Coleção pessoal de demetriosena
VIDAS DE UMA VIDA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma vida bem fértil; de muitos fazeres;
muitas quedas, viradas e voltas aos pontos;
dores quentes, prazeres, verdades e sonhos
que não foram verdades, ou às vezes sim...
Tive tantas paixões, que me fogem à conta;
fui alguém de alma tonta e fui sóbrio pra ser,
porque vi que viver exigiu recondutas
nos momentos limite; nas beiras de abismos...
Nesta hora me aninho pra chocar lembranças
que não geram filhotes, mas me servem vinho
de saudades bem doces, mesmo quando amargas...
Vejo a morte bonita, com véu e grinalda,
mas ainda pretendo me atrasar pro ato
e me cato sem pressa de me concluir...
PASSARINHA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se até o pardal sabiá
e o coleiro cotovia tudo,
por que será que siriri
que não bem-te-vi
antes da pomba estourar,
que aquela doce rolinha
metida a santa andorinha
com os gaviões do lugar?
O CASAMENTO E A MOSCA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Excluindo-se os casos de traição, o que determina o fim de um casamento é o acúmulo de futilidades. Elas agem na vida a dois como aquela mosca impertinente que no começo enxotamos com certa calma. Na segunda ou terceira vez, um tanto mais irritados, e na trigésima quarta, cuspindo marimbondos.
As futilidades moram na rotina como a rotina pertence aos laços estáveis. Temos que aprender a conviver com elas, como convivemos com moscas, baratas e fezes de cães. Especialmente nestes tempos em que outros itens de futilidade, como as redes sociais, curtidas ou não curtidas em perfis e desentendimentos de ordem cibernética geram incidentes medíocres que supervalorizamos, tornando-os incontornáveis dentro e fora de casa.
Os problemas internos realmente sérios, ou realmente problemas, unem os cônjuges. E a cada vez que ocorrem, há um fortalecimento surpreendente; os laços se renovam. Como se trata de causas sérias e profundas, a seriedade dignifica. O casal se respeita pela nobreza da busca de uma grande solução.
Das futilidades, ou da mosca reincidente, nascem os olhares pejorativos; as palavras depreciativas; a não admiração e os atos de pouca estima e respeito. Por isso, a irritabilidade crescente com o que não deveria ganhar vulto. E quando o casal já cospe marimbondos, não tem jeito: como a mosca vai e vem sem se deixar alcançar, mata-se a relação
FRANCO ATIRADOR
Demétrio Sena, Magé -RJ.
Renato é louco por negras.
Maurício sempre quis ruivas.
Ao mesmo tempo João
bate o pé, não abre mão
daquelas moças bem brancas...
Marcelo sempre foi fã
das nordestinas porretas.
Antonio adora morenas;
Armando é mais radical,
prefere pretas bem pretas...
Enquanto isto se sabe
que a preferência de Rafa
não é morena nem ruiva;
não é chinesa nem índia...
é só jogar a tarrafa.
FILHO DA MÃE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sou do tempo das mães extremadas e loucas
Pelas proles extensas, os filhos em série,
Conheci as mães roucas de muito gritarem
Seus avisos, pedidos e premonições...
Tive mãe nesse tempo em que as mães não dormiam,
Não viviam pra si, só pra suas ninhadas,
Tinham medos do mundo que cercava os seus
E sabiam que “Deus” não seria babá...
Fui um filho de mãe que não tinha controle,
Nada era bastante pra me ver seguro,
Via sempre o futuro a lhe pedir urgência...
Houve o tempo em que as mães eram puro exagero,
Desespero de amor, agonia de paz,
uma dor que jamais as tornou infelizes...
DOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sonha, dor;
sonha que passa,
que se cura,
ganha cor...
não é simples querer,
simples loucura
de sonhador...
sonha, dor.
VIDA POR VIDA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Já não gasto meu lume com gente sombria;
que resvala, ressente, mais mia que fala;
tem os olhos de ocaso e semblante contrito
como quem nunca sai da masmorra que leva...
Não vou mais à procura de gente sem cor,
passageira da dor que por vezes nem há,
resguardada e que nunca se confessa bem,
porque teme que o riso a denuncie fútil...
Afinal me cansei dessa gente remosa,
pesarosa e com ares de pura mortalha;
tem um luto constante, uma nobreza fria...
Quero gente mais viva, menos recolhida,
dou a vida por vida e negocio sonhos
que não cedem ao peso dos que nunca dormem...
RECONSTRUÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Reatar meus extremos e voltar pra mim,
dar começo ao meu fim pra caminhar de novo,
pra caber no futuro a partir do presente
que desmente o passado ao resgatar meus grãos...
Exalar do morrer que não se quis assim
e da minha omelete refazer um ovo,
desenhar a minh´alma na folha da mente
para o corpo caber entre as linhas das mãos...
Vou cair de mansinho dos voos que dei,
transgredir essa lei de só seguir além,
ser liberto por crime de sã consciência...
Consertar uma história que não tem conserto,
pôr enxerto no tronco daquela verdade
que me pede mudança e preciso atender
BURRICE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quando a genialidade congestiona o cérebro de quem não quer dividi-la com o coração, é que os gênios implodem... implodem de burrice.
A cabeça é arrogante, o coração é simples, e o ser humano precisa desse tempero para se preservar humano; pelo menos metade humano, se quiser vencer a si mesmo e conviver com o próximo. Se quiser ter próximo, não se distanciar do mundo e virar uma espécie solitária; espacial... espacial de tão especial... idiota e desgraçadamente especial.
É necessário ser simples para ser gênio... e gênio para ser simples, domar e administrar a genialidade. Não ser assim é burrice... é implodir.
ONIPRESENÇA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se você não está de bem com a vida, não adianta ir pro Caribe ou pras Ilhas Cayman, pois a vida está por toda parte.
SER OU NÃO SER
Antonio Sena, Realengo - RJ.
... se quiser ser feliz bote a cara pra bater, e nunca tente amanhecer antes do sol...
LONGE DOS PÓDIOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ter humor na cartola, pro pior da festa;
ser alguém que se apruma no cio do abismo;
dividir o mesmismo em milhares de cacos
e dar faces distintas; contextos diversos...
Nova cara-de-pau quando a minha quebrar,
uma flor por espinho que atravesse o ser,
pra deixar todo mundo sem graça e sem chão
por me ver consertado e disposto pra mais...
Hei de amar esta vida com todos os ódios,
correr longe dos pódios e ser vencedor
sem vencer as pessoas ou ferir o mundo...
Saberei sempre achar o caminho mais brando,
para quando as vaidades, todas elas vãs,
estiverem no inferno do engarrafamento...
PAIXÃO CAMUFLADA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Essa raiva gritante, abusiva e desenfreada que algumas pessoas têm de seus ex-cônjuges e aproveitam qualquer oportunidade para demonstrar, não é raiva. É paixão não curada e quase todos percebem... quase todos... menos os cônjuges atuais.
POLIPOLARES
Demétrio Sena, Magé - RJ.
As pessoas instáveis, inconstantes,
ora chovem; carregam frentes frias;
ora queimam nos climas escaldantes,
como ficam pesadas e sombrias...
Umas vezes têm mil hipocondrias,
tantas vezes parecem debutantes,
têm ataques, arroubos e sangrias
ou a calma forjada por calmantes...
Vivo bem com pessoas e mudanças,
aprendi nos caminhos, nas andanças,
na lição natural das estações...
Entretanto as matrizes ou origens
quebram nessas viradas e vertigens
de mudanças que viram mutações...
MÁGOA DE PAPEL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Faço todo silêncio a que tenho direito,
pra falar sem palavras e nenhum temor,
sobre a mágoa que trago no sótão do peito;
amordaço e não deixo escapar o clamor...
Isso cabe ao papel; nele posso compor
uma prosa, um poema para dar meu jeito
e pintar de magia os contornos da dor;
só chorar solitário, nos braços do leito...
Aprendi esta forma de fluir lamentos;
minha escrita se adorna dos breves momentos
dessa doce utopia de só ser escrita...
Estes versos endossam a minha missão;
dou às pautas os males do meu coração;
suavizo com letras o que sangra e grita...
RENASCENÇA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O projeto eficaz e definitivo de despoluição seria um só: parar de poluir. Deixar a natureza se recompor.
GENTE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O próximo, o semelhante,
podem ser, perfeitamente:
o distante; o diferente...
SALOMÃO NO SÉCULO XXI
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O rei Salomão se recompunha em seu trono, enquanto batia um papo ao celular, com a presidente Dilma, do Brasil. Dilma ensinava a Salomão, algumas espertezas políticas bem mais eficazes do que a sabedoria milenar do grande rei ressurreto.
De repente, adentram seu palácio duas mulheres. Ambas indignadas, levavam consigo uma criança recém-nascida. Uma das mulheres a segurava pela cabeça, e outra, pelas pernas. A confusão era porque ambas diziam ser a mãe verdadeira da criança que restou de uma tragédia na qual morrera outra criança, também filha de uma delas. Logo atrás, quatro soldados tentavam conter os ânimos exaltados e ninguém entendia nada por causa do grande volume de palavras proferidas aceleradamente pelas supostas mães.
"Já vi esse filme"; pensou o rei, enquanto se recompunha para que ninguém visse as suas partes íntimas sob o roupão de majestade. Salomão ficou calado, mão no queixo, como convém a um grande sábio, e de repente, pareceu também se lembrar do desfecho da história ou do "filme" parecido. Só não recordou que os tempos são outros. Estamos no século XXI.
- Soldado! Traga uma espada! Já sei exatamente como resolverei essa questão!
Temeroso, ciente das intenções do monarca, e com a certeza de que aquilo não tinha como dar certo, o soldado, mais sábio do que Salomão, tentou adverti-lo da mancada que estava dando, mas não teve sucesso.
- Responda uma coisa, soldado! Quem é Salomão aqui? Eu ou você?
- O senhor...
- Pois então faça o que lhe mando! Corte a criança em duas e divida entre as mulheres! Se ambas dizem que são mães da mesma criança, que se dê um pedaço a cada uma!
O soldado levantou a espada. Como não viu nenhuma reação das mulheres, o rei fez sinal para que aguardasse. Olhou profundamente nos olhos de ambas e perguntou, primeiro a uma, depois a outra:
- A senhora não diz nada?
A primeira não se fez de rogada. Ou melhor; se fez. Também encarou o rei, como se fosse uma rainha, e respondeu solenemente:
- O senhor é meu Rei. Seja feita sua vontade.
Já um tanto aliviado, e julgando adivinhar o que ouviria da outra mulher, Salomão não pressionou. Esperou com paciência, o quanto pôde, até que a perdeu e disse, asperamente:
- Qualé, mulher? Vai ou não vai dizer?
Depois de fazer um muxoxo, a segunda se recompôs. Estava meio distraída, mas voltou a si, pareceu se consultar com os seus botões, e disparou:
- Olhe, majestade... acho que um pedaço é melhor que nada.
Não acreditando no que ouvira, Salomão se "redescompôs": espumou, andou de um lado para outro e fez mil caretas, enquanto o soldado já se cansava de segurar a espada, em posição de carrasco. E foi o soldado quem acabou cobrando uma atitude do rei:
- Pô, majestade! O que faço com essa espada! Vai ou não vai dar a ordem? Já estou com câimbra!
Um brilho diferente, de satisfação e vingança chegou aos olhos do rei. Ele sorriu em silêncio, deu uma cusparada e reuniu a coragem necessária para mudar o fim do "filme" que já vira:
- Certo, soldado! Vá em frente! Corte as duas vacas em quatro!
MINHA LEI
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sei sonhar e saber que só é sonho,
mesmo assim acredito e me dou corda;
quem acorda e não sabe mais voltar
perde a vida por força de viver...
Reconheço a quimera, sempre a tive
como a grande verdade que me segue,
que me vive no espaço do meu tempo
e sustenta o desejo de seguir...
Minha lei é deixar que a vida flua,
ir pra lua, mentir pra ser verdade,
não ter lei, manual de como ser...
Também sei que uma sombra me rodeia,
faz a cama e seu sonho é me acordar
entre os choques reais de sua trama...
