tadeumemoria
NORMA X MARILYN
Nada me fará entender porque
Possivelmente, provavelmente
Antes que se faça breve e claro,
Tênue e frágil, soluçará angustiado
A frustração inoportuna
De estar explícita a solidão;
Mas não é bem assim,
Direi que a noite está em mim
E solitude é a atitude de querer achar-se só;
Mas não achar-se, como se chama
Esta chama morna,
Norma Jeane explicaria
A beleza de um desencanto
Com um sorriso encantador;
Nem é tão complicado se sábado é sábado
Segunda é sábado, Norma era segunda,
Marilyn domingo, o que era belo, era belo,
O que era lindo, era lindo
Mas no fundo do seu olhar
Algo inquisitivo questionaria:
"Que dia é amanhã?"
VERSOS
VERSOS
Hoje tenho versos porque já tive ternura
E se tenho solidão porque já tive amores
E as dores que tenho são dores de prazeres antigos
E se sonho porque tenho esperança;
E o resto...porque já tive bastante,
E o antes... muito antes se o tive...
Hoje tenho experiência
E a ciência da vida é estar ciente dos seus limites
E limites sempre os tive, por isso sempre me contive
Mas ainda um pássaro gorjeia,
Uma fogueira aquece, a luz encandeia
Meia noite e meia, quando não é hoje nem ontem
E se o hoje não é hoje, só por hoje eu serei eu mesmo
E amanhã... se houver amanhã
Fique certo, se não tiver os abraços e os beijos
Com gostinho de hortelã, terei a solitude e muitos versos...
AMOR
Deixa eu te dizer que o amor é lindo
É como a tarde dourando o firmamento
E a poesia canta os passarinhos a gorjear fogosos
Ah! o amor é tão lindo, que eu prometo eterno
O mais terno amor e se for triste
Porque triste é o amor, infinito será
Porque amor é assim assim...
Te direi todas as manhãs
Quando abrirem-se as rosas húmidas de orvalhos...
E as cambaxirras cantarem
Os primeiros raios do alvorecer
Porque no alvorecer o amor se expressa
Então entenda que os seres viventes,
As águas, o vento, o fôlego
Que conserva e harmoniza essa vida
Só é possível porque existe o amor
Milputasiuma é capital de Hamilputápolis que tem Cornópolis e Piranhópolis como seus maiores municípios; Vagabundagenhense é um de seus bairros; no centro da capital muitos bares e bordeis onde se ouve músicas bregas num volume alto, mulheres com maquiagens carregadas, trajando saias muito curtas e decotes exagerados, ingerem bebidas alcoólicas com olhares perdidos na abstração de suas vidas miseráveis. nas praças elas fumam suas ansiedades e confidenciam seus descaminhos que lhes conduziram às drogas e a prostituição.
Vagabundagenhense tem como pilar o tráfico que alimenta a prostituição e recruta jovens adolescentes para a vida do crime; tudo decorre numa total normalidade e por conta de guerras entre facções, jovens são executados muitas vezes por estarem em lugares errados na hora errada; repito, tudo dentro da maior normalidade.
Mas tudo Isso é ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
Aonde iremos quando só lembranças festejarem os sentimentos
e o maior significado de viver se perde nos mínimos detalhes do passado?
poderei sonhar, sempre poderei sonhar perdido na imensidão das estrelas
e do mundo misterioso que elas nos intui. Suas belezas refratárias tornam profícua
a imaginação e mais que esse fascínio, só, e singularmente
a solitude deste vulto poético. Então antes que nossos olhares lânguidos
se percam nos labirintos do passado, vasculho um pretexto, qualquer desejo
que ficou implícito nos desvarios das emoções; a ordem das coisas muda, tudo muda de ordem mas a ordem dos fatores não altera o produto... haverá um momento... mesmo por alguns instantes, uma sensação de perda, um olhar...uma atitude que era uma mensagem mas não foi percebida e ficou perdida; então sob as estrelas, sob os signos e os mistérios, o magnetismo que harmoniza... parece que a noite e a capacidade de ver de novo é um paliativo... tudo torna-se mais brando e assimilamos os golpes mais duros, as acusações, os dedos em ristes, as palavras ásperas... então eu questiono: quando só lembranças festejarem os sentimentos e o maior significado de viver se perde nos mínimos detalhes do passado, aonde iremos? onde quer que formos teremos nossos corações sobre nossas cabeças, os sentimentos a fazer pulsá-los, o mistério e o cintilar das estrelas sobre o firmamento e a nossa única e grande certeza: a inabalável capacidade de recomeçar.
Provavelmente, ela vivia num jardim a contemplar as flores , a acariciá-las, e, entre um suspiro e outro, algumas confidências; isso mesmo, tinha certeza que lhe falaria do seu fascínio pelas luzes da manhã, aqueles primeiros raios que despontavam antes do corpo solar; que refletiam no espelho de um lago, na lâmina de um rio ou verdejavam sobre alguma floresta. Talvez caminhasse a beira de uma praia solitária como uma recém-nascida manhã pudesse; imaginando um conto, uma história bonita que contaria pra alguém com certa graça, acrescentando algum humor ou drama, uma pequena mentira que só embelezaria o que já fosse belo. Por certo era uma imaginação fértil e caminharia por um cemitério imaginando que todos que cruzassem consigo já tinham morrido e não olharia pra trás com medo de ter essa certeza. Talvez fosse assim, alguém eloquente a quem todos esperariam silenciosos afim de ouvir algo interessanre; e se calasse o suspense do silencio cairia todo sobre si mesmo. quiçá às madrugadas imaginasse sonetos trágicos de paixões insanas; essas loucuras do cotidiano que acabam nas manchetes dos programas policiais, ou luxurias inconfessáveis que passariam por sua cabeça nalgum desejo secreto que jamais revelaria.
Algum dia apareceria com os traços ordinários como os de qualquer ser vivente, uma timidez simplória dos seres limitados; voz pausada, própria dos que pensam muito, ou dos que não têm muita certeza do que vão dizer; e aquele ser divino interior em pura ebulição ali no peito, transpirava, sussurrava, suspirava e tinha as mesmas carências, os mesmos medos e inseguranças; aquele ser capaz de todas as loucuras, todos os pecados e todos os perdões por paixão e por amor deixaria de ser só uma miragem nos meus delírios...
algum dia me falaram em lucidez insana,
em insensatez sensata,
nunca entendi, jamais entenderia;
eu colhia pétalas de estrelas
que caiam no terreno baldio na frente da minha casa,
a boca roxa de jamelões ou a língua azeda de tamarindo
que as safras me proporcionavam além da cerca de arame farpado;
eu ainda não tinha sonhos,
eu tinha a leveza das pipas e o mistério dos piões
e percebia o calor e as matizes da manhã,
extasiado com esses milagres sem perceber os seus efeitos,
mas para isso eu tinha os amendoins torrados ou confeitados,
tangerinas nas portas das quitandas
como um adorno mágico e perfumoso aos dias da minha adolescência.
Não se fazia projeto para a felicidade;
a felicidade estava nos sorrisos e nos olhares,
nas canções românticas que cantavam o amor
nas radiadoras das periferias, que alimentavam os sonhos
e a necessidade de sonhar; então eu sorria fácil
perdido nas divagações da minha mente,
leve e encantado com as cores dos balões
e o rebuliço aconchegante das feiras livres do meu bairro;
sua gente de olhares meigos e risos fáceis
nas manhãs luminosas que clareavam
os dias da minha adolescência e acalantavam os sonhos da minha vida
Na adolescência eu era um anjo triste
Desses que perambulam,
que caem, que existem
melancólicos, sonhadores,cinzentos
Como os finais de tardes dos dias invernosos
A minha solidão respingava nas vidraças
Como a neblina fria jogada pelo vento
Que doía fundo na minha carapaça
E a minha angústia,
a dor daquele sentimento
A solidão de me sentir sozinho
Não era solitária, era uma multidão
E como cada um faz seu rumo, seu destino
De fazer da multidão, a sua poesia
Aquele garoto triste um dia teve o tino
PROCISSÃO
Quando eu não tiver nada ainda terei as palavras
Terei o silencio e a virtude de saber não possuir
E as minhas palavras dar-se-ão as mãos
Numa ciranda a cantar poemas a edificar a solidão
E a minha solidão povoa,
Pavão, pavoa, encantos, penas e cantos
Leitos, lagoas, embarcação, canoas
Uma procissão, uma novena,
Meu verso vai de Tóquio a Cartagena
Porque minhalma não é pequena,
Minha estrofe é forte e minha verdade serena
E o meu silencio não dói; não dói quando passa a tarde
Quando passa o rio, quando passa o vento,
O meu silencio só dói quando passa o sentimento
VILA-VELHA
De madrugada um atrito,
detritos no beco,
no gueto zumbidos
paredes e dez mil ouvidos
viver sonhando não posso
meus ossos estão doloridos,
meus olhos estão diluídos
sonho sim, devia não sonhar assim
mas a nave me pega
a ave me eleva, ave Maria...
haveria alguma possibilidade
de não haver um AVC,
ave Cesar, avença,
avestruz, avestruzes,
arre égua, arre ema
minhas plantações de milho e mastruz
avenca, cabelo-de-anjo,
cabelo-de-vênus,
crisântemos, acácias. lírios,
as vespas visitam
os cálices por todo o jardim
às vésperas do fim
have you ever seen the rain
no nordeste não é assim,
alimentamos mais o espírito com a fome
e mais a alma com o que nos consome
mas guardamos sorrisos
de grandes invernos,
fartura de ternuras e abraços
que exercitam os nossos membros
e tornam fortes os nossos braços
você já viu o arco-íris
have you ever seen the rain
no olhar, na íris de alguém
mais belo que uma mulher despida,
só uma mulher despida na horizontal;
mais belo que uma mulher despida na horizontal,
só uma mulher vestida na vertical;
pois nada é mais belo que o prazer de despi-la e deitá-la
PARAGENS
Boa noite, amor!
Se a noite for boa pra você...
Se for noite nas suas paragens
Não sei por onde você anda
Nunca mais um olá, uma mensagem...
Mas assim é a vida,
Uns passam, outros ficam...
Acho que fiquei
E aqui nessa periferia
Município de Melancolia,
Distrito de Saudade...
Passava um sorriso doce
Um olhar tão meigo que me fazia sonhar
Com tudo e muito mais
Com um lugar tão doce
Que tinha a meiguice de felicidade
Agora eu moro no estado do nunca
Que faz fronteira com quiçá,
Muito próximo das cercanias do jamais
EU VI
eu vi um homem que não era mais homem
e tinha um olhar que não era mais seu
e tinha a ausência de todos os fantasmas
e tinha a asma de todos os gatos
e tinha os mistérios dos cemitérios
a pele morta, sem vida,
dentes sem precedentes
um odor inconcebível;
não era mais um ser vivente,
por mais que parecesse gente,
não era um cachorro,
os cachorros são felizes e são gratos,
os gatos têm orgulho,
era maior que um rato em tamanho,
mas revirava o lixo
com a ânsia desse bicho
eu vi um homem que não era mais homem
ou vi um bicho que não era mais bicho
O OUTRO LADO
DO PARAÍSO
os anjos se tocam,
os medíocres se amontoam
e os maus conspiram
os anjos se olham
os medíocres se comparam
e os maus se medem
os anjos se percebem,
os medíocres se esbarram
e os maus se matam
Não queira ser poeta todos os dias
Seja poeta um dia
no outro seja a poesia...
Não queira ser feliz todos os dias
Seja feliz um dia
no outro seja você mesmo.
Eu fiz um samba tão triste
que quando saiu minha escola
desabou um temporal
chuva, vento e trovoada
e a minha batucada
parecia um berimbau
a letra do samba enredo
citava mistérios e segredos
de um sobrenatural
sob o frio tive medo
tremi voz, pernas e dedos
suei frio e passei mal
eu tenho um olhar
somente um olhar
na manhã a passar na calçada
e os sonhos que eu tive
de um dia sonhar com a manhã
já passaram
ficou meu olhar
a olhar
o olhar da manhã a passar
ASQUEROSOS...
Um homem não é um bicho;
um homem tem que amar,
se apaixonar, sonhar, ter um ideal;
e dentro desse ideal deve estar pautado
uma comunidade digna, uma sociedade capaz.
Um homem não pode vender sua consciência
e se tornar um corrupto
como um tumor maligno que mata uma nação.
