Sofia Pereira

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Eu vi.
Bem de longe, mas vi.

A sombra cansada,
o corpo fraco de lutar.

Vês o mundo
com olhos para os outros.

Mas quem vê o teu?

Vive em mim
uma vontade quieta de te reencontrar.

Não te procuro.
Mas há em mim
qualquer coisa que ainda te deseja,
profundamente.

Seria mentira dizer
que já não tens efeito em mim.

Talvez a verdadeira ilusão
tenha sido pensar
que deixarias de ter.

Inserida por sofiar_pereira

Passei demasiado tempo
à porta de uma casa
que juravas estar a construir.

Levei comigo
paciência,
planos,
amor.

Nunca quis paredes perfeitas.

Só queria sentir
que não era a única
a tentar fazer dali
um lugar para ficar.

Mas há promessas
que, de tanto serem repetidas,
deixam de parecer futuro.

E começam a parecer ausência.

Um dia percebi
que já não estava à espera
que mudasses.

Estava apenas cansada
de esperar por alguém
que só existia
nas coisas que prometias ser.

Eu vi

Eu vi.
Bem de longe, mas vi.

A sombra cansada,
o corpo fraco de lutar,
o peso escondido
na forma de continuar.

Não perguntei.
Não era o meu lugar.

Há distâncias
que também são uma forma de cuidado.

Mas vi.

Vi-te olhar o mundo
com olhos para os outros,
guardar palavras,
amparar silêncios,
deixar um pouco de ti
em quem precisava.

E pensei:

quem vê os teus?

Quem repara
quando o sorriso pesa,
quando o corpo pede descanso
e tu continuas?

Talvez nunca saibas
quantas pessoas levam consigo
um pouco da tua bondade.

Talvez quem cuida
raramente veja
até onde chega o cuidado.

Mas chega.

E se algum dia
o mundo te pesar demasiado,
não precisas de me contar o mundo.

Fala-me de elefantes.
De paredes.
Do tempo.
De coisa nenhuma.

Ou não fales.

Há silêncios
que também sabem ficar.

Não te escrevo para salvar-te.
Nem saberia como.

Só para que,
entre tantos olhos
que ensinaste a olhar para dentro,

saibas que houve uns,
bem de longe,

que olharam para ti.

E viram.

Hoje estás perto
e eu preferia que não estivesses.
Não porque não queira ver-te.
Esse é exatamente o problema.
Eu quero.
Quero olhar para ti,
falar contigo,
saber como estás.
Mas não vou.
Hoje passei por ti
e continuei.
Respirei,
não olhei,
não fiz nada para que reparasses em mim.
E custou-me mais do que devia.
Na sexta disseram-me que estavas aqui
e deu-me vontade de chorar.
Agora sei porquê.
Não foi porque estavas aqui.
Foi porque estavas aqui
e não me procuraste.
Eu sei que não tens de o fazer.
Não me deves nada.
Nunca me deves nada.
Eu só gostava
que tivesses querido.
Então vou evitar-te,
não para sentires a minha falta,
não para reparares,
mas porque neste momento
a distância dá-me paz.
Ainda te quero perto.
Só estou a aprender
que fico melhor longe

Eu senti-te.

No calor do teu corpo,
nas mãos que demoravam nas minhas,
na forma como os teus olhos,
cor de mel ao sol,
pareciam sempre procurar os meus.

Durante uns dias,
achei que também me tinhas sentido.

Depois veio a distância
e, com ela, a dúvida:

se aquele mel era para mim
ou se eu apenas o provei
quando já pertencia a outra pessoa.

Havia música na cozinha,
panelas ao lume,
e um homem que ria alto
como se a vida não lhe pesasse.

Tinha fortuna nas mãos,
mas talvez tempestades na alma.
Porque o dinheiro enche uma casa,
mas não silencia o que nos falta.

Houve mãos que magoaram,
e feridas que não posso ignorar.
Mas também houve um riso
que ainda consigo recordar.

Hoje, sentava-me ao seu lado,
sem julgar, sem tentar adivinhar.
Perguntava-lhe apenas:

O que sentes quando estás a cozinhar?

Porque há fortunas que se contam,
e há pazes que não se podem comprar.