pela minha existência. A linguagem cotidiana, domesticada, é como um amor de plástico, belo na superfície, mas sem profundidade. Viver é jogar uma pedra em lago silencioso e observar pequenas ondas reverberando. A vida é torturosa, mas eu a amo, como uma criança teimosa. Há música, há Monet, há palavras. A vida é infiel, mas eu estou apaixonada. E o tempo todo eu me pergunto se ela me corresponde. Hoje é um dia de paz. E isso me apraz. Nada mais.

Hoje a tristeza, velha companheira das noites escuras, veio vestida de gala, com vida social agitada. Trouxe a esperança, para que eu nunca desista. Trouxe a melancolia, para eu agradecer os dias de sol. E trouxe a incerteza, para confundir minhas verdades. Eu a recebi como quem cumprimenta uma amiga antiga, que senta na sala em silêncio e registra as perguntas que meus olhos fazem. Eu não servi à tristeza um copo com lágrimas, porque o coração estava seco, em seu modo mais bruto. Não pude ignorá-la, já que ela era robusta e ocupava metade da sala, e boa parte do meu ser. Por educação servi um prato de ilusão, que eu tinha em fartura. Deixei escapar algumas palavras "é isso mesmo", "é só se resignar". Ela prontamente recusou minha tentativa de racionalizar, de tornar lógico o absurdo. E eu respondi ríspida "eu não devo explicações a você". Então ela sorriu, como quem coloca os pés em cima da mesa. Eu ignorei sua vulgaridade. Melhor colocar os pés em cima da mesa, do que no meu coração. Ficamos caladas, como quem de repente se estranha. Ela continuava uma presença muda, enquanto eu falava frases aleatórias. Ela não me amedrontava. Era visita frequente, dessas persistentes. Ela trouxe fotos de pessoas felizes, certamente para me humilhar. Eu respondi na defensiva "eu também já fui feliz", "fotos são apenas cenas congeladas". Ela sorriu irônica. Eu forcei um sorriso cinza, para mostrar que eu também tenho dentes, inclusive caninos. Eu abri um livro e li em voz alta um poema. Um poema certeiro e brutal. A tristeza se sentiu ameaçada. E foi vingativa. Falou a palavra "amor", como quem me lembra da ausência desse sentimento em minha vida. Eu me calei, cansada de argumento, apenas virei o rosto e pronunciei "agora tanto faz". E chorei. A tristeza sentiu que triunfou, mas eu enxuguei as lágrimas e coloquei para tocar minha música preferida. A música me tocou profundamente. Eu faleu "como é incrível a arte". E lentamente adormeci. Sonhei com um quadro de Monet, com acordes e melodias. Acordei no dia seguinte, meio sonolenta, e o sol raiava no horizonte. Sozinha na sala eu tomei um café quente e despertei para o dia.

O instante exato em que uma consciência percebe que é finita e, ainda assim, continua desejando o infinito não acontece como um choque, mas como uma convivência silenciosa. Os seres humanos vivem a ilusão do infinito porque só é possível viver o presente considerando que a vida é eterna. Se pararmos continuamente para pensar que a vida é finita e que tudo passará, tudo perde o sentido. Para construir sentidos no mundo, precisamos da ideia de infinito, embora saibamos racionalmente que a vida é finita. A regra torna-se então saber que a vida é finita, mas viver como se fosse infinita, pois isso gera projetos de longo prazo e sensação de continuidade. A vida é finita, mas os desejos são infinitos. E enquanto os desejos são infinitos, somos também infinitos.
Se a memória tivesse um corpo físico, o tipo de matéria que ela poderia ser talvez não fosse mineral nem orgânica isoladamente, mas a própria forma humana. A memória poderia ter o corpo de um homem ou de uma mulher, porque um ser humano é feito de memória. Seu tronco, seus braços, seus lábios e seus olhos seriam apenas a matéria em que a memória se manifesta. A memória é um acontecimento que se expande por todo o corpo por meio de células interligadas. Assim, a memória seria um corpo que caminha carregando em si o tempo passado, o tempo presente e a expectativa do tempo futuro, um corpo que age ao existir, porque existir já é lembrar.
Explicar o amor sem recorrer a palavras associadas a afeto, corpo ou emoção é reconhecer que ele se instala quando as necessidades básicas de sobrevivência encontram estabilidade. Primeiro vêm alimentação, moradia, segurança e pertencimento. Quando o básico se estabelece, surge a equação que coloca o amor como o ponto mais alto da estrutura humana, pois ele representa a necessidade de vinculação e de partilha de mundo. Sozinhos, estamos em um território pouco compreendido; com o outro, criamos um campo de significados compartilhados. O amor torna-se então o encontro de dois mundos que se influenciam mutuamente, a forma mais elevada de integração à realidade e de atribuição de sentido à própria ação.
Quando o tempo decide parar de obedecer aos humanos, o primeiro dia dessa rebelião silenciosa acontece sem alarde. Ninguém precisa acordar pela manhã, porque não há manhã. Qualquer horário serve para acordar, porque não há mais horário. O trabalho não tem início definido, nem término previsto. Tudo fica suspenso e tudo pode começar a qualquer momento. O tempo, que organizava a mente humana, dissolve-se. Sem ele, a vida deixa de ser fragmentada e passa a fluir de forma intuitiva. A existência deixa de ser uma sequência e se torna um campo contínuo, onde as ações já não obedecem a uma régua invisível.
A inteligência que cresce em ambientes hostis pode ser compreendida como uma pequena chama que insiste em permanecer acesa na escuridão. O ambiente é amplo e adverso, mas essa chama, embora pequena, ilumina o suficiente para reorganizar o espaço ao redor. Ela não é um incêndio, apenas um ponto persistente que transforma o ambiente ao revelar camadas que antes não eram percebidas. Assim, a inteligência em ambiente hostil não domina pela força, mas pela capacidade de mobilizar e reorganizar o que parecia imóvel.
Quando alguém descobre que viveu metade da vida sendo uma versão traduzida de si mesmo, ocorre um deslocamento interno profundo. A pessoa percebe que nunca teve controle total sobre a própria trajetória e que a vida é atravessada por ilusões e projeções difíceis de identificar. Surge a pergunta sobre autenticidade em um mundo cheio de nuances imperceptíveis. Esse reconhecimento não destrói a identidade, mas inaugura um despertar ontológico, uma tentativa de viver o restante da existência com maior integridade e consciência, ainda que nunca haja certeza absoluta de autenticidade.
Se a linguagem pudesse adoecer, seus sintomas mais perigosos seriam a revelação involuntária das estruturas ocultas da sociedade. Ela deixaria de ser domesticada e passaria a expor o que antes permanecia velado. O poder perceberia primeiro essa doença, porque seria o mais ameaçado por uma linguagem que já não obedece. O poeta reconheceria a mudança como parte de seu próprio território de experimentação. O louco, imerso em seu universo particular, seria afetado de modo indireto, como quem vive em uma margem onde a linguagem já se encontra em estado instável.
O encontro entre duas ideias que se odeiam, mas dependem uma da outra para existir, seria breve e inevitável. Haveria um cumprimento mínimo e o reconhecimento mútuo de necessidade. Cada uma afirmaria silenciosamente ao outro que a existência própria só se sustenta pela presença daquilo que rejeita. Assim, a convivência não seria harmônica, mas estrutural. Permaneceriam juntas não por escolha, mas por impossibilidade de separação.
Perguntar o que é mais pesado — aquilo que nunca aconteceu ou aquilo que aconteceu e não pode mais ser alterado — conduz a uma conclusão direta: ambos carregam peso. O que não aconteceu pesa como possibilidade perdida; o que aconteceu e não pode ser alterado pesa como permanência irreversível. Cada um ocupa um tipo diferente de densidade dentro da experiência humana, mas nenhum deles é leve.

Uma palavra não nasce de forma simples. Às vezes nasce primeiro o sentimento e depois a palavra vem para nomeá-lo. Outras vezes a palavra surge antes, como uma forma vazia que pede um sentimento para preenchê-la. E há momentos em que ambas surgem juntas, como uma única linha de extensão, uma construção inseparável em que linguagem e emoção caminham pelo mesmo trilho. A palavra nasce na linguagem e encontra o sentimento no mesmo caminho, sem que seja possível determinar qual veio antes. Há também um tipo de silêncio que não é ausência, mas excesso. Um silêncio nascido da percepção profunda. A pessoa está calada, mas filtrando tudo o que acontece ao redor: gestos, microexpressões, contextos, tensões invisíveis. Esse silêncio é denso. Ele contém mais do que palavras não ditas; contém uma atividade mental contínua, uma leitura permanente do mundo. É um silêncio cheio, carregado, um silêncio que observa. Se a lucidez tivesse temperatura, seria morna. Não fria como a inconsciência, nem quente como a loucura. Morna porque habita o meio. A lucidez não se perde em extremos: ela existe na zona intermediária entre a fervura do delírio e o gelo da ausência de percepção. É um estado de equilíbrio térmico da consciência. Perceber algo que ninguém mais na sala percebeu é uma experiência recorrente para quem vive da percepção. A percepção, muitas vezes, não é comunitária. Um olhar diferente, uma testa que se contrai, uma microexpressão de desprezo — sinais quase invisíveis que passam despercebidos pelos outros. Percebê-los gera uma solidão ontológica: saber que se viu muito e profundamente, mas não haver com quem compartilhar a percepção na mesma intensidade com que ela foi vivida. Toda inteligência paga um preço. A moeda invisível da inteligência verbal costuma ser a solidão. Quem lê camadas mais profundas da realidade percebe nuances e associações que nem sempre são compartilhadas. Enquanto alguns apenas existem no fluxo imediato da vida, a mente verbal está interpretando, analisando, cruzando sentidos. Isso cria uma distância silenciosa. Há a vantagem de ler o mundo com complexidade, mas há também o custo de raramente encontrar quem o leia da mesma forma. A linguagem pode ser pensada como um organismo vivo que escolhe onde habitar. Ela escolhe quem pode assimilá-la. Quando encontra um corpo capaz de recebê-la, estabelece uma relação de mutualismo: existe dentro do sujeito e, ao mesmo tempo, faz o sujeito existir dentro dela. Torna-se uma morada biológica e simbólica. Há espaço interno para que a linguagem habite, e, ao habitá-lo, ela estrutura a própria existência de quem a abriga. Solidão e soberania interior não são a mesma coisa. A solidão é o sentimento de abandono, a sensação de não haver um par no mundo com quem se expressar plenamente. Soberania interior é diferente: é saber quem se é, o que se quer e o que fazer com isso. Nasce do autoconhecimento. Não elimina a necessidade do outro, mas permite existir com autonomia, administrando o próprio tempo e as próprias escolhas com consciência. Se a mente fosse uma cidade noturna, às três da manhã haveria uma pergunta ainda sem resposta. Uma pergunta ruminada ao longo do dia, que na madrugada se aproxima de uma possível solução sem alcançá-la. É a insônia ontológica: a vigília provocada por questões que insistem em permanecer abertas. A cidade mental, nesse horário, é feita de espera e elaboração. Existem pensamentos que nunca podem ser ditos em voz alta. Eles não desaparecem; permanecem na mente, recalcados, em estado latente. São perigos ambulantes, pois a mente é falha e, em algum momento, o pensamento pode escapar — talvez em um ato falho, talvez em um gesto involuntário. Pensamentos não morrem; apenas mudam de volume e continuam existindo, mesmo quando não se tornam som. Estar verdadeiramente em um lugar é mais do que ocupar um espaço físico. É observar como o ambiente se constrói, quem o habita, quais forças o organizam, qual papel ele atribui a cada pessoa. É existir com consciência do contexto e de si. É estar ali com o corpo e com a mente, atento ao mundo e ao próprio lugar dentro dele. É existir de forma plena dentro do instante que acontece.

Dois movimentos importantes. Levantar da cama e sentar na poltrona. A alma ainda está dormindo, mas o cigarro nos dedos impele a acordar. Em frente tem a mesa com livros entulhados, cobrando-me por um antigo hábito social. Ali ficam os resumos que eu não fiz. A mesa é a minha mente, querendo fugir de mim mesma. Do lado da poltrona tem uma máquina de lavar roupas, lembrando-me que roupas não se lavam sozinhas. A cinza do cigarro é elegantemente empurrada para debaixo da cama. O coração do quarto é uma réplica de Monet, com cores saturadas. Mas Monet é Monet.
Amor é sutil como uma metralhadora. Em silêncio parece até um carinho inocente, mas apontado para a cabeça parece um crocodilo perto do bote. O amor salva, mas quando o amor é distorcido, o amor mata, mata ilusões, rasga álbum de casamento e vira briga por pensão alimentícia. Melhor evitar. Calcule a profundidade da piscina antes de pular de ponta.
Eu fui programada pelo DNA para repetir a mesma história 50 vezes, até encontrar uma resposta mais convincente. Eu não pedi para lembrar da minha biografia desde os três anos de idade. Então eu perdoo, mas esquecer jamais. E eu lembro a roupa que eu estava usando quando, trinta anos atrás, você foi tosco comigo. Mecanismo cognitivo. Eu não pedi para ter uma biblioteca de acontecimentos no meu cérebro. Coisas da vida.
Eu estou apaixonada pelo síndico do meu prédio e estou dividida entre reclamar da taxa extra ou fingir que eu não sou pobre. Então ele é o mensageiro do desejo e o demônio da taxa extra. Eu não sei se é porteiro do destino amoroso, ou se é só roubo à mão armada mesmo. Dilema emocional: amor X boleto.
Ainda estou digerindo a taxa extra com congestão. Enquanto eu me torturo com as dívidas, o síndico encosta o braço no meu e eu me apaixono. Perdi a briga e voltei para casa com um boleto cor de rosa com formato de coraçãozinho.
Eu sou excêntrica, não é para chamar atenção. É transtorno mental mesmo. Com direito a sair do meu apartamento, pegar uma vassoura e ir varrer a rua. Gari por um dia. Mas o chão ficou limpinho e meu tédio saiu satisfeito. Eu fumo. Muito. Muito. O cigarro é extensão da minha boca. Mas eu fumo tão elegante que o enfisema pulmonar acha bonito. Nada como tomar quatro ansiolíticos para a vida ficar mais leve. Hoje eu lavei dois copos, não me chame de inútil.
Eu tenho uma doença que todo mundo acha engraçadinho: bipolaridade. É tão engraçado, a pessoa surta, esquece até o próprio nome e depois tem depressão e quer se matar. Engraçado, né!? O brasileiro tem ótimo senso de humor. Pena que eu não posso rir junto, porque estou ocupada tentando sobreviver.
Bom mesmo é se alienar em seita. Você entra tomando chá alucinógeno e sai com três diagnósticos psiquiátricos. Como diz a seita: “luz, paz e amor”. Explica essa dinâmica para a clínica psiquiátrica, porque lá a meditação é “salve-se quem puder”. Eu me salvei com algumas escoriações no corpo. E agora o mantra é: “dois pesos, duas medidas”. Chá alucinógeno? Não, prefiro água, por gentileza.
O amor é patético, mas eu não tenho lugar de fala, porque eu me apaixono na velocidade da luz. Porque o síndico encostou no meu braço por três segundos e eu estou há semanas falando dele. O amor é o ridículo mais lindo que existe. Eu até tomei banho hoje, com direito a passar batom.
Eu sou mais inteligente que a média das pessoas. E a modéstia me obriga a me defender para não parecer vaidosa nem pretensiosa. Eu li Nietzsche e ele não tem pudor de exaltar suas qualidades. Então eu sou mais inteligente, mas não fique triste, você é legal — vou até te dar um biscoitinho.