Coleção pessoal de eli_odara_theodoro_1

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MÃE QUILOMBOLA!

Talvez o barulho provocado na natureza do meu desejo materno tenha despertado, em nós, a conexão com o amor desta união. O que verdadeiramente revelo não se compara a nenhum outro sentimento já sentido, já experimentado. Uma providência se justifica: as intenções são sagradas!

As bonitezas de ser mãe são como um jardim florido, onde as conjugações sentimentais despertam propósitos divinos. Não há surpresas quando o coração anseia, quando a emoção pulsa em certezas e a ancestralidade presenteia.

A semente do amor brotou!

Em meu útero de mulher preta, vingou.

Meu ventre é solo livre. Nele, uma semente consciente se movimenta, regada pela minha essência. Germinou!

E a descendência, com liberdade, chegou.

A esperança é quilombola: fruto saudável da resistência, alimentada pela memória, pela ancestralidade e pela coragem de existir. Cresce para protagonizar novas trajetórias, abrir caminhos e escrever outras páginas de vitórias na história.

Sou mãe quilombola.
Meu ventre é território.
Minha maternidade é ancestralidade.
Minha descendência é continuidade.
E a semente que germinou em mim carrega a liberdade de florescer. Eli Odara Theodoro

Filho, não dá para falar desse ser singular sem lembrar de luta, insistência e resiliência. Sua história envolve tantos episódios, tantos capítulos, tantos contextos da natureza humana. Há coisas que se podem ver, outras que se podem acessar, mas há também aquelas que só se revelam quando se olha para além da superfície.

E eu me pergunto: onde você bebeu essas goladas de força e resistência que fizeram de você esse sol? De onde vem essa luz que ilumina o seu avesso e escapa pelos seus poros, mesmo quando a vida insiste em testar sua força?

Talvez seja justamente aí que esteja a sua maior virtude: na humanidade que você carrega. E talvez a sua grandeza esteja nessa espécie de santidade que não se anuncia, não se veste de perfeição, simplesmente existe.
Você é luz porque, mesmo atravessando sombras, não deixou de iluminar.

Sou mulher preta e quilombola.
Sou filha do axé, das águas que curam.
Sou herdeira das mulheres que rezavam, dançavam e libertavam o mundo com as mãos e o coração. Em mim, o tambor fala, o vento responde e o fogo me guia. Trago no corpo as marcas da luta e da bênção. Cada cicatriz é memória, cada gesto é herança. Eli Odara Theodoro

A REPRESA QUE VAZOU!

Estava fazendo a leitura de um certo texto quando me lembrei das represas encontradas ao longo da minha trajetória, e das muitas vezes em que precisei ser musgo.
Algumas vezes, também tive, estrategicamente, de ser planta: aguardar o momento certo para vazar-me, criar passagem e, com coragem e resiliência, deixar minhas ideias florescerem na natureza que eu mesma criei, nos espaços que conquistei.
Foi o vento, companheiro condutor, contribuiu: soprou o aroma das minhas sementes, carregando a essência do essencial , a força vital de quem insiste.
Carrego comigo a natureza ancestral, eu sou a vida que pulsa, que insiste, que pede passagem.
Porque eu sou a própria arte. Eli Odara Theodoro

Estar no teatro é viver uma das experiências mais espetaculares que podemos nos permitir. Ali, o corpo inteiro fala. Cada gesto, cada respiração, cada silêncio compõe uma orquestra viva, onde a liberdade ecoa em movimento e a alma encontra voz...

No teatro, o corpo torna-se palavra. Cada músculo, um instrumento; cada gesto, uma nota. Somos uma orquestra de corpos, ecoando liberdade, memória e humanidade em cada cena...

Nobreza Ancestral

Minha carne é a roupagem da essência ancestral.
Minha cor é armadura: enfrenta as violências sem renunciar à ternura.
Na pele trago a memória dos que resistiram,
e no espírito, a força dos que jamais se curvaram.

Quem valoriza a força ancestral da resistência
traz na essência a nobreza dos seus ancestrais.
Porque a verdadeira nobreza não se herda de coroas,
mas das raízes que sustentam a dignidade,
da memória que floresce em liberdade
e da coragem de permanecer.

Sou fruto da ancestralidade.
Sou presença.
Sou resistência.
Sou nobreza.

Eli Odara Theodoro

Quem valoriza a força ancestral da resistência
traz na essência a nobreza dos seus ancestrais.

Eli Odara Theodoro

Quem honra a força ancestral da resistência
carrega na essência a nobreza dos seus ancestrais.
A verdadeira nobreza não nasce do privilégio,
mas da memória preservada,
da dignidade cultivada
e da resistência que atravessa gerações.

Eli Odara Theodoro

Minha carne veste a essência dos meus ancestrais.
Minha cor é armadura forjada na travessia dos tempos: alvo da violência, mas também instrumento de enfrentamento.
Carrego na pele a memória de quem nunca se rendeu.
Porque preta não é ausência de cor; preta é presença, é nobreza, é raiz, é resistência.

Eli Odara Theodoro

Minha carne é a roupagem da essência ancestral.
Minha cor é armadura: atrai a violência, mas também a enfrenta.
Sou preta.
E preta é cor de nobreza, de memória, de luta e de permanência.
Preta é a cor da resistência.

Eli Odara Theodoro

EU & VOCÊ!

Sintetizando nosso laço

Somos a expressão poética da afabilidade.

Fazemos parte daquele grupo de pessoas que colore o mundo com bons sentimentos, levando a tudo o que nos cerca os matizes da felicidade. Despimo-nos da materialidade e, sem pudor, convidamos a alma para dançar.

Às vezes, mesmo diante dos poderosos argumentos da razão, a voz se cala, rendida aos apelos silenciosos dessa cumplicidade. Nosso olhar encontra o outro e se afina no envolvimento, numa linguagem feita de silêncio, conexão e entendimento.

Estamos vinculados pela inércia dos encantados. Permanecemos calados, enquanto sentimos acordes melodiosos e cifras mágicas despertarem a emoção. É a magia do amor, dedilhando suavemente sua canção em nossos corações.

Eli Odara Theodoro

CONFIDÊNCIAS

Meu sol, quando me toca, acaricia-me e deixa um rastro de queimor.

Meu corpo estremece diante da proximidade desse calor. A temperatura se altera, transbordo, e me entrego como uma flor que desperta sob o orvalho da manhã. Ele sorve as ardentes consequências dessas delicadas carícias, vaporizando, com a naturalidade de quem conhece o próprio caminho, tudo aquilo que despertou.

Seu toque alcança minha intimidade, rasga minhas reservas, dissolve minha privacidade. Faz-me cativa de um delírio sereno, entregue ao abandono consentido, enquanto meu corpo, rendido, prazerosamente se derrama.

O futuro, porém, é vago.

É barco à deriva, esperando as ondas do mar e a cumplicidade dos ventos, que o empurram para cá e para lá. Nesse constante movimento, habitam possibilidades infinitas. Sonhamos com a certeza de que amanhã pisaremos em terra firme e que tudo mudará. Mas o mar da vida também sabe inundar, desfazer as fortalezas construídas e devolver-nos à solidão do alto-mar.

Nada nos é dado prever.

Ainda assim, podemos desfrutar do percurso, recolhendo as maiores grandezas nas concessões da Mãe Natureza, que nos ensina, silenciosamente, a arte de amar.

Resta, então, apenas um desejo:

Que a vida nos reserve um sol para iluminar nossos caminhos e um mar sereno, onde possamos navegar sem temer as tempestades, sabendo que, mesmo quando elas vierem, haverá sempre um horizonte esperando por nós.

Eli Odara Theodoro

Sou uma semente lançada no Brasil.
Aqui floresci em tronco, folhas e frutos,
mas minhas raízes nunca deixaram de dialogar com a terra de meus ancestrais.

É nelas que encontro a memória, a oralidade e os saberes
que me ensinam a existir em confluência.
Porque quem conhece suas raízes
não apenas resiste:
gera novos frutos sem romper com a origem.

A criança se reconhece, se vê possível, bonita e digna de afeto, sem precisar negar sua identidade.
Toda criança precisa encontrar referencias, na primeira infância, uma referência de cabelo igual ao seu é fundamental para a construção de sua autoestima. Principalmente quando, no contexto em que vive, está inserida, quase nada fala sobre ela, sobre sua beleza, preta, sua identidade ou sua valorização.
Ela precisa compreender, desde cedo, que não precisa se tornar parecida com quem não é igual a ela para ser aceita. Ela também é bonita. Ela também merece existir plenamente, com suas características de menina preta.
Por isso, apresentar referências que a representem, brinquedos parecidos com ela, pessoas parecidas com ela, histórias que dialoguem com sua identidade, é uma forma de afirmar sua existência, sem negá-la.
Mesmo quando o mundo ao redor insiste em invisibilizá-la, reconhecer sua imagem, seu cabelo, seus traços e sua cultura, é um ato de cuidado, pertencimento e resistência.
Modificar essa criança para adequá-la a um padrão imposto por uma estrutura racista , preconceituosa é ensinar, silenciosamente, que quem ela é, não basta. E isso também é uma forma de violência, preconceito vivido desde cedo.
Crianças negras precisam ser amadas como são. Aceitas como são. Porque quando tudo ao redor diz que elas não podem ser quem são, crescem acreditando que precisam se fragmentar para serem acolhidas.
E uma criança que aprende a negar a si mesma dificilmente consegue crescer inteira.

O ARCO-ÍRIS DAS ORIGENS

Viemos de pontos distintos,
de lugares onde o vento conta histórias antigas,
de caminhos que não se cruzavam,
mas que, de algum modo, se reconheceram.

Viemos de experiências diferentes,
tecidos por mãos invisíveis
que bordaram nossas dores,
nossos medos,
nossos começos e recomeços.

Cada um de nós carrega um mundo inteiro:
há quem traga um sol rompendo madrugadas,
há quem traga uma lua conversando com cicatrizes,
há quem caminhe em silêncio
enquanto por dentro troveja.

Crescemos ouvindo o chamado do medo:
“não faça”,
“não seja”,
“não apareça demais”.
Como se viver fosse caber em caixas pequenas,
como se o julgamento fosse guardião da ordem,
como se a beleza só existisse
quando todos escolhem a mesma forma de florescer.

Aprendemos, cedo demais,
que o olhar do outro pesa.
Pesa nos cabelos que decidimos deixar livres,
na cor que nos veste,
na fala que nos escapa,
na lágrima que não escondemos.
E, sem notar, nos tornamos carrascos de nós mesmos
e do mundo ao redor.

Mas algo muda quando a consciência desperta.
Quando entendemos que a vida não é régua,
que existência não é molde,
que ninguém foi criado para repetir o mesmo desenho.

Algo muda quando abrimos espaço para o outro,
quando silenciamos o impulso de julgar,
quando percebemos que não somos
os guardiões da verdade.
Somos, no máximo,
aprendizes da convivência.

Viemos de geografias afetivas distantes,
mas é da distância que nasce a ponte,
e da ponte nasce o encontro.

E no encontro,
somos mais.

Somos luzes acesas em direções diversas,
mas que, quando colocadas lado a lado,
revelam um arco-íris que jamais surgiria sozinho.
Cada tom vem de uma história,
cada brilho vem de uma luta,
cada sombra vem de um passado
que também merece ser lembrado.

E é assim que entendemos,
finalmente,
que nenhuma vida se sustenta só.
Que completude é obra coletiva.
Que a beleza maior do mundo
é justamente não sermos iguais.

Somos pluralidade viva,
cores que dançam,
vozes que se entrelaçam,
alma que reconhece alma.

E quando deixamos o julgamento cair ao chão,
quando estendemos a mão sem exigir moldes,
quando acolhemos o diverso
sem temer sua força,
uma luz maior nasce
uma luz feita de todas as partes,
de todas as dores,
de todas as conquistas.

Essa luz nos lembra
que existir é multiplicar,
que amar é permitir,
que respeitar é honrar a diferença.

Viemos de pontos distintos, sim,
mas caminhamos para o mesmo horizonte:
um mundo onde cada pessoa
pode ser exatamente o que nasceu para ser.

E nesse horizonte,
feito de múltiplas estrelas,
ninguém brilha sozinho
todos nós iluminamos juntos.
Eli Odara Theodoro

Envelhecer é saber

Envelhecer é saber,
ou será que o saber está no envelhecer?
O tempo, esse velho companheiro,
não passa ele fica,
fica em mim, nas dobras da pele,
nos fios de prata que o sol insiste em acender.

Uma vida de experiências,
ou foi um experimento viver?
Entre escolhas e silêncios,
entre quedas e renascimentos,
aprendi que o corpo é casa,
é território sagrado onde o tempo planta sabedoria.

Tudo que diz respeito ao meu viver
está guardado aqui,
neste corpo que carrega histórias,
memórias e marcas ancestrais.
Sou feita de caminhos trilhados por outras,
das que vieram antes,
das que sonharam liberdade
quando o mundo lhes negava o direito de sonhar.

Minhas rugas são mapas,
meus olhos, rios antigos,
minhas mãos, conchas de lembranças
que o tempo não leva , só transforma.

O envelhecer é rito, é canto, é retorno.
É o corpo se fazendo reza,
é a vida me ensinando a ser raiz
enquanto continuo flor.

E quando o espelho me chama pelo nome,
sorrio
porque sei que não envelheço sozinha:
trago comigo cada mulher,
cada ancestral,
cada memória que fez de mim
o que sou agora.

Envelhecer é saber.
E saber… é continuar viva.

LUTA QUILOMBOLA É RESISTÊNCIA!



E, se você não sabe pelo que está lutando,

seu esforço se perde no vento.



Lutar não é vaidade,

não é brilho de palco,

não é o instante do aplauso.



Lutar é raiz.

É saber o porquê e o para quem.

É compreender que cada passo que damos

carrega o peso e a bênção

dos que vieram antes.



Uma causa, uma meta,

não vivem de holofotes.

Vivem de fundamento,

de chão,

de respeito.



Respeito à continuidade,

à força que pulsa em cada memória,

à razão que nasce do sentimento

de resistência.



Seguimos, porque eles seguiram.

E porque seguir é a forma mais bonita

de agradecer aos que nos antecederam.

AMADA, EU SOU PRETA!





Ainda outro dia…

Uma pessoa me perguntou:



— Eli, onde ficam escondidos esses pretos e pretas tão bonitos (de ver, claro — mas eu não me vestiria assim, nem colocaria meu cabelo desse jeito!) que desfilam no Ilê Aiyê?

Não os vejo no nosso dia a dia!



Respondi:

— Estão aí, amada, no seu pré-conceito.

É nele que se escondem os pretos que você não vê.

Precisa rever seus conceitos, só então os verá.



Os pretos estão nas ruas da sua cidade natal,

que transpira ancestralidade africana,

mas você não reconhece.

Eles estão no reflexo do seu espelho,

porque se não conhece sua história,

não sabe quem é.



Estão na forma como você me olha

porque entre “amigos” o preconceito é disfarçado,

mas a verdade sempre escapa.



Os pretos estão nas crianças que brincam na rua,

(os “pivetes” do seu bairro periférico);

nos homens que chegam cansados do trabalho

(os “peões”, “marmiteiros”);

nas mulheres que fazem milagre no mercado

(a guerreira que compra o que dá, com o pouco que tem);

nas mães solo e seus filhos

(os “moleques” que o mundo já julga).



Estão nos jovens da periferia, mortos a todo instante

trabalhando ou não, sempre rotulados como marginais.

Nos moradores de rua, sem assistência, sem resistência.

Nos trabalhadores, explorados pelo capital.

Nos estudantes que enfrentam um sistema educacional desigual,

lutando pelo direito de aprender

e pela reparação que vem em forma de cotas.



Estão também nos empresários e nos esportistas

que abriram brechas nas muralhas do racismo,

que resistem e existem.



Somos todos nós, brasileiros e brasileiras

nascidos dessa diáspora afrodescendente.

Mas muitos ainda escolhem negar,

se escondendo atrás de conceitos limitados,

sem consciência da própria história,

sem saber quem são.



Hoje, essa pessoa me evita…

Mas eu sigo.



Pretamente.

Felizmente.

No meu caminho de preta.

UM LIVRO!

Nas páginas da minha vida há todo tipo de semente.
Aprendi a regar aquelas que brotam ideias, permitindo que colham a minha humanidade
não para tomá-la, mas para acessá-la, num gesto de partilha e presença.

Carrego em mim as estações,
o tempo que ensina, o silêncio que amadurece.
Nem toda semente floresce,
mas toda tentativa me ensina a permanecer com raiz e propósito.

Sou feita de histórias que se cruzam,
de memórias que dançam no vento e me lembram de onde vim.
Regar é também lembrar:
lembrar que a terra só devolve o que nela é colocado com amor.

E assim sigo, sem pressa,
acolhendo cada broto como um recomeço,
deixando que a vida escreva, em mim,
o livro da partilha e da ancestralidade.

E quando o sol repousa sobre o que plantei,
vejo que nenhuma caminhada foi em vão.
Cada passo, cada dor e cada flor
me ensinaram a transformar o tempo em sabedoria.

Sigo acreditando nas sementes que ainda não brotaram,
porque sei que há sonhos germinando no escuro,
esperando o momento certo para nascer.

E é isso, sou parte da terra e do céu,
da memória e do agora
uma ponte entre o que fui e o que ainda serei.
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