Coleção pessoal de demetriosena

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UM OLHAR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sempre olhei ao redor e vi um campo
que supera os seus frutos negativos;
chão de vivos; de gente que reluz;
toca fundo e seduz os pés e as asas...
Meu olhar se derrama sobre a vida,
sem o medo que o tempo instituiu;
com a vasta esperança que se tem
no caminho; no bem; no ser humano...
Nunca vi esse velho fim dos tempos
que ressoa nos templos desde sempre;
vejo, sim, recomeços; renascenças...
Gente má não supera o dom do amor;
a garoa fecunda; não a enchente;
minha mente plantou que o mundo é bom...

RECORDAR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sou recordista de outrora...
e chego a ser saudosista
do que acabou de ser hoje...
tenho saudades de agora.

PETER PAN

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Um menino passado a lutar contra os anos,
uma vida enguiçada em balneário impróprio,
sob as perdas e os danos que o tempo confirma
sem acesso aos apelos do mundo irreal...
A criança que teima num corpo de adulto
é um vulto esquecido numa solitária;
um assombro que brinca de brincar de fato;
um retrato que pensa que pensa e que vive...
Tenho dó do menino que jamais cresceu,
distorceu a passagem do tempo na pele
sobre a gasta estrutura de puro tamanho...
Perguntar não constrange, se faço ao meu fundo;
em que rua do mundo acabou a saída;
a que horas da vida ele vai acordar...

CORAÇÃO ETERNO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Coração desenhado na jaqueira;
uma feira de cenas pra lembrar;
um luar tatuado na saudade
mais intensa; profunda; pessoal...
As lembranças florescem no meu campo
de vivências, amores e caminhos,
tem espinhos que a vida só não tem
para quem se plantou na própria fuga...
Sobre todas as dores te recordo
entre a luz de sorrisos multicores
da paixão desenhada pela idade...
Na jaqueira que assombra meu olhar,
muitas vezes evoco teu fantasma
e me deixo te amar mais uma vez...

PÓS-CHUVA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Diadema no céu,
sobre os cabelos do mar...
chuva solar.

NÃO DE AMOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Os que amam de fato,
sem ser amados,
dão adeus e se tratam...
Ao perdurar o tumor,
às vezes morrem de amor...
mas nunca matam.

MÃE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Minha mãe,
que só viveu pra ser mãe,
de corpo, alma, emoção,
foi o pai mais intenso
que toda mãe pode ser...
mas muitas não são.

TIRE A ROUPA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sempre que tiver chance, fique nu. Não por libido, exibicionismo nem assédio. Qualquer momento de alguém com mais ninguém é uma chance de se livrar dos panos como quem se livra de algemas, aguilhões e rédeas, para circular pela casa, e se possível, pelo quintal. Faça isso feito aquele corcel sem dono que percorre planícies, riachos e descampados, como se o mundo fosse todo seu e se resumisse ao alcance de seus olhos e sua marcha.
Mostre para si mesmo, sua nudez. Tire a roupa com silêncio de prece; contrição de culto, e renda um louvor ao vento; à boa solidão de quem não quer companhia. Faça da liberdade ou do ato simples de ser quem é, sua grei momentânea; sua fé; seu credo. Saiba que a nudez autentica o ser humano, certifica sua essência e garante a honestidade plena do invólucro. Corpo nu é transparência; vitrine d´alma; expositor de quem veste a pele, tão só a pele, para se harmonizar com a eternidade breve do ambiente propício.
Fique nu pra se ver. Pra se ter. Pra se ler entre as linhas da perfeição de não ser perfeito. De ser perfeito não ser. Sinta o corpo abstrato, apesar de corpo, e su´alma carnal, mesmo que alma. Sinta-se até um pouco Deus, pois se Deus existe, certamente caminha, voa ou paira completamente nu sobre as planícies, os riachos e descampados do suposto paraíso.

NÓS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ele só dizia eu.
Os cordões de sua voz
nunca desataram nós.

POEMA DE PANELA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ter amor com que teça os meus versos diários
e meus versos diários pra fazer amor,
bom humor pra chorar sem perder o sorriso
que pertence aos meus olhos, apesar da vida...
Igualmente um motor, combustível nos temas
dos quais faço poemas pra poder viver,
como quero aplicar meus poemas nas pedras
das colunas e o piso da casa em que moro...
Apesar da ilusão de qual sempre disponho
ao compor cada sonho sem cair do mundo,
pulo fundo pra fora do lugar-comum...
Cada dia revela que o chão é meu céu;
quero letras cremosas pra passar no pão;
canjiquinha; feijão; torresmo com poesia...

PASSOS LARGOS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Cada passo é um ex-passo
que voa e sai de viés;
que o espaço põe nos vãos...
Quem acumula os seus sonhos
e a cada um torna dez,
enfia os pés pelas mãos...

PEDRA E CLAMOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Faça mais do que diz que se tem de fazer,
porque ser é bem mais do que lançar palavras;
o reflexo ecoa muito além do verbo,
só lições de quem é rendem frutos reais...
Seja mais do que prega, incorpore o sermão,
dê a mão que se amputa no fio da fala,
que se cala no aço do espelho coberto;
no deserto infinito, apesar das pessoas...
Ao dar flores não fique, vá junto ao seu gesto,
meu olhar acompanha, pois quero aprender,
minha vida precisa de sua verdade...
Fale menos de Deus e viva mais amor;
pregue menos a paz e faça mais o bem;
tenha cheiro e sabor dos discursos que faz...

MANHÃ

Demétrio Sena, Magé RJ.

De repente alcanço este sossego de saber quem sou. De saber o que faço e me sentir caber em mim. Chega o tempo em que alcanço meus sonhos e durmo para o medo que sempre tive de saber os mistérios do meu próximo passo. Do pouco além de onde piso.
Faço das verdades que agora me assaltam, meus ases num jogo. Minha pilha, minha fogueira, recarga vital. Razão pela qual sei ganhar mais um dia na roleta ou na mesa das noites. É assim que driblo essa enorme fila de assédios da hora sexta ou tardia. Consegui me alcançar na vertigem das horas, e tão somente pouso em meu colo, para me deixar seguir. Navegar na leveza de não ter mais pressa.
O meu fogo é de lenha, mas de lareira em chalé. Minha paz é de quem é, mas ao mesmo tempo se deixa estar. Hoje fecho meus olhos, abro a minh´alma e sinto este cheiro de manhã que rompe as tardes, vence as noites e continua sendo manhã.



Demétrio Sena, Magé - RJ.

Você tem que ter fé no sorriso de alguém;
numa lágrima; um gesto; palavra; silêncio;
nos efeitos do bem que ter bens não produz,
ou até na passagem da brisa no rosto...
Tenho fé nessa fé dos que têm fé em Deus,
no carinho dos meus, no valor do conselho,
creio sempre no espelho dos olhos sinceros
e na força do sonho; do amor; da verdade...
Nossa vida não vale o percurso no mundo,
quando somos vazios do que nos ampara;
tem um rosto sem cara quem vive sem fé...
A raiz dos meus pés estão firmes no chão,
mas a mão pega céu e modela pra mim;
minha fé no meu fim justifica os começos...

FEITO CÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Aquela família me tratou como se eu fosse um cão miserável; fétido; imundo; sarnento. Elevou minha autoestima, deu-me água e colônia, cuidou de minhas feridas... deu-me amor. Amor verdadeiro. Todo amor que um cão espera do humano.

LADO BOM

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sob todas as nuvens eivadas de medos,
vou além do que julgo ter forças pra ir;
levo muitos segredos que a vida não abre
nem o vento me deixa intuir ou prever...
Apesar deste peso que às vezes me curva,
tenho sempre desculpas pra querer chegar
ao que nada permite saber o que é,
mas invisto no sonho com fé no depois...
Na manhã que vislumbro a cada dia findo,
ganho novo sentido para mais um dia
que se abre sorrindo e faz valer a pena...
Foi-me dado viver, faço disto meu dom;
lado bom de morrer quando a hora vier,
pois terei uma história pra deixar no tempo.

HIERARQUIA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Reconheço e sou grato
por quanto nem sei,
sendo mesmo incontável,
se avalias teu muito
pelo nada que dei...
Mas o meu coração,
feito águia ou harpia,
nunca vai se adequar
a pautar este amor
pela hierarquia.

REPOEMA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Já não resta o que dizer
sobre seja lá o que for,
solidão, espinho, flor,
que alguém mais não tenha dito...
Todo mundo já cantou
este mundo em verso e prosa,
o amor, o bege, o rosa
dos quais se pintam palavras...
Mas podemos refazer
a magia do sentido
que redizer já não faz...
A saudade, guerra e paz
se renovam nos engenhos
de remastigar a vida.

RUA MORTA

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Minha poça me diz que se tem o momento,
que o passado está fora da linha dos olhos,
pois o vento não volta; só abre caminho
para ventos futuros; eventos recentes...
É de praxe avançar, concluir fase a fase
ou teremos crateras por todo o percurso;
voltaremos do quase pra ponto nenhum
do luar esquecido numa rua morta...
Foi preciso crescer, alcançar minha idade
sobre cada saudade; lembrança; memória ;
cada glória e tropeço que tive até já...
Esta hora se mostra como agora e só;
há um nó que se fecha no retrovisor;
fui criança na infância; não serei agora...

PROFANO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se não fosse pecado
para os olhos teus,
uma queda nos meus,
tua fé te poupasse
de qualquer vingança...
Meu amor desgarrado
teria um brinquedo,
um instante, um segredo,
uma doce lembrança.