Coleção pessoal de demetriosena

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A COPA DO MUNDO E O PODER DO BOICOTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Jamais se viu, em toda a história das copas do mundo de futebol, uma proximidade mais melancólica e discreta como esta, no Brasil... e olhe que a copa, este ano, é no Brasil; país de maior tradição no esporte; único pentacampeão mundial.
Isso não é negativo. É algo extremamente positivo e demonstra maturidade popular, neste momento em que o nosso país passa por um momento político e social muito difícil. Convivemos com o retorno da inflação galopante, um histórico de corrupção política, judiciária e policial como jamais se viu, além de uma série de outros desmandos nos mais diversos setores da sociedade.
O brasileiro ainda é apaixonado por futebol, torce ainda pela seleção brasileira, mas não é mais tão bobo. Já não mistura tanto as coisas e não se deixa enganar tanto pela emoção forjada e com vistas à manipulação, que os órgãos de imprensa ligados ao poder fabricam, de modo a desviar o foco popular dos problemas do país.
Estamos aprendendo a boicotar. A entender, finalmente, o poder imenso do boicote nos grandes e decisivos momentos de nossas cidades, nossos estados e o país. E seremos cada vez mais respeitados, por causa desse poder, se nunca mais o perdermos de vista. Se não deixarmos mais que nos engambelem. Não pararmos no tempo. Quanto mais boicotarmos, com os devidos contextos, mais teremos atenção, respeito e dignidade.
Vamos boicotar os maus políticos, negando-lhes nosso voto. As lojas e os bancos que discriminam negros e pobres, cobram juros extorsivos e vendem muito caro, negando-lhes nosso dinheiro; nosso consumo. Tudo e todos que discriminam, segregam, sonegam, desviam, julgam e prendem injustamente, não cumprem palavras e compromissos, merecem ser boicotados duramente.
O mais importante, mesmo, é acharmos em cada situação a mais eficiente, forte, sensata e corporativa forma de boicotar. Sabe aquela manjada e batida sabedoria de que O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO? Pois é. Continua sendo sabedoria.

MADRIGAL DE VIVER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Entre o haja de haver
e o aja de agir,
não há como fugir
nem há como não ver
que viver vai além
da nossa ilusão...
Às vezes é luz,
às vezes câmera,
mas é sempre ação.

CIÊNCIA E FÉ

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Falar bem é ciência.
Discernir o que está
do que é.
calar e ter paciência
na hora certa...
é fé.

OLEIRO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se não fores amado
à primeira vista,
eis a tua opção:
desenhar tuas normas,
criar fôrmas e formas,
modelar a conquista
pelo coração...

ESTAÇÃO FILHO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ganhe menos.
Compre menos.
Pague menos.
Dê menos Barbie.
Menos tablet.
Menos tudo
que tanto faz...
Tenha tempo.
Dê mais presença.
Mais atenção.
Dê olhar.
Dê contato.
Dê a mão...
Eduque mais,
delegue menos,
tome o trilho...
e desembarque
na sua filha.
No seu filho...

BREVE CARTILHA TEATRAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

De fato exagere,
só nunca exagere
com exagero.
Para temperar,
procure saber
se pega tempero.
Tenha gestos grandes,
mas não mania
de grandeza.
Quando for sutil,
seja bem sutil;
sem sutileza.

MITOLOGIA DO AMOR PERFEITO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Só é lindo por ser um ideal;
uma imagem distante; uma saudade;
um varal de lembranças no infinito...
Foi um mito que a mão vivenciou,
veio ao corpo, marcou no sentimento,
porém foi; só por isso ainda é lindo...
Quase demos um fim ao romantismo
que se traja do mesmo azul-distância
do lirismo inegável das montanhas...
Não podemos voltar aos nossos olhos,
pois nos vemos melhor quando não vemos;
temos esta ilusão do que não é...
Somos anjos por termos nossos céus
em extremos opostos que nos guardam
sob véus de virtudes surreais...
Nunca mais será lindo, se voltarmos,
resgatarmos a nossa humanidade,
porque toda verdade virá junto...

TODOS OS OLHOS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Só entendo a mim mesmo por tê-las aos olhos;
sejam olhos da cara, da mente ou da alma;
minha calma só cresce ao encurtar distâncias
e meu tempo tem pressa de vocês comigo...
Tenho luz quando as trago na mira do rosto,
vejo tudo com lentes de leveza e sonho,
ponho cores no riso que não sai dos dentes
nem dos traços; das linhas do meu todo...
Não entendo esta vida se vocês demoram;
se na hora esperada não estão por perto,
vejo treva e deserto; perco teto e chão...
Há um mundo perfeito se as guardo comigo,
ao abrigo do mundo que fica de fora;
tudo chora de rir; brilham todos os olhos...

FOLHAS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Pinheiros ao chão...
natureza que segue
pro sacrifício:
amanhã, qualquer dia,
serão folhas de livros;
de cadernos;
de papel ofício...

INTENSIDADE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Contato além do tato;
visão do que não se vê:
saudade; recordação em 3d.

GRIFE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Só uso roupa de marca:
de mão suja; sopa; gordura...
e costura desfeita...

PAZ NO MUNDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

É confortante conhecer pessoas honestas, amáveis, humildes e justas, que professam ou não uma fé, mas que não são assim só por isto. São porque são; por natureza própria ou educação familiar sem chicote, opressão nem tortura psicológica. Não se forjam por temor do inferno, muito menos por interesse nas bênçãos ou recompensas prometidas neste ou em qualquer outro plano existencial.
Tenho sorte. Conheço muita gente assim. Com essas e outras virtudes, mas não religiosas; completamente céticas. Outras, religiosas; completa e sinceramente comprometidas e devotas, porém despojadas de conveniência, interesse, ambição e vantagem. Adoram, cultuam, seguem por amor. Seriam fiéis a Deus ou outros possíveis ícones, mesmo que seu alvo de adoração não prometesse bênçãos, vida eterna, ou tivesse feito qualquer sacrifício pessoal como se tornar humano para morrer por todos em uma cruz.
Paz no mundo aos homens e às mulheres de boa vontade. Aos que fazem de suas casas verdadeiros lares. Que se presenteiam às ruas; às pessoas; aos ambientes de trabalho e lazer. Que vão livremente aos templos; às mesquitas; às tendas. Aos salões, terreiros, montes e muros de adoração a deus, aos deuses ou outros ícones que simbolizem a paz; o bem; a solidariedade; o amor ao próximo...

NÃO ME DEVO NADA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Meu relógio de pulso é sentir minha veia,
pra saber que preciso despertar da pausa,
pois a causa dispensa este sono profundo,
se caí numa teia e já não tenho tempo...
Minha hora revela que a vida se apressa;
quer meu fogo na relva do quanto me resta,
uma festa nos pés pra iluminar os olhos
e tecer lá na frente meu fim de novela...
Sempre tive meus dias, tomei cada posse,
dei meu sim quando quis e não fingi que não;
até mesmo não sendo, me forjei feliz...
Já me chamam de mestre; sei do que se trata;
data quase vencida; vencerei meu medo;
vou dizer um segredo: não me devo nada...

VOZ VISUAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Para quem sabe a hora
de dizer sem falar,
silêncio é voz ocular...

AVECEDÁRIO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Foi depois de um AVC
que muita gente aprendeu
o ABC da superação.

BANDEIRA DO BRASIL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Obrigado, Bandeira, por ter tremulado
aos meus olhos carentes de afeto e de letras,
ter me dado essa chave da porta pros livros
que devoro e que sirvo num ciclo constante...
Pelo dia em que pude colher tua ESTRELA
DA MANHÃ que mudou minha vista pro mundo,
numa caixa sem fundo que as traças roíam;
elas quase se fartam de seus madrigais...
Por meus versos ou plágios que fiz inocente,
mas que foram sementes dos originais
que mais tarde se abriram na minha lavoura...
Um acaso feliz me vestiu de magia
e da sua poesia me reconstruiu;
obrigado, Brasil, porque tive Bandeira...

DE GENTE PRA GENTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tem um mundo melhor o próprio mundo
que se move na mira dos conceitos;
vem do fundo e se forma em derredor
dessa ótica ou ética do ser...
É um grão resguardado, às vezes preso
na carência do sol de nosso afeto;
na garoa de sonhos entre as nuvens;
nos projetos de vida que não fluem...
Toda nossa esperança está nos pés
e quer mais do que passos pro poder;
do que força pra ter; subjugar...
Há um tempo melhor ao nosso alcance;
uma chance de gente virar gente;
reaver o sentido que perdeu...

O EQUÍVOCO DA FÉ IMPOSTA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Aquele moço cristão destratou abertamente, sem qualquer motivo relevante, o moço ateu. Chamou-o de perdido, predestinado ao inferno, servo do diabo e outras classificações que não me agrada repetir. Ao mesmo tempo, tentou impor uma fé que se baseia em seu Deus, na retidão, no amor ao próximo e na liberdade... justamente a liberdade, sinônimo de não imposição.
O ateu, com olhar piedoso e compreensivo, não retrucou. Não devolveu sequer uma sílaba das ofensas que ouviu. Parecia fazer, intimamente, uma prece. Uma prece de ateu à inexistência divina, por aquele cristão atormentado pela intolerância; o preconceito. Por um conjunto conflituoso que denota o profundo equívoco relacionado aos ensinamentos possivelmente sinceros aplicados nos cultos e louvores em sua grei.
Agiu exemplarmente, o ateu. Deu exemplo de compreensão, piedade, amor e respeito próprios de quem não acredita em Deus por sensibilidade, fraqueza ou franqueza, por ver tanta maldade nos corações. Corações iguais ao dele, ao nosso e o daquele moço cristão amargo, acuado e contraditório que se oculta numa retidão imposta exclusivamente pelo temor do inferno.

FÚRIA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Às vezes, por mais que tentemos não deixar, o pior de nós se afigura com a força brutal da fraqueza que nos faz esquecer o mundo à volta. Quando isso acontece, quebramos toda frágil certeza do que buscamos. Ferimos a nós próprios, pela ciência do quanto estamos aquém do nosso ideal. De quem achamos que somos ou tentamos ser... do nosso eterno sonho de paz interior, pela conquista do equilíbrio.
Sentimos um peso inexplicável. Um cansaço desmedido. Queremos, mas não há como escapar da consciência. Ficamos presos, e cada passo é pro nada. Pro vazio que habita em nós. Nesse ponto, só nos resta esconder... ou pelo menos tentar, por mais um tempo, engambelar esse bicho acuado, por isso mesmo feroz, que mora nesse vazio. Nessa falha de humanidade que desde sempre conheço, pois a tenho.

CRÔNICA FRUSTRADA SOBRE A MÃE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Mãe é verbo e pronome na mesma língua. É um substantivo adjetivo. Nome próprio do amor maior. Ao mesmo tempo que singular, mãe é coletivo. Às vezes declara que não é duas; é simplesmente uma, porém é muitas... muitas em uma só.
Tem a força imensa da fraqueza enganosa da mulher. Natureza interior que sublima o bem e o mal. Desafia toda e qualquer fé que se baseia na filosofia... toda vã filosofia - pois toda é vã - que o ser humano procura desenvolver do que não entende... maternidade, por exemplo.
Uma espécie de celebridade oculta. verdade secreta que se avoluma no silêncio do seu dom infinito; imensurável. Que não precisa da explicação que não tem, pois complica o simples; complicadamente simples para o contexto afetivo do simplesmente ser.
Que dizer sobre mãe, que não seja pleonasmo e clichê? Como não cair no lugar-comum, para depois não ter dito nada? Foi assim que por lei do próprio tema, fiz tantas voltas e retornei ao vazio. Ao discurso do que sei que não sei de ser mãe... mãe de verdade.