Coleção pessoal de LEandRO_ALissON

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Ninguém busca em outrem, e talvez ninguém lhe perdoe, aquelas emoções muito familiares que o confirmam em seu próprio estado. A comunicação com outro ser só pode se produzir mais acima, graças a um movimento pelo qual cada um, não pensando mais em si, mas somente no próximo a fim de ajudá-lo a alcançar uma vida superior, recebe imediatamente dele essa mesma vida que quer lhe dar. Dirão que, como todos os cimos, o da consciência é tanto mais solitário quanto mais alto for. Mas só ele, que atrai todos os olhares, é capaz de reuni-los.

Se não há nada de novo a dizer sobre um filosofo de antigamente, escrever sobre ele é só uma frescura acadêmica, uma exibição de cultura para fazer currículo. Nunca escrevi sobre Platão porque Paul Friedländer, Eric Voegelin e Giovanni Reale descobriram mais coisas sobre ele do que o meu pobre cérebro conseguiu processar até agora. Mas creio ter descoberto umas coisinhas sobre Aristóteles, Descartes, Maquiavel e Karl Marx.

Grandes homens como Romano Galeffi, Miguel Reale, Paulo Francis e Ives Gandra da Silva Martins foram humildes o bastante para consentir em aprender comigo. Empombadinhos preferem antes permanecer burros para sempre do que admitir, por um minuto que seja, que eu sei algo que eles não sabem. É um espetáculo patético, e eles nem se vexam de repeti-lo de tempos em tempos, com iguais e nulos resultados.

Uma teoria qualquer não se julga pela sua analogia direta ou inversa com outra, mas pela sua apreensão correta ou incorreta dos fatos.

Na lista das minhas obras inéditas, nem incluí, para evitar discussões extemporâneas, os seis volumes do 'Tratado de Astrocaracterologia', que, ao contrário do que imaginam os palpiteiros ignorantes, não é uma obra 'de' astrologia (nunca escrevi uma) e sim 'sobre' astrologia, uma obra de filósofo e não de astrólogo.

A realidade da vida humana é a tensão entre o desejo e o sofrimento. Jesus ensina isso. Fugir dessa verdade é autocastração espiritual.

"As épocas luminosas da História são aquelas em que um mesmo corpo de crenças é compartilhado pelo povo e pelos sábios, diferindo apenas no grau de compreensão refletida com que apreendem substancialmente as mesmas verdades.

Nas épocas de obscuridade, ao contrário, aquilo que os estudiosos sabem se torna dificilmente comunicável à população em geral, não por um mero descompasso de vocabulário técnico, mas por um abismo de diferença entre duas concepções do mundo mutuamente incompatíveis e intraduzíveis. É numa dessas épocas que vivemos.

Os 'meios de difusão' tornaram-se 'meios de ocultação' numa escala tal que já não há nenhum exagero em dizer que a mídia popular tem hoje por missão principal ou única tornar a verdade inverossímil ou inalcançável.

Qualquer pessoa que tenha os jornais e a TV como sua fonte principal de informações está excluída, in limine, da possibilidade de julgar razoavelmente a veracidade e a importância relativa das notícias.

A política tornou-se um assunto esotérico, em que somente um reduzido círculo de estudiosos pode atinar com o que está acontecendo."

(Diário do Comércio, 6 de dez. de 2012)

Só quem ama um Deus onisciente e fala com Ele todos os dias pode se conhecer a si mesmo. Os outros só se contemplam nos mil estilhaços de um espelho partido, onde sua imagem se esfarela numa poeira de opiniões.

Quando, durante a oração, percebo a minha miséria diante de Deus, acontece uma coisa extraordinária: meu pensamento se torna mais claro, episódios mal compreendidos adquirem de repente todo o seu sentido, e áreas inteiras da minha inteligência que estavam adormecidas voltam a funcionar. Conclusão que me parece bastante razoável: o sentimento adequado da nossa miséria é o centro da nossa consciência, a chave do nosso senso das proporções, a única via eficiente para um ser humano se instalar na realidade da sua vida com uma perspectiva correta.

Se conhecer a verdade na sua fórmula universal e genérica bastasse, seja para a sabedoria na vida, seja para a salvação da alma, Jesus não teria se encarnado na forma de um indivíduo humano singular, concreto e vivo. Bastaria que enviasse um livro, como no Islam. E nesse caso Ele não teria dito: 'EU sou a Verdade'. Ele diria, como no Islam: 'A Verdade é o Livro.'

A verdade só existe na intuição da realidade concreta e viva por um ser humano concreto e vivo, no momento em que essa intuição acontece. Tudo o que está escrito é apenas o registro de atos de intuição já acontecidos, que têm de ser REVIVIDOS para tornar-se verdades de novo. A verdade é uma PRESENÇA, não uma proposição, uma coisa dita ou escrita. Isto mesmo que estou escrevendo, expressando uma intuição que tenho, e que no momento é verdade na minha consciência, só será verdade de novo quando você, depois de ler o que escrevi, intuir a mesma coisa que intui, com a mesma evidência gritante que tem para mim agora.

O reconhecimento da identidade de duas proposições — base de todo o raciocínio lógico — é um ato intuitivo, não um mero 'pensamento'. Apenas a sua MATÉRIA se constitui de pensamentos. Embora as proposições tenham de ser pensadas, a identidade delas não existe só no pensamento.

Se não fosse assim, a própria distinção de intuição e pensamento seria impossível. A mente produz, cria, constrói os pensamentos, mas INTUI as relações entre eles. Intuir é o mesmo que perceber, com a ressalva de que este último verbo se usa mais com relação às percepções de objetos sensíveis.

Basta meditar um minuto na sentença de Jesus, 'EU sou a Verdade', para entender que a Verdade é uma Pessoa, uma Presença, não uma proposição ou seqüência de proposições. Mas, para esse minuto chegar, às vezes é preciso esperar uma vida inteira.

Se você é um brasileiro intelectualmente superior, muitas pessoas em torno o verão como uma instituição, um prédio, um monumento, às vezes algum tipo de fantasma ou vampiro, e terão extrema dificuldade de perceber seus sentimentos, seus estados interiores, suas afeições e sofrimentos. Só dirão que você é humano quando querem acusá-lo de algum erro.

Após adquirir os critérios e métodos fundamentais da vida intelectual, o passo seguinte é abrir-se, sem prevenções nem medo, não a todos os “argumentos”, o que seria mergulhar numa tagarelice sem fim, mas a todos os fatos. Leia e ouça tudo, pouco importando se vai contra a sua igreja, contra o seu partido, contra os judeus, contra os católicos ou contra a sua mãe. Durante alguns anos você vai ficar numa confusão dos diabos, mas, se permanecer calmo e paciente, observando a confusão com honesto interesse e com compaixão, no fim algumas linhas de força acabarão sugerindo a forma do conjunto.

Eu não sabia que me atribuir um ego inflado valesse como refutação de algo que eu disse.

Para meninos de ginásio, passar de ano e obter seu diplominha é a prova máxima de superioridade intelectual. Mas continuar pensando assim na idade madura é prova de infantilidade.

Só quem AMA A LITERATURA entende o que eu escrevo. Quem conhece apenas o código jornalístico ou o jargão da sua profissão. deforma tudo.

O esforço legislativo é útil para controlar a nomenklatura e os corruptos em geral. Como arma contra a hegemonia intelectual e cultural, é não só inútil como contraproducente.

Sem EXTENSA cultura literária e filosófica, sobretudo sem conhecimento suficiente da evolução interna do marxismo, ninguém pode sequer apreender a noção de guerra cultural, muito menos entrar nessa guerra com proveito.

Há livros que arrancam aplausos da crítica e ganham tremenda popularidade pelo simples fato de zombarem da verdade – quanto mais escandalosa a zombaria, tanto melhor. Há muitos leitores, sobretudo os críticos das obras modernas, que empregam outros padrões para julgar, elogiar e condenar os livros que leem – originalidade, sensacionalismo, poder de sedução, força, até mesmo a capacidade de distrair e confundir a mente do leitor, mas não a verdade, a clareza ou a capacidade de transmitir conhecimento. Arriscaríamos a sugerir que se dizer a verdade voltasse a ser um critério editorial importante, poucos livros seriam escritos, publicados e lidos.

A democratização da cultura é sempre uma política autocastradora. Num primeiro momento ela consiste em distribuir entre as massas os bens culturais mais altos antes desfrutados só por uma elite, mas logo em seguida as massas não aceitam mais os bens culturais escolhidos pela elite e passam elas próprias a escolher os bens que desejam. O resultado é que voltam a consumir os mesmos bens inferiores que recebiam antes da democratização, ou outros ainda piores. Os bens mais altos voltam a ser privilégio de uma elite, não porque sejam sonegados às massas, mas porque as massas não os desejam. Isso é universal e inevitável.

Os que levam diplomas brasileiros a sério, por favor averiguem a lista de centenas de autores de importância medular que eu pessoalmente introduzi no repertório de leituras do nosso povo e me digam a quantos desses autores eu teria acesso em QUALQUER curso universitário no nosso país. Se dou a meus alunos uma educação em filosofia, letras e ciências humanas melhor do que poderiam receber nas universidades -- e eles mesmos o confirmam --, foi porque antes a dei para mim mesmo; e a dei para mim mesmo porque entendi que não poderia obtê-la em universidade nenhuma.