Coleção pessoal de eli_odara_theodoro_1

21 - 40 do total de 26 pensamentos na coleção de eli_odara_theodoro_1

Mulher preta não está só. Há um quilombo inteiro ancestral em cada passo da trajetória. Há um mar inteiro em cada sonho que se mantem vivo.

MONÓLOGO

“Eu Sou Tereza, Eu Sou Quilombo

Por Eli Odara Theodoro
(Para o Julho das Pretas)

:
Axé…
Axé, minhas irmãs!
Eu cheguei.


Julho chegou.
E com ele, eu me levanto.
Não sozinha — nunca sozinha.
Me levanto com Tereza.
Sim, Tereza de Benguela…
Mulher preta, mulher quilombola, mulher rainha.
Liderança. Inteligência. Força política e amor pelo povo.

No século XVIII, quando mataram seu companheiro,
ela não fugiu.
Ela ficou.
Assumiu o Quilombo do Quariterê.
Criou um governo, um parlamento, uma resistência com nome de liberdade.

Ela sabia…
Que resistir era também amar.
Que ser preta, mulher e viva
já era um ato revolucionário.

E eu…
Sou continuidade de Tereza.
Sou Eli Odara Theodoro .
Mulher preta. Quilombola.
Mãe. Viúva. Educadora.
Filha da terra e dos tambores.
Minha pele carrega o barro da luta,
minha voz carrega as palavras que tentaram calar.


Como diz Beatriz Nascimento:
“O quilombo é um lugar de liberdade possível.”

E eu sou esse lugar.
Meus passos são quilombo.
Minha fala é quilombo.
Minha sala de aula, meu terreiro, meus textos, minha lida — tudo é território de reexistência.

Sueli Carneiro grita comigo contra o apagamento.
Lélia Gonzalez me lembra que o mundo é racista e tenta nos empurrar pra margem.
Mas nós somos centro!
Centro da cura, do cuidado, da criação.



Conceição Evaristo sussurra aqui dentro:
“Escrevivência…”
E é isso que faço.
Eu escrevo com o corpo.
Escrevo com as dores e alegrias que a vida preta me deu.


IBGE diz: somos 28 milhões de mulheres negras no Brasil.
Mas isso é só número.
Nós somos mais!
Somos as que levantam antes do sol.
As que dançam pra Oxum e marcham contra o racismo.
Somos as que cuidam dos filhos dos outros enquanto sonham com futuro pros seus.


Djamila Ribeiro me lembra:
“Nosso lugar de fala não é favor.”
É luta.
É direito.

Nilma Lino Gomes grita comigo:
Educação quilombola é território de sabedoria viva!
Não tem sala de aula mais forte que o chão de nossas comunidades quilombolas.

E como diz bell hooks:
Amar também é ato político.
Eu escolho amar quem sou.
Escolho amar os meus.
Escolho amar as mulheres que vieram antes,
e aquelas que ainda virão.


Hoje…
Eu não só homenageio Tereza.
Eu a convoco.
Tereza está em mim.
Tereza está em nós.

Porque, como diz Conceição Evaristo:
“Nossos passos vêm de longe.”

E eu completo:
Vêm de longe…
E seguem firmes.
De cabeça erguida.
Pés fincados na terra.
E o coração batendo no ritmo da ancestralidade.


Axé, Tereza!
Axé, Mulheres Negras!
Axé, Julho das Pretas!

EU SOU A CONSCIÊNCIA PRETA RESILIENTE

No dia vinte de novembro, eu reflito a minha própria travessia. A jornada de uma mulher preta, de identidade quilombola, corpo-território que fez da formação uma ferramenta potente de luta.
Penso nos caminhos que trilhei, caminhos marcados por enfrentamentos, muitas vezes solitários, onde resistir era a única forma de seguir viva. Onde cada barreira erguida pela estrutura racista exigiu de mim esforço desigual, preparo, coragem, competência…
Mas nunca houve uma mão estendida, nunca houve um atalho. Eu tive que romper sozinha os bloqueios que queriam impedir minha passagem. E, nessa travessia, sempre a mesma contradição: de um lado, uma estrutura inteira dizendo que eu não deveria avançar; do outro, vozes repetindo que eu era forte demais para cair, forte demais para parar, forte demais para sentir.
A verdade é que, muitas vezes, minha humanidade foi sacrificada para que eu pudesse sobreviver. Ainda assim, nos momentos mais duros , quando a dor era insuportável e quase me desviou de mim foi a ancestralidade que me tomou pelos braços. Foi ela quem me restaurou, quem me recolheu do chão, quem me envolveu em cuidado e me lembrou quem eu sou. Foi ela quem me empurrou de volta para a vida, com afeto, para que eu continuasse não apenas reexistindo, mas existindo com dignidade.
E é assim , em nome dos que vieram antes e vingaram, e, sobretudo, pelos que estão chegando que eu sigo. Porque minha consciência, escrita em resistência. E resistência, em mim, é sempre caminho.

O ATABAQUE

O toque do atabaque ensina,

e cada batida é memória que pulsa.

Educação quilombola é voz que não cala,

é roda que fortalece identidades,

ancestralidade que caminha viva

nos passos de quem aprende e de quem ensina.



Não é ensino que apaga,

mas fogo que resiste.

É legado que ecoa na terra,

na palavra, no gesto, no som.

Educar aqui é sobreviver,

é florescer no ontem e no amanhã.

Isso é Ubuntu.”

A Pedagogia do Mito

O mito não mente,
ele ensina em silêncio,
na dança da palavra
que atravessa o tempo.

É raiz que fala,
voz que ecoa no tambor,
sabedoria que veste o corpo
com memórias de cor.

No mito, não há distância,
há presença que guia,
é lição que não se fecha
na página fria.

É saber do fogo,
da água, do vento, do chão,
um livro aberto no céu,
um aprendizado em canção.

Pedagogia do mito
é roda que nunca se encerra,
é criança aprendendo com a lua,
é ancião dialogando com a terra.

Na boca que conta,
na escuta que floresce,
a vida se torna escola,
e o mito, mestre que tece.

⁠"Existe aquele Lugar Que Insisto, Mas Que Não Me Guarda" por Eli Odara Theodoro (com as mãos da vida e a escuta do tempo) Eu quis ficar. De verdade. Plantei afeto, pendurei sonhos nas janelas, acendi luzes onde antes era sombra.Mas o chão ficou escorregadio, as portas rangiam sozinhas, e até o silêncio começou a me empurrar pra fora. O que antes era abrigo, virou desconforto. E o que antes me chamava de volta, hoje responde com ausência. Talvez não seja rejeição. Talvez seja proteção. Talvez seja o universo, com sua delicada firmeza, dizendo: "vai.
Você cresceu, e esse vaso ficou pequeno." E difícil aceitar que o querer da alma às vezes não cabe no querer da vida. Mas eu escuto. Com os olhos cheios e o peito aberto. Se for preciso ir, que eu vá inteira, mesmo partindo. Porque onde não me guardam com verdade, eu não posso me perder por insistência. "