Coleção pessoal de demetriosena

1761 - 1780 do total de 2394 pensamentos na coleção de demetriosena

SONHO DE AMOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Essa lua já foi o nosso lustre;
seus luares banharam nossos olhos,
deram luz às promessas hoje turvas
entre as curvas incertas da saudade...
Muitas noites teceram fantasias
das mais belas verdades provisórias;
uma colcha de sonhos momentâneos
numa história com tons de para sempre...
Foram tantas as nossas madrugadas
de suave cansaço e rendição
à canção de ninar da natureza...
Fomos raios de sol; de renascença;
uma crença ilusória no amanhã
que já veio embalado pra ser ontem...

FACES DO PERDÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Perdoar é um exercício de grandeza. Pedir perdão, um exercício de humildade.

PIOR INIMIGO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Será fácil vencer
quem vejo à frente,
se não dou de frente comigo.

AMOR TRANCADO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O silêncio se rende aos teus passos lá fora;
eu me atenho às caladas desta sala escura;
fantasio, desejo, percebo de ouvidos,
que vieste segura, e porcerto estás bem...
Quero abrir essa porta para o corredor
e mirar o teu porte, fazer gentileza,
ver a cor do vestido com que foste hoje,
mas me vem a certeza de não ser prudente...
É preciso estancar este quase rompante,
pra manter meu instante, meu culto secreto
e sonhar com a chance que jamais terei...
Logo escuto ruídos da chave que fecha
tua porta pra minha, teu mundo pro meu;
o museu de miragens deste coração...

ANTI-AJUDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Depois de muito viver, sem dar a vida ou morrer por coisas que não valem meu sangue, porque são coisas, crio e sanciono minha lei: não. Não "posso, quero e faço". Nesta nem em outra ordem. Quero e tento, exatamente nesta ordem, como tantos querem e tentam o que nunca está para todos. É, mas não está.
E acho que não vencerá o melhor. Vencerá o semelhante que naquele contexto for agraciado com as condições mais favoráveis; o que inclui preparo, desempenho, ajuda externa velada ou ostensiva, pequenos ou grandes detalhes que podem ser entendidos como sorte ou providência sobrenatural. Certamente a vitória seria de outro alguém, se o contexto fosse outro e todo esse conjunto desconstruísse, para depois reconstruir a posição de seus elementos.
Não saio de casa todos os dias, para ir à luta, e sim, aos projetos ou estudos, e ao trabalho. Vou à busca, ou à procura, sem aquela certeza dos campeões em potencial. Dos que sabem que um dia chegarão "lá", como não sei nem quero saber. Só quero ir. Mesmo que nunca chegue. O passado e o presente seguem ao meu alcance, mas o futuro não. O futuro está no futuro.
Realiza-me, ser um semelhante. Não fazer a diferença. Tão apenas manter a semelhança e contribuir para um mundo igualitário. Pelo menos no meu caso, viver não é um esporte. Nem uma guerra. No que tange a vida em um todo, pódio tem uma rima que me desagrada.

MISTÉRIO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A doença incurável de quem pode morrer a qualquer momento em razão da mesma ou ter vida longa sem grandes dores nem sequelas, não parece doença. Uma pessoa inteiramente sã tem suas dores normais e também pode morrer em noventa anos ou a qualquer momento, por uma bala perdida, um choque ou até um armário que resolva cair do sexto andar de um prédio.

CULTURA, LUXO & LIXO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se o lixo cultural me desagrada, o luxo também. Sou apegado à cultura genuína; essencial. À ausência de aparatos ou embalagens que não acrescentam valores; apenas ostentam, fazem volumes, enchem os olhos, mas não a alma. É do luxo cultural que sobram montanhas e montanhas de resíduos inúteis; rejeitos que atraem parasitas e roedores humanos nocivos às artes e à literatura. O lixo cultural é o derrame não reciclável do luxo cultural.

VAIDADE HUMANA

Falta mundo pro mundo que se multiplica;
não há vida o bastante pra vida em redor;
nada fica do sonho espremido no caos
dessa dor de aprender que não se sabe nada...
Todo mundo se julga o próprio mundo à parte,
quer viver para sempre, finge saber como,
é um gomo que tenta ser imposto ao todo,
ser o todo e ter tudo sobre tudo mais...
Cada dia se perde no tempo a ganhar
onde o tempo é tesouro que o chão oxida;
logo a vida se olha de frente pra morte...
Nossas mãos vivem postas além do sensato,
nossos pés estão longe das velhas respostas
que jamais compraremos por valores táteis...

RODA-MORTA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Muita gente não veio ao mundo para ser gente. Não em essência. Uma gente urgente, marcada para correr. Para nunca saber que o presente é tempo, e que o passado é uma escola da qual não devemos abrir mão, por mais que a vida nos leve avante. Ele nos orienta pro futuro, e revela que o mesmo estará sempre lá, quer corramos ou não.
Gente que vive para ter o que os olhos não alcançam nem os anos de vida justificam. Faz filhos que os outros criarão, e com isso, gera crias do acaso e das babás. Crias que herdarão muitos bens e serão marcadas para correr, chegar na frente, vencer o próximo, e depois sentir que lhes falta o maior bem. O bem-querer.
Esses filhos também terão seus filhos, e nas horas urgentes, dirão que "Deus proverá", como forma de justificativa... como sustentáculo e manutenção da roda-viva de gente que não vive... que transforma tudo que tem numa eterna isca para ter mais. Essa gente não é. Apenas está. Distorce o dom de viver... e troca o ser pelo ter.

TEMPO É VIDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tenho tempo de olhar a manhã renascente,
receber dose a dose dos raios de sol,
pra depois ir em frente; mastigar meu dia
e fechar com a lua que seduz meu céu...
Não importa que as nuvens ponham pano em tudo;
nada pode apagar o que tal pano filtra,
nem deter o meu tempo de saber que o mundo
lá no fundo é tão raso que posso tocar...
Sempre tive um momento pra lembrar de alguém,
uma tenra saudade pra sentir sem dor,
um amor do tamanho de minha verdade...
Não me nego a ter tempo e confessar meu ócio,
ser humano que às vezes menospreza ofício,
pra início; pra meio; pra fim de conversa...

DEUSA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

É caiçara, moleca, um tanto gabriela,
porém ela; bem ela; inteirinha quem é;
tem o cravo, a pimenta, o cominho, a canela
e também a garapa; o leite com café...

Traz a brisa do campo, a dança da maré,
um olhar de horizonte no vão da janela;
framboesa nos lábios, na voz um rapé
que me dopa e domina pra sonhar com ela...

É perigo iminente; chave de cadeia;
alçapão, arapuca, laço, visgo e teia;
natureza completa em desalinho insano...

Deusa, musa, mulher, menina dadivosa,
conto, fábula, sonho, saga em verso e prosa;
eu apenas um homem; mero ser humano...

BAIXADA FLUMINENSE

Demétrio Sena, Magé - RJ.


É na baixada fluminense que os extremos se encontram. Inferno e céu. Às vezes, inferno é céu. Outras, céu é inferno. Por isto somos um povo que sabe andar na corda bamba. Viver no limite. Dançar conforme a música. Um povo de clichês ou saberes levados ao pé da letra porque a vida, no caso específico, a nossa, exige.
Como temos áreas de risco e de sossego, temos dias sossegados em áreas de risco, e dias arriscados em áreas de sossego. O poder público nem percebe a diferença, porque despreza a baixada fluminense. Gosta de mandar, mais do que propriamente legislar ou governar, pois é bom negócio, mas despreza. Evidentemente, sem desprezar os resultados materiais de seus cargos.
De risco ou sossego, em todas as áreas da baixada fluminense há gente viva. As ruas fervilham, as casas comerciais vendem, as pessoas conversam nas esquinas. Umas riem, outras choram. Pobres e ricos têm a mesma cara, níveis culturais parecidos, e o preconceito que se tem é cada um de si mesmo, como se fosse do outro. Olhos nos olhos, eis o nosso espelho e as reservas que trazemos dentro de nós.
Do céu para o inferno e vice-versa, é o nosso vai e vem casa-trabalho, trabalho-casa. Casa-escola, escola-casa. Vida-morte, morte-vida. Nós próprios nos governamos, representamos, e às vezes até fazemos nossa justiça, mas ainda assim elegemos os que fingem cuidar de tudo isso, porque a lei, que nunca está do nosso lado, reza que devemos fazê-lo, e nós, diferentemente, sempre estamos ao lado da lei.
Se vivemos, é porque nossa vida se multiplica, depois de todas as mortes às quais somos expostos. Se temos esperança é porque ela, sendo a última que morre, tem o dever de nos esperar depois de cada baque. Somos corporativistas anônimos. Amigos ocultos. Inimigos-amigos quando “o bicho pega”.
Na baixada fluminense todos somos um. O todo se condensa mais e mais, para ser escudo. Nosso orgulho se perde por orgulho, na solidariedade. Somos a baixada geográfica, em alta na autoestima, mesmo quando parece não haver motivo. Se nas demais bandas cada um se oculta em paredes de cristal, o povo da baixada se expõe, se encontra, se arrisca e risca os traços do destino sonhado.
Temos força, porque temos o hábito da obrigação de ter. Trazemos nos ombros o peso do oceano, e sobrevivemos aos tubarões que fingem ser daqui, por interesses políticos e financeiros. Sendo baixada fluminense, vivemos abaixo do nível do mar, mas a onda não nos leva... nem morremos afogados.

PALAVRA FÉRTIL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Fala branda e pausada chega e pousa;
logo adentra os ouvidos desarmados;
ousa mais, vai mais fundo e se aconchega
onde o chão dos sentidos é mais fértil...
Grito, não; grito é fala de festim;
chega e sai sem cumprir o bom papel;
rouba o sim, mas o sim é negativo;
é artigo ilegítimo e não dura...
Os arroubos nos tiram de quem somos,
nossos pomos forjados apodrecem
sobre galhos doentes; ressequidos...
A palavra que chove de mansinho,
tece ninho; põe ovos; dá ninhada;
tem raiz; alicerce; consistência...

TRIBUNAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Consciência serena.
Coração compassado...
de quem não mente.
Nunca fui governante;
vereador; deputado...
sou inocente.

MISSÃO DE AMOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Para Nathalia e Júlia

Se não tenho a certeza de lhes ter por perto,
não há nada em redor que desperte sentido;
nem existe lugar que não seja deserto;
cada passo é sem norte; meu tempo é perdido...

Faço à vida somente o mais simples pedido;
meu amor nunca falte no momento certo;
saiba como soldar um coração partido,
ser alívio na dor do ferimento aberto...

Quero ter esse dom de me doar sem fim;
ao olhar nos seus olhos olhando pra mim,
ver a paz que sustenta seu porto seguro...

Saberei respeitar quando abrirem sozinhas
suas asas vistosas, libertas das minhas,
e lhes dar de presente a rota pro futuro...

A EDUCAÇÃO PELA ÉTICA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ensinar um filho a não fazer pirraça porque se fizer, não ganhará bicicleta, boneca ou seja lá o que for, é criar um sonso. Um adulto interesseiro, que não saberá respeitar as pessoas de quem não espere algo. Da mesma forma, cria-se um mentiroso enrustido, ensinando ao filho que se não deve mentir porque "a mentira tem pernas curtas". Mais tarde, ao perceber que a mentira pode criar asas, ele mentirá.
Quem só não comete crimes porque pode ser descoberto e preso, é um criminoso em potencial. E quem não peca por ser um religioso, porque "Deus está vendo" e pode "pesar a mão" sobre ele, não é uma pessoa confiável. A ocasião propícia ou pelo menos a chance de uma boa justificativa revelará o caráter dessa pessoa. Ela só precisa mesmo encontrar um meio seguro de "passar a perna" em "Deus" e na sociedade.
A lei, seja ela humana ou sobrenatural, quiçá divina, não forma o cidadão consciente. A ética, sim. Se criarmos os nossos filhos, educarmos nossos alunos ou doutrinarmos nossos liderados para o cumprimento livre, natural e consciente de seus deveres humanos, sociais e quaisquer outros, aí sim: teremos o mundo com que os homens e mulheres de boa vontade sempre sonharam.

VÍCIO DO TEU VÍCIO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Já me cansa te olhar e só ver sombras,
procurar o teu rosto e me perder
nos escombros de alguém que nunca está;
ou está, mas no fundo nunca é...
Piso em falso nas órbitas do amor
que não sabe trazer felicidade,
cuja flor não supera seus espinhos
nem se livra das grades do pesar...
Vencerei o teu vício de sofrer,
deixarei o meu vício desse vício,
passarei a viver, pois estou vivo...
Eu me canso da espécie de ninguém
sob alguém que me aluga mas não mora;
não me ocupa nem quer desabitar...

COLETIVA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Uns respondem
entre dentes,
poucas pistas,
o que muitos
interrogam
entre vistas...

ANTIMITO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

É muito fácil me achar;
meu quatro é dois vezes dois;
meu já não demora...
E caso queira ligar,
eu não retorno depois;
atendo na hora...
Serei de acesso irrestrito,
se quem vier for sincero
e trouxer carinho...
Fui sempre humano antimito;
apenas quero ou não quero;
sou flor ou espinho...

BEM VIVIDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Nada mais do que a vida condizente ao pulso;
que o teatro restrito aos limites do pano;
ser humano em essência, fachada e contexto,
sob todo esse nada que revolve o ser...
Quero apenas meu tempo, nem um passo a mais,
meu espaço, meu dom, minha justa energia,
cada dia cravado entre as horas que tem
para o mundo ser mundo e seguir sua rota...
Sem espaço e pretexto com que rompa o vento,
livramento que adie o que será no fim
ou me livre do livro; a precisão da história...
Quando eu for só me digam que seja bem-ido;
sou alguém bem vivido e não será direito
ser um rio que tenta não seguir pro mar...