Pedro Amancio

26 - 31 do total de 31 pensamentos de Pedro Amancio

Limites são reais?

Até onde alguém consegue ser feliz? E quão profundo pode chegar o poço da tristeza? Qual medida usamos para determinar o tamanho de uma alegria ou a profundidade de um sofrimento?

Talvez os limites sejam menos reais do que fomos ensinados a acreditar.

Criamos medidas para quase tudo: tempo, distância, peso, velocidade. Mas, quando tentamos medir aquilo que acontece dentro de nós, a régua parece perder o sentido. Não existe uma unidade universal capaz de determinar quanto alguém deve amar, quanto pode desejar, quanto deve sentir prazer ou até onde pode mergulhar em sua própria tristeza.

Sentimentos não foram feitos para serem medidos. Foram feitos para serem vividos.

A experiência humana não precisa pedir autorização para existir. A alegria não precisa ser moderada para ser legítima, assim como a dor não precisa ser pequena para ser verdadeira. Há profundidades da existência que somente podem ser conhecidas quando nos permitimos mergulhar nelas.

O prazer também pertence à natureza humana. É corporal, material e espiritual. Não é, por si só, algo que precise ser condenado ou diminuído simplesmente porque alguém, de fora, decidiu que existe uma quantidade aceitável de prazer para um ser humano experimentar.

Entregar o corpo a si mesmo é permitir que ele conheça suas próprias possibilidades. É deixar de enxergar a existência exclusivamente através da ótica daqueles que estabelecem regras para experiências que não vivem. É reconhecer que o corpo possui sua própria linguagem, seus desejos, suas descobertas e seus limites — limites que, muitas vezes, só podem ser conhecidos pela própria experiência.

Isso não significa negar as consequências dos nossos atos. Significa compreender que viver não é transformar a existência em uma prisão de medidas, culpas e proibições.

Talvez uma das maiores violências contra a vida seja ensinar alguém a ter medo da própria experiência.

Vivemos uma única existência que conhecemos diretamente. E talvez um dos sentidos dessa existência seja justamente experimentar: sentir profundamente, desejar, descobrir, cair, levantar, amar, sofrer, rir, chorar, tocar, contemplar, entregar-se e conhecer a si mesmo através daquilo que se vive.

Não somos máquinas programadas para sentir na medida determinada por outros.

Somos experiência.

E talvez viver seja exatamente isso:

entregar-se à existência sem transformar a própria vida em uma tentativa permanente de fugir dela.

P. H. Amancio

A Janela da Alma e a Porta Tecnológica


Aos poucos, a janela da alma tem sido corrompida pela porta tecnológica.


Os homens, sem espaço de armazenamento interno, transferem o pouco de humanidade que ainda lhes resta para o organismo eletrônico, deixando a própria organela humana sem função. Depositam nas máquinas aquilo que antes guardavam na memória; entregam aos dispositivos aquilo que um dia aprenderam a sentir, pensar e recordar.


As mentes, demasiadamente cheias de inutilidades, caminham silenciosamente para o mundo da facilidade. Já não procuram compreender quando podem simplesmente consultar; já não procuram lembrar quando podem armazenar; já não procuram sentir quando podem registrar.


E, nessa busca incessante pela praticidade, não percebem que estão pagando com aquilo que possuem de mais precioso: a capacidade de serem humanos.


A tecnologia não roubou nossa humanidade de uma só vez. Ela apenas nos ensinou, pouco a pouco, a deixá-la de lado.


E talvez o mais assustador seja perceber que, quando finalmente sentirmos falta dela, já não saberemos onde a deixamos.


P. H. AMANCIO

Antes da alma, o corpo. De P. H. Amancio.




Cuidar do corpo é melhor — e talvez mais difícil — do que cuidar da “alma”.


A alma é agraciada quando o corpo se alimenta bem, dorme bem, abandona lugares ruins, distancia-se de pessoas ruins e larga os vícios em busca de uma vida mais prazerosa.


Talvez tenhamos cometido um erro ao imaginar que, para transformar aquilo que chamamos de alma, precisamos alcançá-la diretamente.


Quando nos sentimos desprotegidos dentro de uma casa, reformamos a casa. Não mexemos diretamente nos moradores.


Por que seria diferente conosco?


Se o corpo é a morada daquilo que chamamos de alma, talvez seja nele que devamos começar a reforma.


Mudamos os hábitos. Mudamos os lugares. Mudamos as companhias. Mudamos aquilo que consumimos. Dormimos quando precisamos dormir. Comemos quando precisamos comer. Afastamo-nos do que nos destrói. Aproximamo-nos do que nos proporciona prazer e segurança.


E, pouco a pouco, aquilo que chamávamos de “alma” começa a habitar uma casa diferente.


O movimento do corpo talvez tenha um propósito mais aceitável do que o movimento da alma.


Porque o corpo não precisa de uma explicação sobrenatural para justificar sua necessidade de movimento. Ele se move porque existe, porque envelhece, porque sente, porque deseja, porque precisa continuar.


Talvez cuidar de si não seja salvar uma alma escondida dentro do corpo.


Talvez seja simplesmente tornar habitável a existência que recebemos.


E, se existe alguma coisa que mereça ser chamada de alma, talvez ela seja apenas o nome que damos àquilo que sentimos quando a casa finalmente começa a parecer nossa.

PÁSSARO SELVAGEM
Por P. H. Amancio.




A quem eu pertenço? Para onde vou eu,
se quem eu escolhi jamais me escolheu?
Por onde caminho, o que me faz ser eu,
se tudo o que desejo só encontro nos braços de Morfeu?


Tira-me das amarras, deixa-me voar,
pássaro selvagem, só o vento sabe onde está.
Veja-me sem medo, com vontade de errar;
se um dia me quiser, precisará me alcançar.


Numa queda livre, encontro-me perdido,
as asas que eu tenho já nem fazem sentido.
Salto pelos muros, digo ao mundo: “Aí vou eu!”,
correndo atrás daquilo que um dia deveria ser meu.


Engano-me sempre naquele canto ao deitar,
inventando histórias de amor que minha história não terá.
Vento, ventania, na janela vem lembrar:
quem é natural não precisa se encontrar.


Talvez eu não pertença a lugar algum,
talvez meu destino seja não pertencer.
Talvez amar seja correr sem saber de onde,
e ser livre seja nunca precisar se prender.


E se um dia alguém me encontrar pelo caminho,
que não tente me mudar, nem me ensine a ficar.
Que apenas caminhe comigo por algum tempo,
porque pássaro selvagem não nasceu para pousar.

ENTREGA A MIM

Mesmo não querendo, eu me entrego para mim.
Quando não percebo, também me entrego para mim.

Eu sou a beleza da minha própria vida.
Eu sou, também, o motivo da minha felicidade.

Experiencio a vida conscientemente e me deleito nos meus próprios pensamentos.

Não sou autossuficiente, tampouco independente.
Mas tenho consciência de que sou livre para gritar o sim que penso.

E sei que tenho exatamente o tempo de que preciso para contemplar todas as coisas que me são possíveis.

Porque, no fim, antes de qualquer entrega ao mundo, existe uma entrega inevitável:

a entrega de mim a mim mesmo.

P. H. Amancio

ESCAPE CRIO


Por P. H. Amancio


1. Definição


Escape Crio é o mecanismo pelo qual um indivíduo, diante da própria falha, culpa ou responsabilidade, desloca a autoria de seus atos para uma entidade, força ou instância superior, produzindo para si uma justificativa capaz de amenizar ou suspender o peso das consequências.


Nesse mecanismo, o indivíduo não necessariamente nega que o acontecimento tenha ocorrido. Ele modifica a sua origem.


O erro continua existindo, mas deixa de ser inteiramente seu.


Assim, aquilo que poderia ser reconhecido como uma escolha passa a ser interpretado como destino; aquilo que poderia ser assumido como responsabilidade passa a ser compreendido como plano; e aquilo que poderia exigir reparação passa a ser explicado pela vontade de uma força superior.


2. A justificativa transferidora


O elemento fundamental do Escape Crio é aquilo que denomino justificativa transferidora.


Ela ocorre quando o indivíduo desloca para outra instância a causa ou a responsabilidade por aquilo que realizou.


Essa instância pode assumir diferentes formas: Deus, destino, forças espirituais, forças negativas, entidades, circunstâncias inevitáveis ou qualquer outra autoridade considerada superior à vontade individual.


A justificativa transferidora não precisa necessariamente ser consciente.


O indivíduo pode acreditar sinceramente que seus atos foram determinados por um plano maior e, ainda assim, utilizar essa crença como uma forma de afastar de si o peso da responsabilidade.


3. A fé como possibilidade de escape


O Escape Crio não constitui uma crítica à fé em si.


Seu objeto é o uso da fé como mecanismo de transferência de responsabilidade.


Uma pessoa pode encontrar na religião sentido, consolo, orientação e responsabilidade moral. Porém, quando a crença passa a funcionar como explicação automática para os próprios erros, surge o Escape Crio.


O indivíduo deixa de perguntar:


«“O que eu fiz?”»


e passa a perguntar:


«“Por que Deus permitiu que isso acontecesse?”»


A segunda pergunta pode ser legítima em determinados contextos. O problema surge quando ela é utilizada para substituir completamente a primeira.


4. A culpa deslocada


A culpa possui uma relação particular com o Escape Crio.


Em vez de desaparecer, ela é deslocada.


O indivíduo sente o desconforto produzido por sua ação, mas procura uma narrativa capaz de retirar de si a responsabilidade direta por ela.


Desse modo, pode afirmar que:


- “era parte de um plano maior”;
- “tinha que acontecer”;
- “uma força negativa me levou a fazer isso”;
- “Deus permitiu que acontecesse”;
- “era meu destino”.


Em todas essas formulações existe uma possibilidade comum: a transformação da responsabilidade pessoal em explicação externa.


A culpa, então, não é necessariamente eliminada.


Ela é reorganizada para que possa ser suportada.


5. O indivíduo e as consequências


O ponto central do Escape Crio está na relação entre erro e consequência.


Assumir um erro significa reconhecer não apenas que algo aconteceu, mas que determinadas consequências pertencem àquele que participou da ação.


O Escape Crio interrompe esse movimento.


Ele cria uma espécie de intervalo entre o indivíduo e aquilo que produziu.


Quanto maior a autoridade atribuída à instância responsável pelo acontecimento, menor pode parecer a responsabilidade daquele que agiu.


Por isso, transferir a culpa para aquilo que não pode responder, contradizer-se ou defender-se pode ser psicologicamente e socialmente mais confortável do que assumir a própria participação.


6. A função comunitária


O Escape Crio também pode adquirir uma dimensão coletiva.


Dentro de determinadas comunidades, algumas justificativas são socialmente mais aceitáveis do que a admissão direta de um erro.


Dizer que algo aconteceu por vontade divina, destino ou influência espiritual pode encontrar maior acolhimento do que simplesmente afirmar:


“Eu errei.”


Nesse contexto, a comunidade pode, conscientemente ou não, contribuir para a manutenção do Escape Crio ao oferecer ao indivíduo uma narrativa pronta para substituir a responsabilização.


A transferência deixa, então, de ser apenas individual.


Ela pode tornar-se cultural.


7. O paradoxo do Escape Crio


Existe um paradoxo fundamental:


quanto mais o indivíduo tenta escapar da culpa, mais precisa reconstruir uma narrativa sobre aquilo que fez.


Ele não apaga o acontecimento.


Ele o interpreta novamente.


O passado permanece, mas recebe uma nova autoria.


É por isso que o Escape Crio não deve ser compreendido como apagamento, mas como reinterpretação defensiva da própria trajetória.


8. Escape Crio e responsabilidade


Assumir responsabilidade não significa necessariamente rejeitar a fé, o destino ou qualquer concepção transcendente.


Significa reconhecer que uma crença não precisa funcionar como substituta da responsabilidade.


Um indivíduo pode acreditar em um plano maior e, simultaneamente, reconhecer:


“Eu fui responsável pelo que fiz.”


É justamente nesse ponto que o Escape Crio pode ser interrompido.


A transcendência deixa de ser um esconderijo para tornar-se uma possibilidade de reflexão.


9. Relação com o Entregacionismo


Dentro do pensamento do Entregacionismo, o Escape Crio pode ser compreendido como um movimento contrário à entrega consciente.


Entregar-se à existência não significa entregar a própria responsabilidade.


Ao contrário: significa estar presente diante daquilo que se vive, inclusive diante das próprias escolhas, perdas, prazeres, erros e consequências.


O Escape Crio procura escapar da experiência da responsabilidade.


A entrega consciente exige atravessá-la.


Nesse sentido, enquanto o Escape Crio procura uma instância externa capaz de absorver a culpa, a entrega consciente reconhece que viver também significa permanecer diante daquilo que se fez.


10. A fórmula do conceito


O conceito pode ser resumido da seguinte maneira:


Ação → culpa → desconforto → transferência → justificativa → alívio → esquecimento forçado.


O problema é que o último estágio não corresponde ao desaparecimento do acontecimento.


Corresponde apenas à tentativa de afastá-lo da consciência.


11. A tese central


O Escape Crio parte de uma constatação simples:


o ser humano pode preferir uma explicação que o absolva a uma verdade que o responsabilize.


Quando isso acontece, a crença deixa de ser apenas uma forma de interpretar a existência e passa a funcionar como instrumento de deslocamento da culpa.


Não se trata de provar que Deus, destino ou forças espirituais existam ou não existam.


Trata-se de observar o que o indivíduo faz com essas ideias quando precisa responder pelos próprios atos.


12. A frase-síntese


Escapar não é anular.
É forçar um esquecimento.


— P. H. Amancio

Inserida por Pedro_Amancio