Camilo jose cela

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Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem idéias, não vamos a parte nenhuma.

... e serenamente desejou estar cega também, atravessar a pele visível das coisas e passar para o lado de dentro delas, para a sua fulgurante e irremediável cegueira.

José Saramago
Ensaio sobre a cegueira

(...) o trabalho que deixou de ser o que havia sido, e nós, que só podemos ser o que fomos, de repente percebemos que já não somos necessários no mundo...

Eu entendo-me sempre melhor com uma mulher do que com um homem A conversa é sempre mais solta, mais descontraída. Eu acho que a relação com as mulheres é mais direta...

... acaso os lábios tocariam levemente a pele antes de encontrarem a água, e, sendo a sede muita, sofregamente iriam recolher no côncavo as últimas gotas, acordando assim, quem sabe, uma outra secura.

José Saramago
Ensaio sobre a cegueira

Quem casa com a cela, ganha pão.

Cada má consequência é uma carcereira, que nos conduz à cela na qual pagamos por cada escolha impensada.

crime na tela -
mordomo no cinema
acaba na cela!

"A Cela"



Refugiavam-se em arbustos
à procura de um rápido recomeço;
tentavam esquecer aqueles momentos
tão difíceis, tão sofridos
até que, de repente,
se deparavam com seus já tão conhecidos
e sórdidos fantasmas;
que logo lhes cuspiam à face
e lhes torturavam ali mesmo;
e logo lhes algemavam
e logo lhes jogavam no vão são do carro velho.
Passado um tempo
e, quando me dei por conta,
lá estavam eles,
todos os meus pensamentos;
trancafiados à luz daquela cela;
à luz da cela de meu interminável sofrimento.

Não há vida sem liberdade. Não se permanece sentado dentro da cela de uma cadeia quando a grade está aberta, apenas se diz adeus ao que passou e se dá um passo à frente.

Políticos fora da cela
Verdadeiros santos na minha tela
Encenam Franciscos da humildade
Em missões astrais
Para mudar nossa realidade

Álibi


Cortina de seda e de renda
estampada e dourada,
moldura de cela
com grades e janelas,
guardando em sepulcro
uma imensidão de vidas roubadas.

Quadrado fechado
sem claraboia
ou paredes laterais.

Corpo caído ao léu
cansado.
No céu que é chão
deitado sozinho,
na cama que é céu
delirante de febre.

Da escrita que é túnel pra fuga de dentro de si
pra escapar dos golpes da sorte
da vida severa daqui.

Espelho quebrado
na serena noite
que traz-me os sonhos,
e a luz que agora vejo
no escuro
que ilumina-me os olhos.

Do peito ferido e aberto
das sombras e vozes que atormentam o dia
das lágrimas caídas dos olhos e que hão de secar um dia.

Agoniza uma alma
Numa fria cela confinada
De grades de ferro
De uma rainha sem trono
Sem coração
Sem dono
Isolada num quarto frio
Onde habita
Com lágrimas
Soltas amordaçadas
Grito
Grito de quem desespera
Sangue do corpo
Onde a alma quer partir
Encontrar um abrigo
Ser livre
Sem estar comigo
Nas águas de um rio
Que reza
Caminha descalça
Vagueia sem fim
Com seu corpo desnudado
Tem frio mas não tem abrigo
Tudo nela está ausente
Treme na pele de quem já não sente
Cada lágrima cai na alma
Vive em efêmeros sentimentos
No fim veremos escrito
Na lápide da sua sepultura
jaz aqui uma rainha sem coroa
amada e desejada por todos!

Abro o livro como quem abre uma cela
e a gramática entra com chaves de prata.
"Existo", diz o guarda. Eu assinto e, sem notar,
já aceitei que existir é estado.


Pergunta primeira, feita em voz de ponte:
quem fala quando digo "eu"?
Ato que cintila ou coisa que permanece?
Nomear é pôr moldura onde só há clarão.


Repito: penso.
E o verbo, inquieto, não se deita em camas de mármore.
Ele passa. Ele acontece.
O sujeito que o monta é aparição, não peça de museu.


No jogo de linguagem, a regra é simples e feroz:
"existir" cobra documentos de continuidade,
pedem-se sinais de reidentificação,
pedem-se cicatrizes que atravessem anos.


Mas o pensar não traz carteira;
traz pulso.
A cada batida ele inaugura um quem,
um rosto-em-ato que se desarma com o próprio eco.


Olha a armadilha:
quando digo "existo" após "penso",
troco o brilho pelo bloco,
confundo faísca com minério.


Se existir é ser algo, dize que algo és sem congelar o rio.
Dize quem retorna intacto do atravessamento.
A palavra "eu" acena, mas não garante o passageiro;
é índice, não monumento.


Releio e o leitor que sou me contradiz com elegância:
cada leitura me inventa um autor anterior.
Logo, o eu que decide entender é posterior ao entendimento,
e o entendimento, anterior ao eu que o celebra.


A gramática faz truques.
Transforma atos em estados, eventos em essências.
É ventríloqua do ser:
põe voz de mármore no que é água.


Heráclito entra, enxuto:
o nome é margem, o ser é curso.
Quem bebe duas vezes no mesmo "eu"?
Quem devolve a gota ao desenho antigo?


Então aperfeiçoo o silogismo como quem desarma um dispositivo:
se penso, há presença sem propriedade,
há comparecimento do sujeito-em-ato,
há luz que não promete estátua.


Daqui não se segue substância,
segue cena.
Não se prova o dono, prova-se o surgimento.
O cogito é bilhete de entrada, não escritura do terreno.


E se me pedem definibilidade, aponto o necrotério das narrativas:
o corpo já cessou, logo o relato pode fixá-lo.
No arquivo, sim, há estados;
na vida, há verbos.


Portanto, conduzo-te pelo corredor das palavras
até a célula onde "existo" queria trancar o ato.
Abro a porta pelo lado do uso e deixo o ar entrar:
o que havia ali era só o brilho do acontecimento.


Conclusão, escrita na água com letra firme:
penso, logo apareço.
Sou em ato, não como estado.
Cogito, ergo fluo.


– Daniel A. K. Müller

⁠É como se meu corpo fosse uma prisão e meu coração é o preso batendo nas grades da cela querendo sair.

Teu corpo é uma cela trancada, mas minha mente tem a chave...

A autolimitação é uma cela imperceptível gerada pelas circunstâncias cotidianas, que nos leva prisão da essência e o cárcere da alma!⁠

A verdadeira prisão não é a cela, mas a culpa e a incerteza de quem vive na ilegalidade.

A assistência social deveria ser um trampolim, mas muitos a transformam em uma cela de dependência.

"A pobreza de cabeça é uma cela sem grades; o pensamento de Isaque Ramon é a chave que entende que a humildade não é pensar menos de si mesmo, mas pensar menos em si mesmo e mais no legado."