Caminhar
A vida é uma maçã
Que às vezes
Tem gosto de limão
Viver é caminhar
E às vezes
Deparar com coisas
Espalhadas pelo chão
Coisas que guardávamos
Com tanta esperança
De ter sempre preservadas
Respeitadas
e talvez admiradas
pertinho do coração
Para poder sempre dividir
Como se fossem
Compotas de Maça
Palavras importantes
Para as quais não deram importância
Sonhos de criança
Sonhados hoje
Muitos anos após a infância
Esfacelados
Pisoteados
Simples palavras cultivadas
Massacradas
Por outras palavras
Infelizes e maledicentes
A vida poderia muito bem
Ser igual à uma maçã
E às vezes é
Mas tem gosto de limão.
Grande será o homem
Que acordar de madrugada
Caminhar à pé pela calçada
Atravessar a Avenida
Apressado
Sem nem ao menos
Olhar para os lados
Preocupado em ser homem
Maior será esse homem
Quando cedo despertar pra vida
E botar o pé na estrada
Atravessar os anos
Centrado
Em galgar o topo do mundo
Aprender a enxergar no escuro
E não olhar para o passado
Imenso será o homem
Que já nascer propenso
A pisar na Lua
Atravessar Universos
E olhar de frente pro Sol
Em prol da grandeza que há de vir
Determinado a ser um gigante
E saber todas as respostas
E apenas bom será o homem
Quando cedo aprender
A reconhecer cada medo que tem
Aceitando a própria imperfeição
Caminhar descalço quando preciso
Olhar pro chão quando andar na rua
Calar as respostas que conhece
Sem falso orgulho ou pretensão
Esquecer-se a si mesmo e ficar calado
Pois cedo aprendeu a entender a vida
E nada esperar deste mundo
Porque tudo um dia fica no passado.
Edson Ricardo Paiva.
Liberdade
Andar descalço ao entardecer
Caminhar no mesmo passo
Içar a vela
Perfume de outrora
Hoje é pranto de estrelas
Saudades são vagalumes
E sorrir sem vontade
Estrelas que brilham porque a luz mandou
Te parecem ser bem mais felizes
Navega perdida a verdade de agora
Só o tempo é livre
Arguto, ele passa sem te olhar
Calçar os sapatos, pisar diferente
Fui olhar a flor que foi bonita
Na leveza do vento
Como quem caminha lento agora
Gruda na roupa da gente uma luz de garoa
Uma gota a mais, transborda
Acorda tua eterna vontade
Não sabe de quê
Qual canoa se afasta a vagar
Essa estrada que se vive, ela tem fim
Não se pode segurar o tempo, ele não fica
Só que isso não significa
Ao tempo que ele seja livre.
Edson Ricardo Paiva.
Mais que o caminhar.
Pensar
Tirar pedaços
do espaço incompleto
Imaginar-me
Somente imaginar
Lembrar de todo faz de conta
Quando mesmo o próprio ar
Chegava a ser concreto
Em que a chuva no terraço
Era um laço com o poético
Toda espera era esperança
E que pensar na vida
Era viver sem precisar
Pensar na vida
Era somente imaginar
Sem questionar a distância de um passo
Mas a vida não era assim
Era a gente que era
E quando a chuva passa
Vem a hora da ciranda
Varanda inocente, gente rindo
A gente ria sem sequer lembrar
Tudo era graça
Era engraçado o querer esquecer
Do que nem tinha certeza
Seguir sempre e nem sempre saber
Que o caminho era importante
Mais que o caminhar até
Esse, o tempo o faz sozinho e à pé
Hoje, todo mundo tão repleto
Tudo tão completo de ares concretos
Esquecidos de pensar
Tá tudo em seu lugar, tá tudo certo
Tão certo quanto a gota d'agua
Que evapora na roseira
Quando a chuva passa
Certamente ela passa
Pois, não mais existe
Aquele lado imperfeito, poético
E todo mundo é cético a seu jeito
O velho contrato firmado
Perante o abstrato
É velho, é só isso
Vale o visto
Quem manda é a ciranda do tempo
E seu ar inocente
Um a um
Sem pensar, nos engolindo.
Lindo, veja:
Ela vem vindo!
Edson Ricardo Paiva.
... no sempre compensador,
embora dispendioso caminhar
consagrado a cada espírito,
não existirá um
mais aplicado mestre
ou eminente juiz,
que não seja ele
mesmo!
... no sempre
dispendioso, embora
compensador caminhar
consagrado a cada espírito,
não existirá um mais aplicado
mestre ou eminente juiz,
que não seja ele
mesmo!
... caminhar tão só
pelas cômodas 'beiradas da vida',
decerto nos manteria como uma infeliz e
tediosaincógnitade nós para nós mesmos;
vistoque, para o espírito - bemantesde
converter-sena maissingeladas poesias e,
assimserá -a'arte de viver',o enlaçará
num alentador eintérmino desafio,
pois muito terá por buscar e
revelar de si para
si mesmo!
Diz a filosofia do espírito
que muito será preciso caminhar
no intuito de alcançar aquilo que de nós
sempre esteve perto:
nossa essência interior!
E se a primeira razão desse teu caminhar
seja por mais sabedorias; a mais medular felicidade,
que inda mais caminhes; e,
desmedidamente!
No sempre dispendioso
mas compensador caminhar destinado a cada espírito,
não haverá um mais aplicado
mestre ou eminente juiz
que não seja ele
mesmo!
O que rouba nosso tempo e não nos deixa caminhar tranquilo, é a falta de caráter de outros... que continua a nos espezinhar.
Uma criança não aprende a caminhar se não levar vários tombos, assim é a vida. Não forcemos a chegada, façamos com que cada tombo seja um aprendizado para o perfeito caminhar. Não forcemos o amor antes de quebrarmos todas as amarras que nos impedem de conquistá-lo. Só seremos puros de coração quando compreendermos que para isso é necessário viver e destruir o negativo que existe em nós, que nos acompanha desde o momento que nos foi concedido o poder da inteligência.
Se a única segurança está no fim da jornada, o melhor trajeto até lá é caminhar entre o mais seguro e o menos inseguro dos paralelepípedos que calçam a estrada.
Passar pela vida sem se entregar ao êxtase de um amor desmedido é como caminhar por um campo florido sem jamais sentir o perfume das flores. A paixão é o fogo que aquece os dias frios, a tempestade que revira a alma e dá novo sentido ao que parecia tão comum.
Procure aquele alguém que desperte em você o desejo de ser melhor, que transforme cada olhar em poesia e cada toque em eternidade. Ame loucamente, como quem encontra o próprio destino nos braços de outro.
A vida, sem amor, é apenas sobrevivência. Mas com ele, é dança, é voo, é o arrepio de descobrir que o coração pode, sim, caber em outro peito. Ame sem medidas, sem medo e, acima de tudo, com a certeza de que a verdadeira loucura não está em se apaixonar, mas em deixar o amor passar sem viver sua magia.
Era uma vez um homem que acreditava caminhar só... não por falta de passos ao redor, mas porque havia se tornado prisioneiro de muros erguidos dentro de si. Vivia entre palavras guardadas, olhares desviados e silêncios pesados como correntes. Até que um dia, como um raio de sol que ousa atravessar as frestas da cela, apareceu ela: uma amiga que não se intimidava com o seu estranho jeito de existir.
Ela o chamou de amigo, mesmo quando ele dizia que não sabia ser. Disse que ficaria, mesmo que o mundo partisse. E prometeu que, se um dia os dois se encontrassem sós no destino, ficariam sozinhos... juntos.
Ele a questionou, como quem duvida da própria liberdade, e ela o respondeu com leveza, como quem não tem medo de cuidar... nem de se deixar ser cuidado. Entre perguntas e provocações, entre o medo do amor e a esperança do abrigo, os dois descobriram que talvez a verdadeira fuga da solidão não estivesse no mundo lá fora, mas nos olhos de quem vê a alma e ainda assim decide ficar.
E assim, entre prisões internas e promessas eternas, nasceu uma história onde dois corações, marcados por feridas, aprenderam que não há maior liberdade do que encontrar repouso um no outro.
E viveram... como sabem viver os que ainda acreditam no amor que se escreve devagar.
Prefiro caminhar com fome, do que sentar-me à mesa dos hipócritas. A solidão pode até doer; contudo, o banquete errado envenena a alma.
