Coleção pessoal de demetriosena
ARQUIVO MORTO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Dou ao tempo a coragem dos meus passos,
porque tenho a missão de ser quem sou,
crio laços e driblo a solidão;
não me dou ao vazio que se oferta...
Quero apenas o quanto está pra mim;
vou pro mundo que vem ao meu olhar,
lá no fim se desenha o que já é
neste mar de verdades pré-moldadas...
As receitas estão no arquivo morto,
há um porto em que todas as sucatas
contam suas histórias pra ninguém...
Forjo a rota, o destino, crio a fé
sem correr, pois a vida me acomoda;
tenho muita preguiça de morrer...
MENTALIDADE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nunca tive um mentor. Nem na mais tenra idade, quando somos suscetíveis aos comandos de quem admiramos. Em toda minha vida sempre admirei pessoas, tive meus ícones, mas não fui um fantoche dos caprichos de quem quer ter alguém para incutir seus conceitos, preconceitos e complexos dourados de virtudes.
Mentores dominam, vigiam, fazem aparas intermináveis e decidem a quem podemos admirar; quem pode ser nosso amigo e quem deve ser desafeto. Nosso gosto apurado é aquele que "bate" com os seus, e teremos constantemente que optar entre eles e alguém que os incomode com algum sinal de vida mais inteligente. Isso ocorre porque os mentores sabem que seus soldados podem se tornar livres, ampliar seus horizontes e as relações humanas, ou se debandar para os campos de outros mentores.
Sempre tive amigos. E nunca tive preguiça de ser quem sou sem as escoras dos donos da verdade ou dos pontos de vista. Como nunca fui, jamais me aceitei mentor nem mestre de quem quer que seja. Prefiro ser um amigo. Dar uma dica e deixar à vontade. Apontar um caminho, se solicitado, mas deixar explícito que existem outros, e quem sabe, um melhor. Opinar, sabendo e fazendo saber que a minha opinião é humana, mesmo que técnica; e por isso, passível de falha.
Quem é meu amigo pode ser amigo do meu inimigo. Quem me admira pode admirar a quem deprecio, a quem me faz concorrência e talvez ameace o meu destaque. Se alguém me tem em alta conta, não me aproveito para engaiolá-lo e ter seu canto só para mim, seja por admiração, temor de que um dia me supere, fique livre ou caia nas garras de outro dominador de notoriedades.
Não; não tenho... nunca tive mentor... tenho mente.
ESTAMPA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem é quem não se pinta na faixa do rosto;
não está nas palavras do discurso aberto;
vai além da fachada e destoa do exposto,
pois o seu conteúdo é tesouro coberto...
Abstrato e distante quem se vê tão perto;
fevereiro e dezembro vestidos de agosto;
sob traços de oásis pode haver deserto,
nosso anjo da guarda pode ser encosto...
Não espere uma essência na simples fachada;
ninguém sente o sabor da conserva fechada
nem conhece o caráter por um tom de fala...
Será sempre surpresa um detalhe que for,
uma nódoa, remorso, quem sabe um rancor
ou a doce virtude que a careta cala...
FILHOS AMADOS... APENAS AMADOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Em uma sociedade onde ninguém conhece totalmente ninguém, havemos de confiar, ter carinho e apostar a própria vida na confiança em alguém. A própria vida. Não a de um filho; de uma filha. Um ser em formação que não saberá se defender, caso a pessoa em questão não seja quem generosamente julgamos. E qualquer pessoa com bom discernimento sabe que as grandes decepções, seguidas de atos como agressão doméstica e violação vêm exatamente de pessoas acima de qualquer suspeita, pois as pessoas que não estão neste patamar já são evitadas naturalmente. Ninguém confia.
É humanamente e legalmente inviável temer um pai, a menos que esse pai tenha dado algum sinal de perversidade ou apresente um histórico, mesmo fora de casa, de atitudes como essas. Mas um padrasto, não. Nenhuma mãe consciente de seu dever como tal, tanto quanto dotada realmente de amor deixará sua filha menor, nem mesmo o filho, aos cuidados desse padrasto, a menos que ele seja mesmo um pai, por adoção, e tenha motivos fundamentados para se sentir assim. Motivos como o de criar essa criança desde recém-nascida, com amor extremado e nenhum sinal, por mínimo que seja, dessas patologias que geram tanto sofrimento. Afora isto ele mesmo, se tiver consciência e for uma pessoa não suspeita, não aceitará que sua mulher ou companheira lhe diga: "fulano, fique aqui com (...), enquanto eu resolvo umas coisas.". Ele declinará. Dirá que não fica, que isso não é certo, e não terá medo de sua esposa se chatear e brigar com ele. Se tiver esse medo, eis um motivo a mais para se supor que não tenha uma boa índole. Pior ainda, se ele cobrar da esposa essa confiança, demonstrando ainda que veladamente, que deseja ficar a sós com a criança em questão.
Pode ser que a pessoa em que confiamos seja mesmo de confiança quase total; 99 porcento, por exemplo, como nenhum ser humano é totalmente confiável, mas... e aí? Vamos deixar os nossos filhos expostos, ainda que às chances mínimas de 1 porcento, de lhes acontecer algo danoso dentro de casa? Não. Uma pessoa que ama de todo o coração não fará isto. Só mesmo aquela mulher sem o verdadeiro instinto materno, e que apenas depois da tragédia irá dizer aos quatro ventos: "Meus Deus! Nunca imaginei uma coisa dessas! Confiava tanto nele!". Não haverá desculpa para tal mãe. Ela terá apostado a vida de um ser indefeso, por uma confiança que só era sua; não dele. Não teve olhos para as possibilidades, mesmo longínquas, do mal que poderia fazer.
Temos que ter a capacidade de optar entre a falta e o excesso de cuidados, nesta sociedade onde a falta, mesmo que mínima, pode cair nas malhas da tragédia. Será mais feliz a mãe que apostar no excesso de cuidados, pois terá fechado todas as portas para qualquer mal contra seu filho ou filha. Se muitos cuidados serão desnecessários, ela nunca saberá quais, ou até mesmo se todos foram. E se algum cuidado será de fato necessário, ela o terá tido na hora certa, mesmo sem saber, porque sua hora será qualquer hora. Já aquela que resolver pecar pela falta, quiçá pelo meio termo, correrá o risco de proteger seu rebento nas horas desnecessárias e não conseguir fazê-lo nas necessárias, também por não adivinhar.
No fim das contas, a máxima desta questão: preocupe-se com seu filho ou sua filha. mais do que isso: ame. Pelo simples fato de amar, você terá olhos atentos e atitudes zelosas com quem precisa de sua proteção a todo custo e a qualquer hora. Lembre-se de que filhos apenas mimados pelo nosso excesso de zelo terão chances de amadurecer, ainda que um pouco mais tarde, e mudar... já os filhos largados ou criados sem esse zelo, poderão se tornar facínoras... e facínoras, muito dificilmente se recuperam, além de quase sempre morrerem muito cedo. Pensem nisso.
VITÓRIA DO AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Desta vez nos deixamos conhecer mais fundo,
viajamos um noutro e tivemos destino,
fomos tino e loucura em perfeito consenso
e deixamos o mundo se fechar em nós...
Hoje não nos roubamos de nossa vontade,
nossos medos venceram seus bichos-papões,
porque foi a verdade que cedeu ao sonho;
reagiu aos senões e nos deu livre arbítrio...
Finalmente a coragem de chegar no sim,
sem o fim como sombra; contorno; rascunho;
punho pronto pro soco na boca do ser...
Conheceste meus becos, bueiros, vielas,
conheci teus asfaltos, teus pontos de luxo,
fui o bruxo que a fada se deixou amar...
POEMA PATOLÓGICO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Resolvi escrever uma história pra ti;
para tanto evoquei o fantasma de Dante;
já montei a fornalha no abismo que abrigo,
reservei numa estante o lugar mais sombrio...
Serás livro comido por traças e fungos,
teu enredo é destino dos que não têm luz,
tua cruz é viver pra contar um segredo
que não cabe nos olhos e ouvidos de alguém...
Viverei pra que um dia não tenhas vivido,
não encontres passado nem tenhas futuro,
sejas vaga presença no escuro das horas...
Minha calma se firma na patologia
de sonhar que meu dia traz a tua noite
ou a tua versão do juízo final...
PASSO A VELA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Já não corro ao encontro do que sonho,
pois deixei de correr, me planto em mim,
ponho toda esperança nos meus tachos,
feito ebó numa velha encruzilhada...
Minhas pressas pediram sombra e rede;
minha sêde se mata nos meus mucos,
tenho sucos guardados na gastrite
que por ora deixou de ser nervosa...
Decidi abraçar as incertezas,
dispensar as verdades congeladas,
dar ao nada o sabor de não saber...
Quando quero tomar meu passo a vela,
sou a tela em meu quarto já minguante;
paraíso distante na parede...
PRA GANHAR ESTE JOGO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Guardo minha resposta pra hora propícia,
quando nem te lembrares das tuas façanhas,
tenho forças estranhas que me calam fundo
e me fazem saber: meu agora é depois...
Levo as armas na mala do sonho e do vento,
no silêncio e na sombra de minha verdade;
com idade curtida em aromas e azeites
a pimenta em meu peito será mais pimenta...
Perderei as partidas no meio do jogo,
pra ganhar esse tempo, esse fogo, esse ar
que serão meus temperos de pleno revide...
Já degusto esse gosto sutilmente à margem
da viagem que faço para minha vez,
minha voz de calar teus efeitos em mim...
PARA VÊ-LA FELIZ
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Busco em sua expressão as mais fluentes linhas
de alegria e leveza, um caminhar seguro,
sem o muro de sombras que o mundo institui
para todos os rumos de quem se procura...
Quero tempo e jornada pra lhe ver completa,
ver a luz de su´alma sobre todo o rosto,
folhear em seus olhos uma linda história;
um agosto vencido pela primavera...
Todo sonho tem asas, procure as dos seus,
há um fogo escondido, remova essas cinzas
e verá quantas brasas aguardam seu sopro...
Meu amor não aceita não lhe ver feliz;
é a lei que despacho e tem que ser cumprida;
minha vida se apaga sem a luz da sua...
ASSIM, NÃO ASSADO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem quiser educar meus instintos de harpia;
dar à luz do meu dia seu clima de sótão;
modelar minhas asas para voos curtos,
cairá de meus surtos em plena vertigem...
Se tiver ilusão de me amansar aos poucos,
pôr coleira e corrente no meu coração,
saberá que meus sonhos são anti-armadilhas
e são anti-estratégias as minhas verdades...
Não invente uma forma de virar o jogo,
não há fôrma que amolde a natureza em mim,
sou assim, não assado por fogo de ofício...
Caso queira esse caso de acaso e soltura,
cuja lei da procura não distorce oferta,
venha simples e aberta pra fechar comigo...
CADA VEZ QUE TE VEJO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Fico assim só de olhar nos teus olhos nos meus;
dou adeus e te levo, e permaneço assim,
por um curto sem fim que só depois me chama
e derrama o vazio de já não te ver...
Quando bebo em teu rosto esse dizer profundo
que me cala e consente ficar tonto e bobo,
eu me roubo pra ti; nem preciso de mim;
vou ao fim do meu mundo e colho céus ocultos...
É assim que me flagro desde que te achei,
desde quando não sei, porque lá me perdi
sob tuas presenças e muitos adeuses...
Ao saíres da linha do meu horizonte,
cada vez que te afastas ou cumpro essa pena,
fico assim, viro ponte suspensa no caos...
VERBO SER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sou essencialmente eu;
a pessoa; não o show...
creio que nasci pra ser quem sou.
INVERSÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Eu te amo. Foi a frase mais batida que morou em meus lábios. Em alguns de meus versos. Em minha vida. Ela me seguiu por toda a adolescência, rompeu a juventude, para só mais tarde, bem mais tarde, começar a diluir... não morrer, exatamente, mas diluir.
Já maduro e bem vivido, apesar das más vivências que me carimbaram, fiquei um tanto narcisista. Justamente as más vivências, no campo dos amores, me tornaram assim: egocêntrico. Fechado em bolha. Guardado à sombra. centrado em mim.
Foi aí que o meu amor caiu em si. Reverteu a trajetória. Já deu. Hoje olho nos espelhos e vejo a frase, manipulada, invertida, me lançar mais e mais aqui dentro. Não é mais eu te amo. E não reclamo da ilusão; da estima torta que me deu... te amo, eu.
JOÃO E MARIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tá gostoso, amor; não pare...
Por favor empurre mais...
com carinho; vai, meu bem...
Se pudesse ficaria
muitas horas, todo o dia,
neste vai e vem...
Não se assuste, meu querido;
sou assim desde bem nova;
se começo não me canso...
Uma louca, desvairada,
totalmente apaixonada
por um balanço.
JUSTIÇA?
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A justiça precisa do culpado,
mesmo quando as premissas o desculpam.
Não a julgue por tantas injustiças.
VETADO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Desde sempre me guardo e preciso lhe dar
meus acúmulos, fardos, verdades contidas,
minhas vidas atadas num feixe de sonhos
costurados na sombra do afeto escondido...
Nunca pude acender uma luz ostensiva
que revele os sentidos, lance os sentimentos,
tome os ventos pro nada e não possa voltar
da corrida sem freio e da queda provável...
Guardo gestos, palavras, olhares e graus
deste fogo abafado em esperanças gastas
entre pastas de arquivos que temem morrer...
Não me tenho pra mim, jamais fui do meu eu,
porque sempre fui seu, mas me calo tão fundo
que meu mundo me veta para o seu olhar...
TIMIDEZ
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Venha ver a minh´alma no poço da voz
que flutua no abismo do céu de meu ser,
cai na foz dos sentidos, toma os pensamentos
onde cumpre o dever de jamais se ostentar...
Leia todas as linhas dos poros em plasma
neste livro que a pele transforma em vitrine,
pois de fora pra dentro é mais fácil saber
que meu crime de amor tem raiz inocente...
Ouça bem o silêncio da língua dos olhos
deslizando na sombra de minha verdade,
sem achar liberdade pra não ter temor...
Traga minha coragem de sair de mim,
diga sim à resposta que sangro às escuras
entre as grades da jaula desta timidez...
FELICIDADE ATÓXICA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Faça tudo que o deixe completo e feliz,
pois as faltas se juntam num grande buraco,
nem um caco do todo pode se perder,
sob pena de perdas ou flancos em série...
Viva todas as vidas de sua matriz,
porque não abraçá-las é morte precoce,
tome posse do espaço que tem o tamanho
do seu sonho; seu senso do próprio direito...
Seja todo seu eu, nunca perca o sentido
e jamais se permita evaporar essência,
tenha brio e decência pra romper muralhas...
Só limite os projetos de felicidade
à verdade serena que o livre do caos,
mas não faça esse caos arrastar outra vida...
