Coleção pessoal de luccisantz
Tem coisa que era pra passar e vira residência fixa.
Uma ausência.
Uma frase atravessada.
Uma culpa antiga.
Um “e se” repetido tantas vezes que começa a parecer verdade.
A amizade .. Ela existe pra sustentar o que o amor não aguenta sozinho. Amigo de verdade é quem te encara no caos sem te transformar em projeto de reforma. É presença sem contrato emocional. Às vezes é só silêncio confortável, outras vezes é alguém te puxando de volta pra realidade quando tua cabeça resolve fazer teatro.
Há algumas portas que não abrem, trancadas como quem não tem volta,
E no meu peito,
Ah no meu peito… um cadeado e uma saudade escondida.
Talvez hoje eu não tenha “um mundo” pra entregar. Mas talvez o problema nunca tenha sido faltar mundo. Talvez tenha sido carregar o universo inteiro nas costas tentando ser indispensável pra alguém.
Café Frio e Silêncio
A ex chegou sem avisar,
a atual ficou no sofá,
uma perguntando quem era a outra,
e a outra sem nem respirar.
O café esfriando na mesa,
o clima pegando fogo no ar,
três mulheres e mil problemas
dentro do mesmo lugar.
Uma saiu batendo a porta,
jurando nunca voltar,
a outra saiu no silêncio
que faz qualquer peito afundar.
E no meio daquela fumaça
de ciúme, tensão e azar,
ela percebeu que amor confuso
só serve pra atormentar.
Porque quem cobra mas também esconde,
quem ama mas vive a duvidar,
transforma beijo em labirinto
e cansa qualquer olhar.
Então pegou o celular cansada,
pensou: “ninguém vai me endoidar”,
deletou as duas da cabeça
e voltou pro Tinder sem pensar.
Porque às vezes é mais tranquilo
tatuar dragão, cobra e punhal,
do que tentar entender
relacionamento emocional.
— Lucci Santz
O menino dos limões
Eu estava voltando pra casa de bicicleta
carregando cansaço, dívidas emocionais
e uma vontade silenciosa de desaparecer do mundo por algumas horas.
Então ele me chamou.
“Tia… você tem alguma moeda?
Eu tô com fome.”
Era só um menino.
Magrinho.
Pele morena.
Olhos verdes que ainda não tinham desistido da vida.
Um pitózinho torto no cabelo
e uma dignidade dolorosa na voz.
Dei as moedas e fui embora.
Mas alguma coisa me atravessou no meio do caminho.
Quando voltei
ele estava em cima de um muro
tentando pegar limão pra comer.
E naquele instante
o mundo inteiro ficou pequeno.
Pequeno feito gente egoísta.
Pequeno feito orgulho.
Pequeno feito discussão inútil.
Pequeno feito pessoas que machucam outras por vaidade
enquanto uma criança tenta enganar a fome com fruta azeda.
Levei ele na padaria.
E o que mais me destruiu
não foi a fome dele.
Foi o cuidado.
“Se ficar caro, tia…
pode deixar o refrigerante.”
Criança nenhuma deveria saber o peso de um refrigerante no bolso dos outros.
Mas ele sabia.
E eu ali
sem dinheiro
sem rumo
emocionalmente quebrada
percebendo que talvez eu tenha gastado demais tentando salvar adultos
quando poderia ter alimentado mais crianças.
Ele foi embora sem saber meu nome.
E eu fiquei ali
vendo um pedaço da humanidade indo embora a pé
com pão nas mãos
e fome no mundo.
Ass: Lucci Santz
TDAH ... É viver
com a mente parecendo cidade grande em horário de pico.
78 abas abertas.
Uma música aleatória tocando no fundo.
Memórias entrando sem bater.
Pensamentos tropeçando uns nos outros
feito gente desesperada correndo atrás de si mesma.
E no meio desse caos
você ainda tenta amar, ajudar, sobreviver, lembrar.
Mas sempre aparece alguém
transformando esquecimento em defeito de caráter,
como se tua mente cansada fosse ofensa pessoal.
Não entendem que existe diferença
entre não lembrar
e não se importar.
Aí vêm os gritos,
o esculacho,
a humilhação embrulhada em “sinceridade”.
Curioso como tanta gente exige compreensão
enquanto distribui crueldade com naturalidade.
Nossa espécie realmente acorda cedo
pra competir por medalha
de desgaste emocional.
E ainda assim,
mesmo perdida entre ruídos,
você continua tentando ser abrigo
pra quem nunca aprendeu
a não virar tempestade.
Aprendi tarde que existem pessoas que confundem bondade com recurso infinito. Não virei fria por começar a dizer “não”. Só cansei de alimentar o mundo inteiro enquanto eu mesma passava fome por dentro.
Sorri.
Conversei.
Fingi normalidade.
Enquanto por dentro,
as paredes desabavam devagar.
Tem gente que acha
que a morte sempre faz barulho.
Mas às vezes ela chega mansa,
senta no peito
e apaga a pessoa aos poucos,
como luz de casa atrasada.
E o pior?
Você continua vivo depois dela.
Carregando os restos.
Aprendendo a respirar
com os pulmões cheios de ausência.
Mas existe uma coisa irritantemente nossa, humana..
sobre sobreviver:
mesmo quebrada,
a alma insiste.
Insiste em escrever.
Em sentir.
Em levantar da cama
mesmo sem acreditar muito no amanhã.
Talvez porque,
lá no fundo,
até as ruínas sonham
em virar lar outra vez.
Eu me perco todo dia.
Às vezes nas lembranças,
às vezes no mercado tentando lembrar por que entrei ali.
Tem dia que me perco em gente errada,
em conversa inútil,
em saudade reciclada igual pote de sorvete virando tupperware.
A verdade é que viver é isso:
um grande “cadê meu equilíbrio emocional?”
enquanto a gente procura o celular
com o celular na mão.
Mas sigo.
Porque até GPS recalcula rota,
e eu não vou perder a chance
de me achar mais gostosa, mais forte
e um pouquinho mais surtada amanhã.
“Eu sou assim porque sou escorpião.” “Tenho lua em caos e ascendente em sumiço emocional.”
Humaninhos pegam traço tóxico, colocam glitter cósmico e chamam de profundidade. Astrologia era pra ser símbolo, reflexão, linguagem arquetípica. Aí transformam em carteira de habilitação pra ferir os outros sem culpa. Uma espécie de “desculpa jurídica do zodíaco”. Impressionante o esforço da humanidade pra terceirizar responsabilidade até pros planetas. Saturno deve estar exausto.
Tem gente que usa signo como autoconhecimento. E tem gente que usa como biombo emocional.
“Sou intensa.” Não, querida, você só não sabe dialogar sem explodir metade da cidade emocional ao redor.
“Sou fria porque sou de escorpião.” Não. Você escolheu silêncio como arma e romantizou isso.
No fim, caráter nunca esteve no mapa astral. Só o caos potencial. O resto é decisão.
E a pior parte? Quem ama ainda tenta entender. Fica procurando sentido em casa astral enquanto recebe indiferença na cara. Uma tragédia bem humana, aliás. Pessoas ferem, somem, deixam cicatriz… e depois culpam Vênus retrógrado como se o universo tivesse hackeado o bom senso delas.
Ser humaninhos adoram transformar defeito em identidade mística. Astrologia às vezes vira crachá de irresponsabilidade afetiva com planetas decorativos.
