Tiago Scheimann
Minha infância foi difícil. A fada do dente arrancava meus dentes sem anestesia e ainda roubava meu dinheiro.
Em certos dias, estar vivo é apenas sustentar a consciência de que o mundo segue enquanto minha alma negocia com o próprio eco.
A solidão não me roubou; ela retirou o excesso de vozes até sobrar a pergunta que realmente importava.
Talvez viver seja isso: aprender a caminhar acompanhado pelo próprio enigma, sem exigir que a estrada explique o destino.
O desamparo é menos cruel quando aceito que nenhuma existência se resolve sem uma boa medida de incerteza.
Habito um labirinto estreito e obscuro, uma mente feita de escombros. Há um cheiro persistente de esquecimento no ar e o gosto áspero de ferrugem na boca. Um lugar maldito, confuso, que consome quem entra. Mas é sob o peso dessa escuridão que minhas epifanias sangram. Eu pertenço a essa ruína.
Minha mente é uma casa velha, em ruínas, com portas trancadas por fora. Nos dias escuros, o teto cede e as paredes mofadas se fecham sobre mim. Divido o espaço com fantasmas que sussurram traumas passados; o medo é o ar que respiro, a fome é uma ferida aberta que nunca sela. É um isolamento pavoroso, um cativeiro assombrado. Mas quando o pânico me paralisa e a escuridão é total, o assoalho racha. Como uma fresta de luz que corta o sótão esquecido, as epifanias rasgam o pavor. Uma lucidez violenta, fria, que ilumina as assombrações. Eu morro de medo aqui dentro, mas decifro cada cicatriz. Esta casa condenada é o meu lar.
- Tiago Scheimann
Passei anos tentando decifrar a vida como um problema matemático, até descobrir que as equações mais difíceis eram aquelas escritas pelas ausências que deixaram cicatrizes em meu peito.
Há pessoas que partem da nossa vida, outras permanecem para sempre, mesmo depois de irem embora, assombrando os cômodos vazios da memória.
Voltar ao começo não é caminhar para trás. É ter coragem de encontrar, entre os escombros, a versão de nós mesmos que ficou esperando para ser amada.
O arrependimento é uma espécie de fantasma: não grita, não corre, não ameaça. Apenas senta ao nosso lado nas madrugadas e nos obriga a lembrar.
Quanto mais contemplo a imensidão do universo, mais me assombra o fato de que Deus ainda encontre espaço para habitar um coração tão ferido quanto o meu.
Quando finalmente eu contemplar a face de Cristo, acredito que entenderei que cada lágrima que derramei na terra jamais caiu fora das mãos de Deus.
Minha epifania não veio como luz.
Veio como uma porta que se abriu apenas para revelar outra fechada atrás dela.
Por alguns instantes, acreditei que a vida finalmente havia decidido me surpreender com gentileza. A notícia chegou como quem devolve o ar aos pulmões de alguém que estava se afogando. Sorri. Acreditei. Permiti-me imaginar possibilidades que eu havia enterrado há muito tempo.
Mas algumas esperanças são frágeis demais para sobreviver à verdade.
Então veio a segunda notícia.
E com ela, a compreensão cruel de que aquilo que parecia uma bênção era apenas um erro. Um equívoco. Uma felicidade enviada ao destinatário errado.
Minha epifania foi perceber que, às vezes, a pior notícia não é aquela que chega trazendo dor. É aquela que primeiro chega trazendo esperança.
Porque a dor machuca.
Mas a esperança, quando é arrancada das mãos, leva junto pedaços de nós que nem sabíamos que ainda estavam vivos.
- Tiago Scheimann
Descobri tarde demais que a liberdade não era um presente.
Era uma sentença.
Ninguém me empurrou para os erros que carrego.
Ninguém escolheu por mim os caminhos que me quebraram.
A vida apenas colocou as portas diante de mim e observou, em silêncio, enquanto eu escolhia qual delas me destruiria.
- Tiago Scheimann
Passei anos procurando um sentido para a minha dor.
Depois compreendi algo ainda mais triste:
Talvez o sentido nunca tenha existido.
Talvez sejamos apenas viajantes tentando convencer a nós mesmos de que a estrada leva a algum lugar, porque admitir o contrário seria pesado demais para suportar.
- Tiago Scheimann
A pior solidão não é estar sozinho.
É perceber que ninguém jamais visitará os lugares onde você mais sofreu.
As pessoas conhecem seu rosto.
Conhecem sua voz.
Conhecem sua história resumida.
Mas existem corredores inteiros de escuridão dentro de você que permanecerão desconhecidos até o último dia.
- Tiago Scheimann
Às vezes olho para trás e não sinto saudade de quem eu era. Sinto pena. Pena daquele homem que acreditava que a dor tinha um propósito, sem saber que algumas feridas simplesmente acontecem, permanecem e envelhecem conosco.
Existe uma tristeza que nem as lágrimas conseguem alcançar.
Ela não grita.
Não quebra nada.
Não pede ajuda.
Apenas se senta em silêncio ao seu lado e passa a morar ali, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.
- Tiago Scheimann
Minha maior epifania foi perceber que eu não corria de volta ao passado para corrigir meus erros; eu corria para abraçar o menino que ficou perdido lá, acreditando que nunca seria suficiente para ninguém.
Algumas despedidas não terminam quando a porta se fecha; continuam acontecendo dentro de nós por anos, em silêncio, como um inverno que se recusa a partir.
Passei tanto tempo construindo muralhas contra a dor que, quando o amor finalmente chegou, encontrou apenas ruínas e portas enferrujadas.
A tragédia de algumas vidas não está no abandono que sofreram, mas na incapacidade de acreditar que ainda podem ser escolhidas.
Existem feridas que não querem ser curadas; querem apenas que alguém reconheça que elas existiram e que doeram mais do que as palavras conseguem contar.
O coração é um lugar estranho: transforma lembranças em eternidades e faz uma única ausência pesar mais do que a presença de mil pessoas.
