Coleção pessoal de demetriosena
AMORES
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sabedor de que o tempo corre, cumpro meu papel: correio. Reconheço que a vida passa, e como sou volátil, simplesmente Passaraio. Desta forma, tudo vira passado e não há porto seguro na brincadeira.
Sonhador que sou, customizo a imaginação com fantasias em série. O presente me apoia, oferecendo a embalagem dos amores, e o coração embrulha saudades para me dar de futuro.
JOÃO-VAI-COM-OS-OUTROS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tem sua grandeza, e jamais me convencerão do contrário, esse tal José a quem chamam João Ninguém. Mesmo sem ser alguém, ele tem lá sua identidade. Não é o caso daquele certo José, que no fundo, julga ser tanta coisa.. mas não passa de um João-todo-mundo.
COLAGEM X CORAGEM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Algumas pessoas que você admira e julga o máximo, têm Facebook; assistem novelas e gostam de festinhas. Outras, que você também admira e julga o máximo, acham que tudo isso é besteira; futilidade; coisa de gente sem boa formação.
Você, que vive tentando ser admirado por ambas as partes para sentir que também é o máximo, não sabe mais o que fazer: ora pensa e age como aquelas pessoas, ora faz como aquelas outras, a depender de com que lado conviva no momento.
Um dia distante ou logo ali, você há de se olhar no espelho e não ver o próprio rosto, apesar da cara que verá. E a prova de fogo dessa hora será decidir se já não é tempo de ter seus gostos, conceitos, discernimentos e verdades. Tudo seu.
No fim das contas, você terá que tomar uma decisão: resolver, de uma vez por todas, se você pretende ser para sempre os outros... ou abre mão da colagem, para ter a coragem necessária de se tornar você mesmo.
O QUE NÃO VIVO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Levo sonhos dobrados, verdades contidas,
uma fila de vidas que nunca tomei,
tenho sombras que tenho que desafiar
e voar para longe do porto seguro...
Guardo minhas verdades na funda poesia
de apostar na passagem morosa dos anos,
crer no dia de tudo e recolher as asas
como velha desculpa de quem teme o vento...
Há um céu em redor do meu vasto silêncio;
tenho tanto a saber e mantenho este andor,
para não se quebrar o que há muito caiu...
Minha dor é sentir que o que dói já nem dói,
porque já me acomodo entre nada fazer
e viver desta sobra do que não vivi...
POSSÍVEL DEUS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Pode ser que haja o que se possa chamar de Deus, como sinônimo de origem; criação. Não sou arrogante o suficiente para determinar essa não existência, como se eu fosse o dono da verdade universal, da qual tenho certeza de que ninguém é.
O que acho improvável é que o provável Deus seja o ser previsível, carimbado e instituído pelo homem, de acordo com as conveniências e necessidades humanas. Um Deus vaidoso; ávido por elogios; passional; vingativo... criador do céu para os que satisfazem seus caprichos por meio de confissões e penitências pessoais físicas ou psicológicas, e do inferno para os que não agem assim, mesmo que sejam pessoas íntegras e dotadas de amor ao próximo.
Creio, não determino, que não foi esse Deus que nos criou à sua semelhança. Fomos nós que o criamos à nossa. Também creio, sempre sem determinar, que se Deus existe, não há de se tratar de alguém... mas de algo.
SECRETO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um querer sem querer;
sem anúncio e plateia;
que no meu coração
é começo e fim...
Gosto mais de você,
do que gosto da ideia;
do que aposto que não...
mas perco pra mim.
PROFESSORES X FUTEBOL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quando nós, educadores, protestamos pura e simplesmente conta o sucesso financeiro dos atletas, em especial dos jogadores de futebol, depomos contra nós mesmos ao demonstrarmos desprezo pelo talento. Da mesma forma contradizemos nossos discursos contra exclusão; desigualdade; falta de oportunidades para os mais simples.
Aquelas pessoas que neste momento de suas vidas ganham milhões, são quase todas de origem bastante humilde. Filhos de pedreiros, serventes, lavradores, balconistas e afins, todos visionários e atentos aos sinais de que seus filhos têm algo especial: talento. Esses pais atentos apostam; dispõem de todos ou quase todos os seus poucos recursos, até marcarem o gol definitivo, acertando em cheio na grande chance dos filhos. No futuro com que nunca sonharam para si próprios.
Nas salas de aula, falamos quase o tempo inteiro em talento; no entanto, somos elitistas: não aprovamos o talento dessa gente humilde que de uma hora para outra pode ser detentora de uma fortuna que nos dá inveja, sem terem passado por ensino médio, faculdade, às vezes nem mesmo pelo ensino fundamental completo.
Mas esses atletas não chegam lá sem esforço. E muito esforço. Sacrifício. Renúncia. Ainda bem novos deixam famílias, brincadeiras, amigos de infância, e vão trabalhar duro: fazer muitas horas diárias de preparação física, treinos com e sem bolas, educação alimentar e outros cuidados criteriosos com saúde, o que inclui não ter vícios, vida sedentária ou promíscua. Tudo isso, além de aprenderem regras rígidas de convivência. Coleguismo. Ética desportiva. Recolhimento. Meditação. Autocontrole. Respeito por quem está do outro lado. Uma verdadeira universidade que os prepara para viver dignamente, como cidadãos que quase sempre não sabem falar, mas sabem agir. Sabem ser quem são. E quase nunca renegam suas origens.
Temos preconceito desses atletas, porque não foram nossos colegas de faculdade; porque venceram pelo talento sem aprender gramática e raiz quadrada. Porque não foram modelados pela educação formal. Porque ganham mais do que nós, que não percebemos o quanto eles geram em recursos, movimentação financeira, patrocínios de produtos e marcas que eles fazem vender, somados às vendas de ingressos, audiências de rádio, televisão e web, circulação de impressos e influência nas bolsas de valores.
Os milhões que esses jogadores ganham honesta e merecidamente são centavos diante das fortunas dos seus patrocinadores e o sistema que os cerca. Esses, nunca são alvos de nossos protestos, a não ser no aspecto político-partidário, que de nossa parte é sempre questionável: Temos, invariavelmente, uma bandeira partidária que tentamos substituir pela que está no poder.
Quanto ao mais, não conheço nada, além da educação formal, que seja mais educativo do que o esporte. O esporte educa bem mais do que a própria arte, se compararmos o exemplo pessoal obrigatório do esportista com o do artista. O artista, por exemplo, se for sedentário, fumante, promíscuo, viciado em droga ou álcool, continuará artista. O atleta, não. Se ele quiser ser e permanecer atleta, não poderá jamais, ser um exemplo negativo em nenhum destes aspectos. E uma criança ou um adolescente, quando imita uma pessoa que admira, o faz na sua totalidade.
Quem está com o dinheiro do professor na sua conta pessoal não é o jogador de futebol. É o político corrupto deste país, em especial, que desconhece os políticos honestos. Quem nos rouba todos os dias não é o Neymar nem o Thiago Silva. Também não é o jogador de futebol que decide as alíquotas de impostos. Ele pode estar dentro deste sistema, como todos nós que compramos, vendemos e vivemos, mas não é ele quem decide.
Nós, educadores, merecemos ser muito mais valorizados; ter salários muito melhores; ter condições muito mais humanas, dignas e honestas de trabalho, mas nosso grito de basta e de protesto tem que ser por nós. Não contra o outro. Temos que lutar pelo que é nosso, sabedores de que esse tesouro é usurpado pelo poder público e pelos poderes econômicos que mandam neste pais e estão muito acima dos jogadores de futebol. Quero ter mais, sem desejar que nenhum deles tenha menos, pois isto seria possível se os poderes constituídos não estivessem inchados de corrupção e os grandes grupos econômicos não estivessem fechados com os tais poderes.
Porém, se mesmo assim queremos protestar contra os esportes, que tal se fôssemos menos elitistas e voltássemos nossos protestos contra a fórmula 1, o golfe e outros esportes de ricos que sempre foram ricos e cujas riquezas não sabemos de onde vieram?
BEIJO
Pra pedir um simples beijo,
noite afora sem dormir,
caminhei de bar em bar...
Satisfaça o meu desejo.
Você sabe que pedir
é melhor do que roubar.
POR NADA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O nada nunca existiu,
se nada vezes nada
ou sobre nada,
nada seria...
Nem haveria ninguém;
alguém me responda,
se for capaz,
e de boa fé...
Afinal nada é nada,
e nada mais...
é ou não é?
FÉRIAS EM MIM
Demétrio Sena
Volta e meia retomo este casulo
no qual volto a mexer nos meus segredos;
onde ovulo meus sonhos impossíveis
entre medos e algumas esperanças...
Neste fundo remexo em velhos dias,
fantasias guardadas na poeira,
em amores pendentes e marcados
destas nódoas eternas de presente...
Tiro férias, viajo para mim,
vou ao fim, ao começo de um afeto,
aos encantos erguidos e tombados...
Quando estou aqui dentro não me chamem;
apesar deste corpo, sou etéreo;
sou mistério fechado pra balanço...
VÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um vão
para onde todos vão...
Vai-se a brasa,
ficam casas, automóveis,
contas, câmbios e prestígios...
cinza e carvão.
Há um vão,
ninguém vai dizer que não...
Vai-se a chama,
ficam famas, nomeações,
convenções, troféus, comendas...
é sempre assim.
Será vão
desejar começo e meio,
mas querer também o freio...
lá no fim.
Lá no vão.
SONHO SOLO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se me deixo flagrar nesses desleixos,
nessas deixas de pouca cerimônia,
mas que têm no silêncio a sutileza
com que fujo da culpa recolhida...
É por ver nos teus olhos cautelosos
um passeio nas linhas do meu mapa,
quando escapa uma ilha em qualquer ponto
que não conto sequer pros meus poemas...
Mas prometo manter a fantasia
no meu mundo e na minha probidade,
pois a via de fato quebra encanto...
E me ponho na flor do meu lugar,
entre a cor e o perfume do meu sonho,
pois sonhar é viver nos meus limites...
FUNK AGRESTE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Vai descendo até o chão...
vai descendo... vai... vai...
vai descendo até o chão.
Finalmente a chuva desce,
brota o sonho, a planta cresce
no solo do sertão.
AMOR DE SÓTÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Gosto mais de você do que o meio permite;
calo todos os traços do meu rosto entregue;
dou à luz do grafite que reluz nos olhos,
uma sombra serena; sossego sem paz...
É um triste gostar que se acomoda e vive
do sorrir disfarçado e do mero estar perto,
rechear meu deserto, minha solidão,
de conversas distantes do que penso e sinto...
Fantasio, imagino, me dou em sigilo,
você nunca recebe, mas dou assim mesmo,
peço asilo em seus olhos e finjo ganhar...
Meu gostar de você fere laços formais;
gosto mais do que posso não gostar do quanto;
do que planto e sufoco esperanças estéreis...
CACOS DE ROTINA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Às vezes, o grande problema de se quebrar a rotina é fazê-lo de forma tão radical, que depois não haja como juntar e colar os cacos.
LIVRE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Seja livre. Livre o bastante para nunca precisar fugir de quem você é.
LEVEZA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Agora sou de algodão;
já fui de aço,
mas o peso do passo
me afundava
no próprio chão.
BRINCAR DE SEGUIR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Confesso: sonhei tudo que a vida me permitiu, e quase nada chegou às minhas mãos. Mesmo assim valeu a pena, considerando a ilusão de cada dia que me deu mais um dia para sonhar de novo.
Sempre fui de fazer excursões no pensamento e nunca, em toda minha vida, fiz o que não foi de vontade livre. Dei ao vento a mistura dos meus tons, impus meus traços e me fiz assim: do meu eterno faz-de-conta. Sou resultado indiscutível do que sonhei, com realizações ou não.
Neste momento, já deixei a bagagem. Minhas mãos estão livres, minha cabeça idem, meu sentimento é de que a vida me deixou no parque do por enquanto, e se diverte na minha diversão. Meu caminho deixou de ser viagem, para se postergar na preguiça de medir o destino.
Mesmo sem ter chegado a lugar algum, sinto a trajetória cumprida. Minha história dilata o meu limite, sem compromisso de até quando. Só me resta brincar de prosseguir.
PARA SEMPRE ALÉM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Com o tempo aprendi que meu saber é vago,
ele tem o sabor do que não trago em mim,
ou a força da farsa de qualquer vontade
que ficou na vontade; no querer profundo...
Só existe a certeza de que nada é certo,
ninguém fez o desenho do que tem que ser;
viverei de viver, pois nada mais importa;
nem a porta que oculta os segredos da vida...
A partir do presente o passado é raiz,
o que tenho guardado é pra manter quem sou,
ser feliz é caminho que requer seguir...
Aprendi a fazer esta prece ao meu tempo;
a dizer este amém que não dispensa o pé
nem as asas que chamam para sempre além...
JÁ GANHOU!
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Decisão de ganhar é perder o temor;
ter amor e vontade na medida exata;
ir ao céu é saber se conduzir no chão
e manter o motivo para prosseguir...
Já ganhou a partida quem entrou em campo,
quem venceu a preguiça e se atirou na vida,
viu que o tempo tem asas, o sonho decola,
como a bola do mundo é pra chutar pro gol...
Aprender a sorrir é vencer a tristeza;
é chorar com certeza da manhã seguinte
sobre a noite que a lua deixará pra trás...
Quem fez mais do que ver como tudo passou,
e bateu, apanhou, mas os fez com decência,
já ganhou de nascença; nem houve placar...
