Eu vi Eu vi. Bem de longe, mas vi. A... Sofia Pereira
Eu vi
Eu vi.
Bem de longe, mas vi.
A sombra cansada,
o corpo fraco de lutar,
o peso escondido
na forma de continuar.
Não perguntei.
Não era o meu lugar.
Há distâncias
que também são uma forma de cuidado.
Mas vi.
Vi-te olhar o mundo
com olhos para os outros,
guardar palavras,
amparar silêncios,
deixar um pouco de ti
em quem precisava.
E pensei:
quem vê os teus?
Quem repara
quando o sorriso pesa,
quando o corpo pede descanso
e tu continuas?
Talvez nunca saibas
quantas pessoas levam consigo
um pouco da tua bondade.
Talvez quem cuida
raramente veja
até onde chega o cuidado.
Mas chega.
E se algum dia
o mundo te pesar demasiado,
não precisas de me contar o mundo.
Fala-me de elefantes.
De paredes.
Do tempo.
De coisa nenhuma.
Ou não fales.
Há silêncios
que também sabem ficar.
Não te escrevo para salvar-te.
Nem saberia como.
Só para que,
entre tantos olhos
que ensinaste a olhar para dentro,
saibas que houve uns,
bem de longe,
que olharam para ti.
E viram.
