Tiago Scheimann
Transformei minhas fragilidades em tinta para que a dor não fosse apenas sofrimento. Entre a lembrança e a fé, entre a queda e a permanência, fui aprendendo que algumas cicatrizes não pedem cura, pedem significado.
Escrevo como quem acende uma vela em meio à tempestade: não para expulsar toda a escuridão, mas para provar que, mesmo ferida, a alma ainda é capaz de produzir luz.
Sou feito de memórias que não passaram, de orações que ninguém ouviu e de batalhas que quase ninguém viu. Talvez por isso minhas palavras carreguem o peso sereno de quem aprendeu a transformar
A dor não me visitou para me quebrar, veio para me ensinar a reconhecer, no que sangra, a única verdade que não sabe mentir.
Há tristezas que não pedem consolo, apenas uma cadeira vazia e o respeito de quem aprendeu a ouvir o próprio ruído interno.
Eu conheço a melancolia pelo modo como ela acende as coisas simples: uma xícara, uma janela, um nome antigo, e tudo passa a doer com elegância.
A tristeza mais funda não faz alarde, ela se senta ao lado da alma e a convence de que o silêncio também é um idioma.
Há dores que não procuram resposta, porque a pergunta já é a resposta: continuamos vivos, mesmo depois do que nos diminuiu.
Minha melancolia não é desistência, é o modo que encontrei de olhar o abismo sem negociar minha humanidade.
O sofrimento, quando não me destrói, me afina, ele remove excessos e deixa exposta a nota grave que sempre esteve escondida.
Carrego dias quebrados como quem leva vidro no bolso: com cuidado, com medo e com a estranha gratidão de ainda sentir o peso das coisas.
Há um tipo de tristeza que não afunda: ela paira, pesada, sobre a rotina, transformando o banal em lembrança de naufrágio.
O que me fere não é apenas perder, mas descobrir que parte de mim já havia se despedido antes de eu perceber.
A melancolia é uma janela aberta por dentro, o vento entra, desarruma tudo e, ainda assim, deixa o quarto menos morto.
Existem dias em que o coração não quebra, apenas se torna mais nítido, e essa nitidez dói como luz em olhos cansados.
Aprendi que a dor não pede licença para existir; ela entra, rearranja a casa e, se eu sobreviver, ainda me obriga a agradecer pela mobília que restou.
A solidão é a sala onde o mundo tira a máscara e me obriga a descobrir se existe alguém em mim além da voz que os outros ouviram.
Quando ninguém me espera, o tempo perde sua educação e mostra que a existência não tem plateia, tem apenas presença.
Há solidões que não expulsam, apenas iluminam o contorno exato daquilo que eu nunca tive coragem de admitir.
O vazio não me assusta quando o reconheço, o que me apavora é a tentativa de preenchê-lo com qualquer coisa que não seja verdade.
Fui me encontrando nas horas em que ninguém me aplaudia, porque a vida, sem espectadores, revela a textura do que sou.
O homem se perde com mais facilidade quando tenta ser espelho para os outros e se esquece de ser casa para si.
