Sidney Silveira
"Piedade é hábito adquirido; santidade é hábito infuso. Estes dois tipos de virtude pertencem a âmbitos entre os quais não existe medida comum: natural e sobrenatural".
"As chagas de Cristo são uma luz insuportável para a consciência humana, que só as consegue contemplar pelo filtro espiritual – protetor – da graça. Para o homem de todos o tempos, é mais fácil fechar os olhos e fugir para o submundo do inconsciente do que aceitar as exigências do Amor assassinado por sua cupidez".
"A detração e o insulto são as armas típicas das pessoas que, encafifadas no estudo da filosofia, não suportam o contraditório, a objeção. Desde os pré-socráticos até hoje, estes nefelibatas multiplicam as objeções com o propósito de sair pela tangente e não responder às que lhes são feitas, para então sacar da cartola uma dúzia de pechas que lançarão sobre a honra dos que ousaram objetar-lhes, neste ou naquele ponto. Se conseguissem olhar as próprias almas diante do espelho, morreriam de susto com o tamanho da hediondez moral em que jazem".
"Nada menos igualitário que a caridade, a qual consiste em amar a Deus acima de todas as coisas.
A caridade não é um ímpeto de benevolência distributiva ou comutativa, um amor cego que põe as coisas amáveis todas num mesmo plano. Ao contrário, ela é "excelentissima virtus" justamente por enxergar a hierarquia de bens existentes na realidade e entregar-se, antes e acima de tudo, ao maior deles: Deus.
Daí defini-la Santo Tomás como "certa amizade do homem a Deus" ("quaedam amicitia hominis ad Deum").
A dileção da caridade, dádiva do céu, é um ato de discernimento, escolha feita de olhos abertos, o que absolutamente nada tem a ver com a lacrimogeneidade enfermiça à qual boa parte dos nossos contemporâneos chama "amor".
"Entre a sagacidade e a astúcia existe diferença de espécie, e esta se dá de acordo com a proveniência: o sagaz é prudente; o astuto, imprudente. Dolo e fraude são frutos da astúcia nascida da imprudência; discernimento e ponderação, da sagacidade oriunda da prudência.
O sagaz conjectura rápida e acertadamente sobre os meios para alcançar um fim bom, ao passo que o astuto conjectura retamente sobre os meios para atingir um fim mau, além de muitas vezes raciocinar tomando como base premissas totalmente equivocadas, quando não estúpidas.
A imprudência não gera apenas a astúcia. Ela induz três hábitos muito feios, que lhe estão indissociavelmente ligados como por um cordão umbilical satânico: a inconsideração, a inconstância e a precipitação. Em verdade, estes são três sintomas da imprudência, assim como a febre é sintoma de alguma inflamação".
"Sempre que, pela falta de virtudes, um homem vê diminuída a sua liberdade interior, essencialmente contemplativa, entroniza n'alma a liberdade política, meramente prática. Ele vive então a quimera de libertar-se por completo das penúrias e turbulências do mundo.
Como isto é impossível, ele transforma a sua liberdade em serva de vontadezinhas medíocres e fugazes, transfigura-a em vertigem de quereres sem freio, jamais satisfeitos plenamente.
Vira escravo duma fome de liberdade infinita, a qual espera ver realizada no plano político".
"O sentimento sente; o amor ama e quer amar, e amando quer servir, e servindo realiza-se num inefável gozo de liberdade".
"Jamais desconfie da sinceridade de uma pessoa que está no pleno exercício gozoso de sua própria estupidez".
"Quem confia demasiadamente em suas próprias forças assume – cedo ou tarde – uma atitude de superioridade e despreza o próximo".
"Uma das vantagens do demônio em seus enganos é que ninguém admite perante terceiros ter feito papel de idiota".
"Ser escravo de um futuro intangível, chamado posteridade; eis o destino trágico dos grandes vaidosos".
