Coleção pessoal de demetriosena

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RENDIÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

És bem-vinda, não posso mais fugir,
já me achei nos conflitos do meu ser,
quero ser teu menino bem mimado
e morar no teu colo; tua entranha...
Podes vir, o meu corpo me agasalha
pra que tenhas calor na minha essência,
minha malha estendida se oferece
numa pesca de sonhos em comum...
Sempre quis esse afeto, esse aconchego,
teu apego, essa chama persistente
que venceu a frieza exposta em mim...
Tive medo de amar, mas podes vir,
há um sim sobre todos os meus nãos,
tenho vãos que te vestem desde já...

ÚTERO SECUNDÁRIO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Teço minhas versões dissimuladas,
porque temo saltar no teu escuro,
e me deixo comer pelas beiradas
da promessa longínqua do futuro...

Este sonho me guarda sobre o muro;
faz calar minha carne chamuscada;
um empréstimo a juro sobre juro,
que no fundo me faço para nada...

De repente me devo nem sei quanto
e não posso pagar, cheguei a tanto,
pois o sonho contínuo virou vício...

Só preciso escapar da minha mão;
meu olhar vê a nódoa no colchão
e me faz entender o desperdício...

DNA LITERÁRIO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Nestes tempos em que parece que tudo já foi dito e feito, é bom tomarmos muito cuidado com as nossas ideias originalmente "geniais"... e até que se prove o contrário, originais. Como temos as facilidades da web, não custa nada pesquisarmos para saber se alguém já não teve as mesmas ideias.
Bem recentemente aconteceu comigo algo meio frustrante: compus um texto inicialmente "genial", na minha secreta opinião, pela suposta originalidade na construção vertiginosa do mesmo. Feliz da vida, mas responsável, decidi pesquisar. Não demorei a me surpreender com a constatação de que o texto, embora fosse original na escrita, ou na redação, tinha o mesmo engenho de um poema já famoso. Não houve plágio nem cópia, mas a construção de minha escrita fazia lembrar o poema famoso do qual estava esquecido havia tempo... mas habitava o meu inconsciente.
Ler ambos os textos era como ouvir as músicas Esqueça, de Roberto Carlos, e Pense em mim, gravada pela dupla sertaneja Leandro e Leonardo. Ou assistir ao clássico mundial O mágico de Oz e à minissérie brasileira Hoje é dia de Maria. À eterna escolinha do Chaves e a também eterna escolinha do Professor Raimundo. Cada qual com seu texto e construção; recursos universais. Sem cópias ou plágios; porém, todos bebendo em fontes parecidas. Pondo carnes diferentes em esqueletos semelhantes.
Pela consciência de não ter copiado nem cometido plágio, publiquei o texto. No entanto, me senti mal. Desconfortável. Não demorei a retirar. Devo desconstruí-lo, tirar da forma em comum, reconstruí-lo e criar um esqueleto próprio para suas carnes. Toda alma reclama um corpo seu. Somente seu.

ENQUANTO ESPERO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Há um beijo guardado em minha boca,
uma roupa largada no meu corpo,
para quando minh´alma o tiver nu
junto ao seu; à nudez de suas formas...
Entre pela janela dos meus olhos
e me assalte, o controle é todo seu,
para irmos ao céu das sensações
que só tenho comigo, enquanto espero...
Os meus poros reservam salsa e sal
que temperam a minha solidão
nesta nau ancorada em suas águas...
Tem um triste gemido este prazer
de sonhar e saber que só é sonho;
que me ponho pra mim em seu lugar...

MÁGOA SOBRE MÁGOA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ele andou com ímpetos de ligar para ela e perguntar se fez algo que a magoou. De repente, resolveu perguntar a si mesmo. Para tanto, mergulhou profundo nas lembranças recentes e viu que não. Não fez. Pelo menos não foi a sua intenção se algum gesto, alguma palavra ou até silêncio a magoou.
Se não fez intencionalmente seja lá o que for para magoá-la, mas o que fez magoou, foi algo bobo e com margem tanto para fazer pensar que sim, quanto para concluir que não. Algo incerto. Sendo assim, se ambos são tão amigos e confiam tanto um no outro, como sempre juraram, ela deveria tirar as dúvidas. Perguntar para ele. Não o fez, e isso ele não perdoa, pelo menos por enquanto não perdoar, como sempre fizeram ambos, em diferentes ocasiões.
Dentro em pouco, ela também desejará saber se ele está magoado. Se ela fez algo que o magoou. Fez. Depois das arestas aparadas, ela saberá que ele estava magoado por ela estar. Da mesma forma, deixará bem claro que além da mágoa original, teve mágoa da mágoa de sua mágoa por sabe-se lá o quê.

REETERNO AMOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A vida exige muito mais de você do que de mim. Vivemos em um mundo machista. Você amadureceu, constituiu família, fez filhos e não teve o direito de se manter menina para ninguém. Não seria diferente para mim. Liberdades divergem de gênero para gênero, mesmo na sociedade contemporânea, quando a mulher conquistou direitos, ganhou espaço, invadiu o mercado de trabalho. No entanto, ainda luta para ser simplesmente mulher. Não mulher objeto, mas aquela que pode ser quem é, para quem quiser, sem que isso deponha contra sua idoneidade.
Também amadureci, constituí família, fiz filhos, mas não paguei um preço tão alto. Exigi minha liberdade, mesmo com todos os compromissos e as convenções dos laços formais. Por essa liberdade unilateral bem própria do mundo machista, o que seria condenável no seu caso é admirável no meu. Pude guardar para você, aquele menino que a conduzia mundo afora, sem a mínima preocupação com o que fizesse pensar. Que a iniciou nas caminhadas noturnas, nos banhos em cachoeiras, na intimidade com a natureza e a nudez do corpo. Aquele menino acanhado para os outros, mas desinibido para você, e que ao seu lado convertia tudo em poesia.
Quando nos reencontramos, cheguei a pensar que poderíamos reviver o passado sem ferir o presente ou ameaçar o futuro. Você tentou, reconheço, e sei que no fundo, aquele amor ainda vive no seu íntimo. Vi em seus olhos o eco das palavras que o redeclararam para mim. Porém, não foi difícil perceber que o reinício de nossas caminhadas, nossos banhos em cachoeiras e a intimidade com a natureza, em todos os sentidos, teriam vida breve. Seria fácil para o "menino", reconstruir aquele mundo em nossa particularidade, mas a "menina" poderia sofrer as consequências de ser menina e mesmo assim evocar esse direito, se a particularidade viesse a público.
Mesmo assim foi compensador. "Reeternizei" momentos. Eternizei "remomentos" e me "ressenti" amado. Sem ressentimentos maus. Apenas bons. Recolhi meu amor e o reguardei bem fundo, pois se não posso exercê-lo com eternidade contínua, tenho esperanças de lá na frente, algum dia, "reeternizar" outra vez, ainda que o "remomento" seja mais curto e furtivo. Eu a amo. Com o mesmo amor de menino. Aquele amor que jamais teria dado certo, se o tornássemos convencional.

DE AMAR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Abafe o primeiro grito,
primeira ofensa,
primeiro tapa,
primeira etapa
da violência...
Rejeite o primeiro gole
ou desperdício,
primeiro trago,
primeiro estrago
de qualquer vício...
Cometa o primeiro gesto
de paz e bem,
primeiro traço,
primeiro passo
de amar alguém...

BICHO LIVRE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Seu arreio termina
ou destoa
no meu lombo;
na minha paz...
Sua lei não combina
com quem voa,
leva tombo
e se refaz...

PÉ NA VIDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tome a causa. Construa seu efeito. Veja em volta, existe um mundo que gira, e pouco importa se alguém deixa de acompanhá-lo. Faça o peito sentir que seu coração tem a dor tão somente como corda propulsora de novos passos.
Entenda que só se morre de morte, para que se acenda o desejo de viver o tempo. Feito isto, leve o sonho nas asas e não traga o fim para o meio da jornada. Deixe o susto pra beira do infinito, que por ser infinito não tem pressa de assustá-lo.
Seja forte o suficiente para ser quem você é, enquanto está por aqui. Jamais esteja por força nem contingência, ou por não lhe restar alternativa. Seria viver por viver, e por viver não se vive de verdade. Só se deixa seguir.
Tenha fé na estrada, no sonho e nos próprios passos, ao despertar e saber o que deseja de si mesmo. Ponha pé na sorte, no chão e no futuro, a partir do presente. Só se vive de vida, o resto é morte, a morte fica para depois futuro.

CONFIANÇA EQUIVOCADA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Marisa, pessoa muito sem medos deixou Márcia, sua filha menor, aos cuidados de Amanda, em quem confia plenamente. Amanda precisou sair, mas deixou Márcia com Clarice, também de sua inteira confiança. Clarice, que da mesma forma tinha compromisso e confia muito em Fernanda, não pensou duas vezes: deixou Márcia com ela, que por sua vez a deixou com Carla, conhecida recente.
Acontece que Carla, que conhece Fernanda mas não conhece Clarice, que conhece Amanda mas não conhece Marisa, igualmente precisou sair e não teve opção: precisou confiar na própria Márcia, que só conhece Clarice, que não está em casa, e não faz ideia de aonde a mãe anda. Sequer sabe chegar em casa, pois nessa corrente de confianças, foi parar bem longe de sua rua.
Agora Marisa, que deixou Márcia com Amanda que deixou com Clarisse que deixou com Fernanda que deixou com Carla que deixou com ninguém, procura desesperadamente a filha, pelas ruas desconhecidas do bairro em que mora faz pouco tempo. Marisa sem medos está com medo e grita por Márcia, ouvindo estranhos dizerem a todo instante para confiar em Deus que confia no ser humano em que não se pode confiar.

PRONTO PARA VOAR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Solte a linha e me deixe achar o céu,
pois o vento me chama e quero ir,
há um véu que precisa ser rasgado
pra surgir uma nova dimensão...
Tenho sêde, preciso dessas águas
que desaguam na linha do horizonte,
minhas mágoas se agitam nesta sombra
entre as celas do mundo obrigatório...
Largue as rédeas e saia do meu ser,
já não posso levar o seu entulho,
meu orgulho me acorda e quer fluir...
Ou a faço cair da imensidão,
onde o chão se perder do seu olhar
que não sabe me ver além do embrulho...

SAUDADES DE CHICO ANYSIO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Dia destes, adormeci assistindo à novela Império, da Rede Globo. Despertei em plena Zorra Total, programa que abomino pelo mau gosto e a falta de criatividade, além do bullyng constante contra pobres, desdentados, negros, gays e obesos. Imediatamente veio à memória o Chico Anysio. Tive saudades de todas as versões do seu humor elegante, respeitoso, criativo e de gosto apurado, que valorizava os antigos bons horários da emissora para os bons programas.
É uma pena que o Brasil tenha decaído a tal ponto neste quesito. Não há mais um programa humorístico, realmente humorístico, relevante. O que mais se vê na televisão brasileira são esses programas que tentam arrancar o riso com tons de voz e gestos excessivos e a ridicularização das massas. Da maioria do povo brasileiro, composta por essa gente já muito ridicularizada no dia a dia. Não precisava ser também por esses humoristas forjados que se acotovelam nas emissoras, sabedores de que logo serão substituídos, pois não são duradouros. No mais, restam os seriados simpáticos; as comédias românticas capituladas, razoáveis até, mas na cola dos seriados norte-americanos, que por serem originais, são bem melhores. Mesmo assim, os horários são impraticáveis para quem trabalha.
No tempo de Chico Anysio, também do Jô Sares humorista, mas hoje falo do Chico, as emissoras eram mais independentes. Não precisavam puxar tanto o saco do poder público, e por isso, as boas piadas às custas dos políticos, que são de fato merecedores disto, rendiam risadas generosas e ainda faziam refletir. Não era necessário apelar para os bordões, na tentativa de grudá-los em nossos ouvidos e dar a impressão de um sucesso que só é mesmo dos bordões; não dos programas, exatamente. E para o povo, essa era a única e boa vingança saudável contra a classe política, pelos sofrimentos impostos ao país, entra século sai século. Rir dos políticos, graças ao Chico Anysio, era nosso programa predileto.
Hoje, com o medo que as emissoras têm do poder público, seu maior patrocinador, o povo está sendo obrigado a rir de si mesmo. Além de ser simplesmente obrigado a rir, com as piadas exageradas, preconceituosas, desinteligentes e de mau gosto empurradas olhos e ouvidos adentro. Mais uma vez recordo o Chico Anysio, que quando encarnava personagens populares, essas personagens eram caricaturas simpáticas, respeitosas, e sempre soavam como homenagens. Ele homenageava; não praticava bulliyng contra o povo brasileiro simples e sofredor...
...Chico Anysio foi foi o grande humor de nossa vida.

PESCANDO A VIDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Que viver não exija o rebuscar profundo;
a certeza do alvo, a precisão da meta;
já me baste seguir pra merecer o mundo,
e o amor nunca deixe de guiar a seta...

Pouco importa o que sobre desta linha reta;
meu olhar não precisa mergulhar tão fundo,
porque sei que a verdade nunca foi concreta,
só o chão da mentira sempre foi fecundo...

Pesco a vida sem pressa, deixo meu anzol
passear pelas sombras, ir à luz do sol,
sem buscar o sentido que meu sonho faz...

Só supero a mim próprio, não quero troféu,
não é pelo morrer que se conquista o céu
nem a guerra tem saldo pra comprar a paz...

IDENTIDADE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se te livras dos outros, "nada mau";
mas o mal verdadeiro está no fundo,
pois ainda estás dentro de quem és...

PAIS, MÃES E FILHOS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Nunca tive saudades do meu pai. Tive, sim, saudades do pai que meu pai não foi. Na verdade, saudades de qualquer saudade que teria, se a minha história e de meus irmãos com ele fosse outra.
Ao me tornar e “retornar” pai, passei a ter medo. Um medo imenso de que minhas filhas algum dia não tenham saudades do pai que tiveram, mas, do pai que não fui. Ou que tenham saudades de qualquer saudade que pudessem ter, se nossa história fosse outra. Se tivéssemos história, pelo menos que valesse a pena lembrar.
Pais e mães deveriam refletir mais a respeito disso. Deveriam se preocupar em construir com seus filhos, histórias relevantes. De amor e presença. De atenção e cumplicidade. Se houver sofrimento - e sempre há -, que o sofrimento seja compensado por esses atributos indispensáveis à relação pai, mãe e filhos.
Que seja por egoísmo. Pelo simples deixar saudades. Não tem problema, porque esse egoísmo tem a capacidade mágica de salvar os filhos de uma frustração eterna.

FEZ-ME SEU

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Soube vir no silêncio que nem deu sinal;
que se fez por completo e desarmou meus medos;
desvendou meus segredos desde a não chegada,
fez a cama em meu peito que virou seu quarto...
Pouco a pouco se achou na minha perdição,
nas crateras do chão de minha lua oculta,
fui cedendo aos seus raios, virei noite clara,
sua rua, seu mundo, sua moradia...
Só depois ela veio, propriamente vindo;
já me achou preparado para não fugir;
desmedindo limites; desfazendo a cerca...
Fez-me seu como a vista pertence à visão,
a nação a si mesma num planeta justo;
como tudo é do todo e todos são de alguém...

TRÊS CORAÇÕES

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Para Júlia e Nathalia

Trago no peito, essas duas razões que o íntimo cultua como núcleo do ser. Minha vida se desconhece fora desse contexto. Não há lua que paire sobre meu mundo e dê sentido a qualquer sonho, e não há sol nos meus olhos, quando não as acho nem imagino ao alcance das vistas ou das horas seguintes.
Tenho três corações, e no entanto, nem o meu é meu. Todos eles me ocupam para pulsar por elas que são meu horizonte; meu destino. São a vela que move minha embarcação. Sempre foram meu sino, meu sinal de vida. Meu antes e depois, desde que renasci.
Nada quero do mundo, senão a certeza do poder deste sentimento que me conduz. Que me faz querer conduzi-las com segurança, mesmo pelas filas incertas do que há de vir. Do que não sei que será, pois nada sou além de mim, mas quero ir enquanto há passos. Voar enquanto há vento, céu e asas.
O poder não é meu. Não me pertence. Vem delas o meu dom de sonhar. De me doar e sentir que faço valer o tempo. Esse tempo já sem tempo e sentido para retroceder... mas quem foi que falou em retroceder, se já não tenho passado, e o futuro pertence a elas?

RECONSTRUÇÃO

Para hoje ser quem sou,
já passei por muito eu...
muitas vezes troquei de mim.

DESPREZO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Teu rancor não tem peso;
não me faz rancoroso...
no fundo me agrada
demonstrar meu desprezo
mais gentil; carinhoso...
minha raiva mais fina
e bem humorada.

DESAMOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Somos restos que ficam da própria loucura;
nosso tempo é perdido no voo dos anos;
o amor se perdeu nos desvãos da procura
e nas tantas mudanças de rumos e planos...

Acabaram as linhas; agulhas; os panos;
não há como fazer uma nova sutura;
temos esta certeza das perdas e os danos;
a doença venceu as previsões de cura...

Um aceno se oculta no silêncio fundo
que se deu nos limites deste fim de mundo
entre as velhas paredes vazias de lar...

Sempre perto e distantes; hoje muito além;
nossas vidas se foram nesse vai e vem;
já voltamos demais pra voltar a voltar...