Coleção pessoal de demetriosena

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SONETO SOCRÁTICO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se morri toda morte que se morre,
já vivi cada vida que se tem,
ou de cada bebida o justo porre;
todo mal, se por mal ou se por bem...

Fui além do infinito, após além,
por amor fui mocinho em Love Story,
odiei, fiz a guerra, paz também,
mas ninguém me condene ou condecore...

Sou quem sou desde o dia em que cheguei,
sei de tudo, no entanto nada sei,
quanto mais me procuro e me aprofundo...

Ser poeta me abona pra voar
ou pra ir pelos ares lá no ar,
onde o céu justifica estar no mundo...

AMOR SEM ECO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Um gostar dissolvido em névoa e véu;
disfarçado no céu de minha voz;
uma chama escondida que não chama
e me leva pra cama só comigo...
Meu amor se declara pra si mesmo,
minhas mãos te procuram nos meus cantos,
onde os mantos de minha solidão
chocam sonhos que nunca darão crias...
Tenho via de fato sem saída,
servidão que não serve um horizonte,
velha ponte quebrada noutro extremo...
É assim que meu mundo anseia o teu;
céu de ateu que não crê, só por despeito;
eu te odeio de amor ignorado.

GOSTAR DE PASSARINHOS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Detesto ratos, escorpiões e lacraias... mesmo assim não os prendo. Porque haveria, então, de prender passarinhos?

NATAL SECRETO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Anos e anos de procura, e não encontrei a versão do meu natal no meio das cores fartas e sintéticas que saturam as ruas da cidade. Nem mesmo nas cartas de crédito e consumo que chegam à caixa de correspondências de minha casa e me chamam pras lojas enfeitadas por itens e gentes. Ou só por itens, porque afinal, pessoas também são itens no brilho superficial dos shoppings que se enchem de afetos para todos os gostos e poderes aquisitivos.
O natal com que sonho desde criança, e que não casava com os sonhos de outras crianças, nunca veio ao meu encontro. Talvez porque não exista, e porque os sonhos de meninos e adultos alienígenas não podem mesmo se realizar, para que o mundo não seja desarrumado. Jamais me achei, nem ao meu natal disforme, sob as ondas da paz comercial desse amor que se apresenta nos moldes emergenciais da velha data instituída.
Com o tempo, precisei adequar meu egoísmo à normalidade cívica e dogmática do natal que polui os olhos e dentro em pouco poluirá lixeiras, esquinas, encruzilhadas e guetos. Quando a minha esquisitice lamber os restos de abraços, discursos e sorrisos, meus olhos verão pessoas ainda mais esquisitas e carentes revirarem o lixo em busca dos restos gastronômicos do natal. Para essas pessoas, afetos de fim de ano são presentes de outro mundo.

DE VIVER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Não de fome ou doença; desprezo; abandono;
solidão nem desgosto; acidente; homicídio;
nem de raiva, paúra ou envenenamento;
por um mal de momento, arrastada saudade...
Pode ser por idade, mas feito quem pousa;
feito quem fecha os olhos ao abrir as asas
ou brotar pra dizer que chegou e já vai,
como a pétala cai; bem feliz; pois foi flor...
Ninguém morra de amor, num campo de batalha,
pelas horas sangradas no trabalho escravo
e por falha da lei, uma bala perdida...
Não de causas que nunca serão descobertas,
de feridas abertas, overdose ou porre;
só há honra em quem morre de vida vivida...

CARÁTER NATO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Agrada-me a ideia de que uma pessoa é íntegra porque é; por natureza. Não porque obedece às leis, aos mandamentos, teme a justiça humana, divina, ou porque isso abre as portas do mundo e do paraíso.

SOLIDARIEDADE REAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Não dê porque é dando que se recebe, e sim, porque alguém precisa do que você tem para dar.

TALENTO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Por mais que o talento seja de berço... nenhum sucesso começa em casa.

PODRIDÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Era podre de rico...
de prestígio e de fama...
bens e cobre...
mas morreu e deu bicho,
tanto quanto quem morre
podre de pobre...

IMPORTANTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quem é muito; muito importante mesmo, é porque não tem nada; nada mesmo, para exportar.

RENASCENÇA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando tudo pesava nos ombros cansados,
veio a luz emergente; a reflor no sertão;
de repente o passado se uniu aos passados,
revestiu minhas vistas de nova visão...

Era como nascer numa outra versão,
pra voar outra vez, montar sonhos alados,
mesmo assim ter os pés na firmeza do chão
e poder desatar os meus passos guardados...

Tanto não pra que o tempo me dissesse sim,
me salvasse do poço quando já bem fundo;
retirasse da alma os espinhos de abrolhos...

Quando a vida lhe deu de presente pra mim,
descobri a magia da vida e do mundo;
foi o fim do meu fim; renasci nos teus olhos...

HUMANIDADE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se o seu orgulho exigir uma reação ao ser desafiado por alguém, vá em frente... vença o desafio... mas tente não derrotar o desafiante.

TRAIÇÃO FIEL

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Dê seu jeito e se arranje a qualquer preço,
no consolo evasivo desses braços,
nos espaços vazios que deixei
pra que alguém se aventure a preencher...
Improvise a paixão, simule amor,
um calor de artifício, alguns ruídos,
feche os olhos e finja que me vê
na tevê da saudade aí no fundo...
Ponha salsa e pimenta nos momentos,
como quem condimenta pão e água,
faz a mágoa vestir-se de prazer...
Só não diga o meu nome, se apiede,
pois lhe pede a resposta merecida
uma vida plantada em sua mão...

ENGANA-ME

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quem quiser mentir pra mim,
terá que ser convincente;
mentir como quem não mente;
brincar de autenticidade...
porque terá que mentir
de nem notar ou sentir...
saber brincar de verdade.

AMOR HOSTIL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tenha calma e me queira menos tensa;
mais a fundo; silente; bem contrita;
seu amor se confessa em sua ofensa
e seu olho desmente o que a voz grita...

Não se renda e também não faça fita;
guerrear de fachada não compensa;
é a súplica em gestos de quem dita
numa espécie afetiva de doença...

Pra pintar de frieza o sentimento,
leve o seu coração ao pensamento
e supere a si mesma; chegue ao pódio...

Sua fúria não vai vencer o drama;
se não pode assumir o quanto ama,
não precisa me amar com tanto ódio...

CASTELO REFEITO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ela tem a ilusão de me achar noutra casca,
tira lasca e suor desse corpo escolhido,
mas não pode colher minha essência em tal fonte
nem achar o cupido que me recomponha...
Sempre finge que sente o prazer que não tem
no prazer emprestado pela fantasia,
vai aquém do que tenta revestir de céu
e tem olhos perdidos nessa busca insana...
Quer minh´alma num corpo que procura em vão
e meu corpo na mão que nunca teve alma
entre a palma do sonho insubstituível...
Recompus meu castelo e não a quis de volta,
porém ela não solta o cordão de saudades
que desenha o passado em papel de presente...

NADA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sei que vives, pois te vejo
nos desvãos do vai e vem...
vida normal.
Sem repulsa nem desejo,
hoje não te quero bem...
nem quero mal.
Tudo em ti é tanto faz;
não me desagrada em cheio...
nem agrada.
Não há conflito nem paz,
não te amo nem te odeio...
eu te nada.

AMOR E RANCOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Já não tens o sorriso que achavas em mim
e depois refletias pra tudo em redor,
teu olhar é só dor dessa perda sem volta
e teu lábio a revolta que ficou do adeus...
Hoje tens um sabor de amargura sem fim
que semeias no cheiro das tuas palavras,
feito pedra no rim que te faz espremer
cada gesto entre buscas de momentos mortos...
E por isso me odeias com tamanho amor,
com um senso de humor que amaldiçoa o mundo,
pois não sabe acender uma luz no semblante...
Sempre voltas pra mim em delírios ocultos,
colhes vultos de outrora e mergulhas em ti,
mas te perdes no chão que se abre aos teus pés...

CONVICÇÃO PLÁSTICA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Um cirurgião plástico de respeito é aquele que pode afirmar, com propriedade: Não tenha medo; seio que faço.

SOBRE JOÃO ALGUÉM

Demétrio Sena, Magé - RJ.

João Alguém era realmente um sujeito especial. Chantagem de pobre não o comovia. Muito menos pompa, circunstância e suborno de rico. Ele sabia como suportar dignamente os aplausos, os risos e agrados extras do bajulador, tanto quanto a perseguição e a truculência do invejoso mal humorado.
Nem mesmo a fúria maior do forte o demovia de sua personalidade, como não o fazia o mais profundo complexo do fraco. Para ele não havia mistério indesvendável nem confete, seda ou fogo de artifício transformador de caráter.
Era mesmo assim, o João Alguém: resistente à fogueira das vaidades. Ao ferro de solda e ao maçarico. Aos altos e baixos, espinhos e flores, dores e alívios desta vida. Nada conseguia derretê-lo... ou quase nada. Somente o calor humano podia mais do que isso: deixá-lo completamente derretido.