Citações
Dente ciso
Demétrio Sena - Magé
Quero só me vencer; a mais ninguém;
mas não sei nem por onde começar;
ter alguém pra poder me dividir
pode ser o lugar da própria cura...
Só não posso eleger por minha conta;
intuir; atirar-me feito anzol;
ser aquela missão já pronta e posta
como sol que o deserto não pediu...
Ninguém vai acolher, tomar pra si,
qualquer drama tardio; sem aviso;
dente ciso na boca já completa...
Todos têm uma luta, o próprio luto,
outro duto engarrafa o labirinto;
como hei de vencer pedindo colo?
... ... ...
Respeite autorias. É lei
O sabiá sumiu de lá, o beija-flor, não sei cadê, será que a árvore onde eu brincava, o beija-flor, deixou morrer.
Eu sei que sozinho não posso consertar o mundo, mas posso ser aquela pessoa que sai por aí tentando.
Nem que eu tente, não sei ser minimalista. Minha história é um relicário, uma loja de móveis usados, onde tudo guarda um sentido, uma memória, uma cicatriz bonita do tempo. Cada coisa em mim já teve função, já foi abrigo, já pertenceu a outro instante. E talvez seja isso que me faz inteiro: não o espaço vazio, mas o excesso de vida guardada nas gavetas da alma.
Há um ruído antigo em mim — não sei se nasce do peito ou das paredes internas. Um som que pergunta, sem mover a boca, se minha presença é respiro ou incômodo. Não pergunto aos outros; pergunto ao silêncio. E ele sempre responde: depende.
Depende de quê?
Talvez da sombra que ainda carrego — essa que aprendeu a duvidar do que é oferecido com ternura, como se o afeto tivesse validade curta.
E não é por falta de amor; não faltou.
É que, em algum ponto sensível da minha história, aprendi que tudo pode virar silêncio sem aviso. Cresci assim: não desconfiado das pessoas, mas das marés. Meio alerta, meio cético, inteiro faminto do que é seguro.
Há em mim um eco que hesita diante do amor mais evidente — não por falta de provas, mas por excesso de memória. Uma parte minha vigia a porta mesmo quando não há perigo.
E o curioso é que eu sei que sou querido.
Mas há uma porção antiga — leal às dores que sobreviveram — que pergunta: “e se for só gentileza?”
Às vezes imagino que essa dúvida é um animal. Mora em mim. Cheira o amor antes de deixá-lo entrar. Rosna quando alguém chega perto demais — não por recusa, mas por medo de desmanchar.
E a cura?
Talvez seja deixar esse animal cansar.
Permitir que o amor chegue devagar, até o corpo entender que não é ameaça: é colo.
Ou aceitar que essa dúvida é profundidade — alguns de nós amam em camadas, e o afeto precisa atravessar labirintos para chegar ao centro.
E no meu centro existe um lugar que sempre soube que sou amado.
Mas às vezes ele cochila — e o mundo fica estrangeiro.
Basta um olhar verdadeiro para tudo despertar.
E eu lembro, mesmo que por instantes:
não estou sendo tolerado, há morada nos amores que me abraçam.
(“O lugar onde o amor cochila”)
Eu sei que por trás de uma foto,
ainda que seja inteligência artificial,
existe uma vida que merece respeito,
atenção e respeito total!
Não sei se o destino escreveu nossos nomes
na mesma página,
ou se o universo apenas cruzou
duas almas cansadas de procurar.
Só sei que, desde você,
o impossível deixou de ser lenda.
As bruxas passaram a existir,
as sereias deixaram de ser mitos,
e os feitiços ganharam o teu nome.
Porque há pessoas
que chegam como passagem.
Você chegou como permanência.
E, se um dia me perguntarem
qual foi o maior risco que corri,
não direi que foi amar.
Direi que foi encontrar alguém
capaz de transformar
o meu coração
na morada da própria alma.
Pois você continua sendo
o meu pensamento mais perigoso...
Não porque me destrói,
mas porque me faz acreditar
que existem encontros
que nenhuma explicação alcança.
Para: Bruxinha.
Cartografia do Teu Universo
Há qualquer coisa no teu olhar
que eu ainda não sei nomear,
como se o céu, distraído,
tivesse escolhido em ti morar.
Teus olhos guardam constelações
que não aparecem em nenhum mapa,
e eu, sem perceber,
me perco onde a tua luz escapa.
Há um silêncio na tua voz
que diz mais do que qualquer palavra,
um jeito de sorrir de canto
que desarma aquilo que eu guardava.
E o teu cheiro...
não sei se é perfume ou lembrança,
mas fica no ar depois que partes,
como uma promessa que não cansa.
Talvez seja isso que me encanta:
não saber exatamente o que acontece,
só sentir que, quando você chega,
alguma coisa em mim floresce.
Teu toque não precisa permanecer
para deixar seu caminho em mim;
há gestos que duram segundos
e, ainda assim, parecem não ter fim.
Se o universo tem seus mistérios,
talvez você seja um deles.
Porque quanto mais tento te entender,
mais bonito fica não saber.
E se algum dia me perguntarem
onde encontrei o meu lugar,
não direi teu nome.
Apenas apontarei para o céu
e deixarei o silêncio explicar.
Fome de Teu Mistério!
Não sei que nome dar
ao que acontece quando você chega,
se é vontade de ficar
ou uma fome que o peito carrega.
Porque eu não quero somente te olhar,
quero entender o que existe em você;
cada silêncio, cada jeito de falar,
cada pedaço que ninguém consegue ver.
Quero saber teus medos escondidos,
as histórias que ninguém ouviu,
os sonhos que moram adormecidos
no lugar onde teu coração se abriu.
Quero o teu riso sem pressa,
teu silêncio quando a palavra faltar,
essa parte de você que ninguém confessa,
mas que eu tenho vontade de desvendar.
Talvez seja por isso que eu te queira:
não pela beleza que os olhos podem ver,
mas pela parte mais verdadeira
que ainda existe atrás de você.
Há em mim uma fome delicada,
que não pede para possuir;
quer apenas chegar mais perto,
até aprender teu jeito de existir.
Quero te descobrir devagar,
como quem lê o mar sem conhecer a maré,
sem arrancar segredo algum do lugar,
apenas entendendo quem você é.
E talvez seja esse o meu perigo:
quanto mais descubro, mais quero saber.
Quanto mais perto eu chego de você,
mais distante parece estar o fim.
Porque você não é algo que se explica,
é algo que se sente antes de entender;
uma vontade que não se justifica,
uma fome bonita de conhecer.
E se um dia eu disser que te devoro,
não pense que quero te prender:
é que existe tanto de você que eu adoro
que meu coração quer aprender a te ler.
Inteira.
Sem pressa.
Sem tradução.
Até que o teu mistério
encontre morada
dentro da minha imaginação.
