Tiago Scheimann
O homem não teme verdadeiramente o fim, teme descobrir, nos últimos instantes, que viveu sustentando certezas emprestadas.
Há pensamentos que não procuram respostas. Permanecem vivos apenas para impedir que a alma adormeça na confortável mentira da tranquilidade.
“Se qualquer ser vivo fosse condenado a sentir, por um breve instante, apenas um terço da dor que habita em mim, talvez finalmente compreendesse que existem sofrimentos que não cabem em palavras, lágrimas ou gritos. Uma dor que não sangra por fora, mas apodrece lentamente tudo aquilo que ainda insiste em permanecer vivo por dentro.
O que carrego não é apenas tristeza. É um abismo sem fundo, uma escuridão que aprendeu meu nome e fez morada na minha essência. É acordar todos os dias carregando dentro do peito algo que, para qualquer outro, seria insuportável até por alguns minutos.
Talvez, depois de sentir apenas uma fração dessa dor, qualquer ser implorasse por um instante de silêncio dentro da própria existência. E então compreenderia que há sofrimentos tão profundos que não pedem compreensão — apenas o fim daquilo que os faz doer.”
Tiago Scheimann
O tempo não caminha sobre nós como um rio. Ele nos esculpe como o mar corrói uma pedra: lentamente, sem piedade e sem testemunhas.
Existem feridas cuja maior crueldade não é a dor que provocam, mas a lucidez que deixam como herança.
A maturidade talvez seja apenas o instante em que compreendemos que nenhuma conquista consegue negociar com a transitoriedade.
O destino raramente nos destrói de uma só vez, prefere a crueldade discreta das pequenas perdas, aquelas que chegam sem ruído e, quando percebemos, já nos roubaram quase tudo.
Quanto mais profundamente um homem contempla a realidade, menor se torna sua necessidade de convencer os outros sobre aquilo que viu.
A memória possui uma fidelidade seletiva: esquece os dias comuns e eterniza exatamente aqueles dos quais gostaríamos de escapar.
Nenhuma solidão é tão brutal quanto a de quem vê as próprias ilusões apodrecerem por dentro e, sem ter para onde fugir, é condenado a habitar o cadáver daquilo que um dia o manteve vivo.
A vida nos ensina, com delicada brutalidade, que toda permanência é apenas uma despedida cuja data ainda desconhecemos.
O pensamento se torna mais pesado quando percebe que o universo jamais sentiu a obrigação de fazer sentido para quem o observa.
Talvez a forma mais insidiosa do sofrimento seja continuar acreditando na beleza, mesmo depois de testemunhar, repetidas vezes, a crueldade do mundo.
Vejo uma infância difícil, genitores que raramente o entendiam, provações que uma criança jamais deveria passar. Muitas vezes pareceu forte, mas, por dentro, tudo ao redor estava corroído, apodrecido pelo abandono.
Esse é o reflexo no espelho: a criança que aprendeu cedo demais a suportar aquilo que não compreendia, o homem que dela nasceu sem jamais se libertar inteiramente.
Há coisas que o tempo não cura; apenas ensina a carregar.
O homem passa a vida inteira tentando vencer o tempo, sem perceber que, a cada segundo, é o próprio tempo que lhe arranca pedaços. Até que um dia entende, tarde demais, que nunca esteve lutando contra o relógio, estava apenas sendo lentamente transformado em lembrança.
O peso da consciência não está naquilo que ela revela, mas na impossibilidade de voltar a ignorar o que foi revelado.
Escrever é aceitar que certas inquietações jamais encontrarão repouso e, ainda assim, oferecer-lhes um lugar digno para permanecer.
A condição humana talvez se resuma a isto: caminhar entre o desejo de compreender o infinito e a inevitável limitação de uma vida demasiadamente breve para alcançá-lo.
A maturidade começa quando deixamos de perguntar por que sofremos e passamos a perguntar por que imaginávamos estar isentos do sofrimento.
A consciência é o único horizonte que se expande à medida que destrói as paisagens onde antes encontrávamos abrigo.
O universo jamais prometeu significado. Foi o homem quem transformou sua necessidade de sentido em uma exigência dirigida ao infinito.
