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Coleção pessoal de Eliot

781 - 800 do total de 1102 pensamentos na coleção de Eliot

⁠Poema Controverso -

Lá longe, tão longe, por ti clama a minha voz!
Cá perto, tão perto, em ti meu pensamento!
Pensar, quão triste, pensando em nós,
dor, tão funda, o teu afastamento ...

Um nós, tão longe, não existe ...
Existe, é fim, meu triste coração!
Eterno e vago, instante que persiste,
numa triste, eterna e vaga solidão!

Triste meu pobre coração - tão triste -
sem destino ou direcção,
esmorece, pobre e escassa ilusão!

Minha Pátria, minha casa, meu deserto,
minha asa, meu orgulho, meu chão,
meu desejo incontrolado, meu poema controverso ...

⁠Recordando -

À noite no jardim, avanço pelo crepúsculo,
esplendido, nocturno nas vagas rumorosas.
Parece a Vida morta, suspensa, num tumulo,
como pétalas caídas, desfolhadas de uma rosa ...

Que o Céu, angustiado e soberano,
estrelado manto de saudade,
encobre os versos que declamo,
nestes tempos dolorosos de vaidade ...

Ai pudera eu viver
no extinto e no porvir,
que o Amor sem Primavera,

traz espanto e quimera,
agonia e quebranto,
ao ser que nada espera!

⁠Tarde demais -

Dizem não ser tarde demais!
Dizem não haver que desistir!
Mas que se pode querer mais,
por onde persistir,

se o amor não for verdade
ou a verdade não for amor?!
Há falta, ilusão, saudade ...
Que a memória seja breve, triste dor,

tão breve que desvaneça o recordar,
leve a mágoa, o vazio e a vaidade,
a tristeza desse amor que emana ao passar ...

Que não tem como passar,
que não tem como viver,
tarde demais, há que esquecer!

⁠Despojamento -

Ouve-me se é que ainda me podes ouvir
nestas palavras rasgadas das arestas da Vida!
Os desejos, os sonhos, nada te vou pedir,
apenas um momento (outro) do teu leve sorrir!

Falo-te sem amargura ou falsidade
de coisas da Alma que me são caras!
Coisas ditas e sentidas que são verdade
de um pobre e triste miserável ...

Ao teu Amor por mim ganhei amor!
Mas teu silêncio profundo, agora,
faz do meu caminho um deserto de calor!

Digo nestes versos que te amo sem pudor!
Vê se me queres (ainda) sem demora,
meu amor, meu amor ...

⁠Dor Ritmada -

Estou morto. Sou morto. Absorto ...
Sou nada. Serei nada. Ave. Calada ...
Ausente. Sem mim. Nem corpo ...
Morto. Absorto. Ave. Prostrada ...

Estou só. Tão só. Que dó ...
Aqui. Ali. Sem ti ...
Louco. Um louco. Tão só ...
Tão perto. Tão longe. De si ...

Nasci. Aqui. Sem Luz!
Alma. Triste. Cansada ...
Desgraça. Sem graça. Reluz...

Que farás. Ó Alma. Além. Daqui?!
Aplausos. Palco. Casa Cheia ...
Um mundo. Jucundo. De oiro. E cetim!

⁠Voar Errado -

Há no desespero um não sei quê de glorioso!
Algo que me intriga, eleva, dinamiza ...
Há na solidão um não sei quê de atencioso
que me envolve, adormece, sintetiza ...

Há na Alma um não sei quê de precioso!
Uma Vida de viagem mundo fora
que nos leva. Leva onde?! Onde leva?! Turva agora,
água limpa, triste ser, silencioso ...

Eterna solidão d'um Poeta intemporal,
capaz de amar, amando a negritude,
escrevendo versos em seu próprio corporal!

Meu linho, meu tecido, meu brocado,
minha capa, meu sudário, eterna juventude,
cega, possuída, asa quebrada, voar errado ...

⁠Velhice -

Quando a Vida já não tem sentido
que fazer, que procurar?!...
Quando a alegria se tiver perdido
porquê viver, porquê lutar?! ...

E que destino tem alguém desiludido?!
Sem esperança, força ou vontade ...
Que pena! Sobra apenas um gemido
devorado p'la idade ...

E que será depois? Que virá? Virá?! ...
É tarde ... tão tarde ... resta a morte!
Que o tempo seja breve. E que vá ... vá ...

A Vida já não é Vida é maldade!
Quando se for a minha sorte,
que me leve a morte, sem pena nem piedade!

⁠Queixas -

Sou de longe ... de tão longe me sou!
Incerteza de poeta - desespero!
Homem derradeiro que a Vida ensinou.
Ser eterno, fecundo, inteiro ...

A Vida é temporaria,
dois, três dias de hospedagem
que hora a hora é diária
nesta Eterna vigem ...

Fingir para quê?!
Se a Vida é curta ... de passagem ...
... tão curta que mal se vê!

Pesos que não são meus - não quero!
Verdades concebidas - são miragem!
Que eu sou eu - livre - primeiro!

⁠Equivoco -

Meu sonho. Fantasia. Sem destino ...
Ironia. Sem tempo. Ou idade ...
Agonia. Loucura. Sem tino ...
Passou. Agora. É tarde ...

Falhei. Iludi. Errei ...
Menti. Enganei. Maldade ...
Mas sempre acreditei ...
Passou. E agora. Já é tarde ...

E a verdade?! Que verdade?! Qual ...
Se até Cristo padeceu.
Neste mundo. Pejado. De mal ...

Homens. Que matam. Sem piedade ...
Matam. Por Amor. A Deus!
Equívoco! Sem perdão! É tarde ...

⁠Sem Lugar -

Que encanto tem a Vida sem Amor?!
Que Verdade tem a Alma sem carinho?!
Que destino é o meu neste torpor,
Alma sem corpo, pássaro sem ninho ...

Efémero pedinte, faminto, à toa,
por ruas penitentes, sem nada,
navio ao cais, sem proa,
soluçando ondas amargas!

E quantas ondas tem o mar?!...
Tem tantas quantas penas
tem as aves ao voar ...

E quantas penas tem as aves?!...
São tantas quantas são as solidões
que envenenam a Alma dos audazes!

⁠Meu Tormento -

Meu corpo sente a tua falta ...
Saudade imensa dos teus braços ...
Meu Sudário, meu punhal - de aço! -
Meu tormento em Maré Alta!

E choro em silêncio - triste penitência ...
Ninguém há que me acalente
em nocturno sofrimento! Persistência
a tua que nada diz ou sente!

Não é Verdade o teu silêncio!
Punhal que cresce e me trespassa ...
Meu pobre Coração cinzento ...

Não é verdade o teu afastamento!
Não passa com o vento - ó Deus - não passa!
É triste, rubro, eterno este tormento ..

⁠A Noite de Évora -

A Noite de Évora escorre-me os Sentidos!
Meu intimo Poema, meu corpo de Saudade,
meu jardim feito de cedros, eternos e perdidos,
minha Terra dolorosa, sem Tempo nem Idade ...

A Noite de Évora grita-me ao ouvido!
Quadras, versos, Sonetos de solidão ...
Mortos os Poetas, vagueando sem sentido,
buscam pelas ruas um singelo Coração ...

A Noite de Évora é feita de Silêncio,
pausa e Silêncio, mil aromas d'açucenas
que arrastam pela Vida muitas penas ...

A Praça, a Fonte, o Templo, a Sé,
tudo em mim, oculto e presente,
tão perto, tão longe e tão distante ...

⁠Triste Desengano -

O pior Tempo que vivi foi a Juventude ...
Impasses de solidão, expectativas e desejos,
tudo informe, deformado, sem plenitude,
num Tempo de fantasia e ensejo!

Sou mais antigo que o meu corpo ...
Não encaixo nesta Vida, intensa, concebida
além de mim, tão perto e tão longe, morto
numa infância, juventude deprimida!

Sou cadáver exumado, pronto a sepultar,
num chão salgado, sem destino,
p'ra não correr o risco de tornar ...

Alma viva em corpo morto - triste desengano!
Ó Deus é tão triste o meu destino
que o meu destino só pode ser engano ...

⁠Impossiveis -

É tudo tão diferente ao que eu sonhei ...
Somos impossíveis, nocturnos,
Sol que anoiteceu, esmola que não dei,
rompido fio-de-prumo ...

É feroz o teu silêncio!
Em mim rasgada solidão!
Amplitude d'Agonia, sentimento
que separa, dois amantes sem perdão ...

E alguma vez sentiste o que disseste?!...
Ouviste alguma vez bater meu Coração?!...
Não! Fui eu nas asas da ilusão ...

Agora, separados, dois inúteis,
sem eira nem beira, à beira da solidão,
somos, afinal, dois tristes impossíveis ...

⁠Encontro desencontrado -

Não te via há tantos dias
quando tristes nos cruzámos,
passeando pela rua, noite fria,
nem tampouco nos falámos ...

Ao teu lado, outro Alguém,
acompanhava os passos teus!
E nessa hora, intensa, de desdém,
fixaste sem pudor os olhos meus ...

E abrandámos o passar ...
Em silêncio recordámos o Passado
e partimos sem falar ...

Recordei o meu tormento,
solidão que me deixaste
num falso juramento ...

⁠Amor e Saudade -

O Amor e a Saudade
são duas águas que nos turvam,
não importa tempo nem idade,
se todos, na verdade, se curvam ...

Pois que Vida sem Amor
é mar sem firmamento,
Verão, entardecer, sem calor,
Poeta sem Pensamento ...

E o Amor vivido sem saudade
que teria d'interesse ou de verdade?!
Seria apenas conta errada ...

Que na Vida, só Ama e é Amada,
a Alma que se entrega, na Verdade,
à Verdade do Amor e da Saudade ...

⁠Emoções Diárias -

Pela Estrada caminhamos ...
Tristes ou alegres,
seguros e imberbes
de Esperança nos fazemos!

E onde vamos?! Vamos simplesmente.
Caminhamos e amamos,
ignoramos, ultrapassamos,
construímos e ganhamos!

Mas perdemos também!
Odiamos, perdoamos
- tudo e nada - de onde vem?!

Vem simplesmente ...
E de que vale o que ganhamos
se morremos lentamente?...

⁠Mensagem -

Às vezes penso em tudo o que aconteceu ..
E não entendo! Porque é que nos cruzámos?!
Porque é que tudo entre nós se perdeu
se realmente nos amámos?! ...

Se tudo na Vida tem sentido,
qual o sentido p'ra nós dois?!
A intensidade do que vivemos, tão sentido,
e as palavras que dissemos, depois ...

Os abraços que demos e perdemos,
o teu silêncio, inesperado, insepulto,
os beijos que ansiámos e não demos ...

Tudo em mim, confuso e saudoso!
Doce e amargo, em luto,
num verso carinhoso ...

⁠No Sepulcho de Alguém -

Descanso o meu olhar sobre uma lousa,
despojo final, sem luz nem Vida,
de Alguém que amei e Jaz repousa,
eterna, silenciosa e tranquila ...

Minha colcha de oiro fino e de cetim,
não pôde a fria tumba, docemente,
desfazer a cama de ilusões, amarga e sem fim,
que a Vida te fez viver, intensamente!

E o vento passa! Leva, traz, murmura!
Lânguidos suspiros, silêncio absorto, sonhos d'água ...
Invejo a tua campa, minha amada, solitária sepulchtura ...

Quem ama como eu sorri à morte!
Triste desespero, lamento, agonia, mágoa ...
Eu vivo - tu morres! Triste sina - má sorte!

⁠Misticos Cemitérios -

Tudo em torno é silêncio e solidão.
Junto às sepulturas inda há gente que s’inclina,
buscando ouvir palavras, que em surdina,
os mortos, ao ouvido, lhes dirão – é vão!

Aqui, junto às sepulturas, apenas oração
que o caminho das Almas ilumine,
numa Espiral-de-Fé que as “fulmine”,
elevando-as ao alto em mística Ascensão!

Diáfano silêncio! A Voz-de-Deus
ressoando do Além, Paz vindoura d’outros Ceus,
sombreada por ciprestes e cedros de saudade.

Naquele Espaço-Etéreo há um doce encantamento,
uma Paz Religiosa, um puro sentimento,
Portal-de-Vida que vai da Morte à Eternidade …