Coleção pessoal de Pedro_Amancio
ENTREGA A MIM
Mesmo não querendo, eu me entrego para mim.
Quando não percebo, também me entrego para mim.
Eu sou a beleza da minha própria vida.
Eu sou, também, o motivo da minha felicidade.
Experiencio a vida conscientemente e me deleito nos meus próprios pensamentos.
Não sou autossuficiente, tampouco independente.
Mas tenho consciência de que sou livre para gritar o sim que penso.
E sei que tenho exatamente o tempo de que preciso para contemplar todas as coisas que me são possíveis.
Porque, no fim, antes de qualquer entrega ao mundo, existe uma entrega inevitável:
a entrega de mim a mim mesmo.
P. H. Amancio
PÁSSARO SELVAGEM
Por P. H. Amancio.
A quem eu pertenço? Para onde vou eu,
se quem eu escolhi jamais me escolheu?
Por onde caminho, o que me faz ser eu,
se tudo o que desejo só encontro nos braços de Morfeu?
Tira-me das amarras, deixa-me voar,
pássaro selvagem, só o vento sabe onde está.
Veja-me sem medo, com vontade de errar;
se um dia me quiser, precisará me alcançar.
Numa queda livre, encontro-me perdido,
as asas que eu tenho já nem fazem sentido.
Salto pelos muros, digo ao mundo: “Aí vou eu!”,
correndo atrás daquilo que um dia deveria ser meu.
Engano-me sempre naquele canto ao deitar,
inventando histórias de amor que minha história não terá.
Vento, ventania, na janela vem lembrar:
quem é natural não precisa se encontrar.
Talvez eu não pertença a lugar algum,
talvez meu destino seja não pertencer.
Talvez amar seja correr sem saber de onde,
e ser livre seja nunca precisar se prender.
E se um dia alguém me encontrar pelo caminho,
que não tente me mudar, nem me ensine a ficar.
Que apenas caminhe comigo por algum tempo,
porque pássaro selvagem não nasceu para pousar.
Antes da alma, o corpo. De P. H. Amancio.
Cuidar do corpo é melhor — e talvez mais difícil — do que cuidar da “alma”.
A alma é agraciada quando o corpo se alimenta bem, dorme bem, abandona lugares ruins, distancia-se de pessoas ruins e larga os vícios em busca de uma vida mais prazerosa.
Talvez tenhamos cometido um erro ao imaginar que, para transformar aquilo que chamamos de alma, precisamos alcançá-la diretamente.
Quando nos sentimos desprotegidos dentro de uma casa, reformamos a casa. Não mexemos diretamente nos moradores.
Por que seria diferente conosco?
Se o corpo é a morada daquilo que chamamos de alma, talvez seja nele que devamos começar a reforma.
Mudamos os hábitos. Mudamos os lugares. Mudamos as companhias. Mudamos aquilo que consumimos. Dormimos quando precisamos dormir. Comemos quando precisamos comer. Afastamo-nos do que nos destrói. Aproximamo-nos do que nos proporciona prazer e segurança.
E, pouco a pouco, aquilo que chamávamos de “alma” começa a habitar uma casa diferente.
O movimento do corpo talvez tenha um propósito mais aceitável do que o movimento da alma.
Porque o corpo não precisa de uma explicação sobrenatural para justificar sua necessidade de movimento. Ele se move porque existe, porque envelhece, porque sente, porque deseja, porque precisa continuar.
Talvez cuidar de si não seja salvar uma alma escondida dentro do corpo.
Talvez seja simplesmente tornar habitável a existência que recebemos.
E, se existe alguma coisa que mereça ser chamada de alma, talvez ela seja apenas o nome que damos àquilo que sentimos quando a casa finalmente começa a parecer nossa.
A Janela da Alma e a Porta Tecnológica
Aos poucos, a janela da alma tem sido corrompida pela porta tecnológica.
Os homens, sem espaço de armazenamento interno, transferem o pouco de humanidade que ainda lhes resta para o organismo eletrônico, deixando a própria organela humana sem função. Depositam nas máquinas aquilo que antes guardavam na memória; entregam aos dispositivos aquilo que um dia aprenderam a sentir, pensar e recordar.
As mentes, demasiadamente cheias de inutilidades, caminham silenciosamente para o mundo da facilidade. Já não procuram compreender quando podem simplesmente consultar; já não procuram lembrar quando podem armazenar; já não procuram sentir quando podem registrar.
E, nessa busca incessante pela praticidade, não percebem que estão pagando com aquilo que possuem de mais precioso: a capacidade de serem humanos.
A tecnologia não roubou nossa humanidade de uma só vez. Ela apenas nos ensinou, pouco a pouco, a deixá-la de lado.
E talvez o mais assustador seja perceber que, quando finalmente sentirmos falta dela, já não saberemos onde a deixamos.
P. H. AMANCIO
Limites são reais?
Até onde alguém consegue ser feliz? E quão profundo pode chegar o poço da tristeza? Qual medida usamos para determinar o tamanho de uma alegria ou a profundidade de um sofrimento?
Talvez os limites sejam menos reais do que fomos ensinados a acreditar.
Criamos medidas para quase tudo: tempo, distância, peso, velocidade. Mas, quando tentamos medir aquilo que acontece dentro de nós, a régua parece perder o sentido. Não existe uma unidade universal capaz de determinar quanto alguém deve amar, quanto pode desejar, quanto deve sentir prazer ou até onde pode mergulhar em sua própria tristeza.
Sentimentos não foram feitos para serem medidos. Foram feitos para serem vividos.
A experiência humana não precisa pedir autorização para existir. A alegria não precisa ser moderada para ser legítima, assim como a dor não precisa ser pequena para ser verdadeira. Há profundidades da existência que somente podem ser conhecidas quando nos permitimos mergulhar nelas.
O prazer também pertence à natureza humana. É corporal, material e espiritual. Não é, por si só, algo que precise ser condenado ou diminuído simplesmente porque alguém, de fora, decidiu que existe uma quantidade aceitável de prazer para um ser humano experimentar.
Entregar o corpo a si mesmo é permitir que ele conheça suas próprias possibilidades. É deixar de enxergar a existência exclusivamente através da ótica daqueles que estabelecem regras para experiências que não vivem. É reconhecer que o corpo possui sua própria linguagem, seus desejos, suas descobertas e seus limites — limites que, muitas vezes, só podem ser conhecidos pela própria experiência.
Isso não significa negar as consequências dos nossos atos. Significa compreender que viver não é transformar a existência em uma prisão de medidas, culpas e proibições.
Talvez uma das maiores violências contra a vida seja ensinar alguém a ter medo da própria experiência.
Vivemos uma única existência que conhecemos diretamente. E talvez um dos sentidos dessa existência seja justamente experimentar: sentir profundamente, desejar, descobrir, cair, levantar, amar, sofrer, rir, chorar, tocar, contemplar, entregar-se e conhecer a si mesmo através daquilo que se vive.
Não somos máquinas programadas para sentir na medida determinada por outros.
Somos experiência.
E talvez viver seja exatamente isso:
entregar-se à existência sem transformar a própria vida em uma tentativa permanente de fugir dela.
P. H. Amancio
A humanidade — não toda — sente-se vazia por negar a si mesma aquilo que lhe é fonte de prazer e realização. A abstenção do Entregacionismo obscurece a esperança e enfraquece o impulso vital. Entregar-se à existência é participar do movimento inevitável da roda da vida.
Nada há de divino nisso. Nada de místico. Sem rezas, penitências ou promessas de absolvição: apenas o indivíduo diante das próprias vontades.
O desejo foi transformado em pecado por aqueles que temem as consequências da vida — embora, inevitavelmente, também vivam, desejem e se entreguem. O medo jamais extinguiu a vontade; apenas ensinou muitos a escondê-la.
Aquilo que nasce com o ser humano e o acompanha até o último instante não é a razão, nem a moral, nem a identidade social: é a vontade. Boa ou má segundo a óptica da ética, elevada ou condenável segundo o julgamento dos homens — ainda assim, vontade.
Entregar-se não significa abandonar o social, tampouco romper com o outro. Mesmo cercados por multidões, cada existência permanece singular. Toda entrega é íntima antes de tornar-se coletiva.
Não é o nome que torna alguém humano. Não é a pátria. Não são os sentimentos — os animais também conhecem pertencimento, afeto, perda e impulso.
Ser humano é reconhecer e nomear as próprias vontades.
Ser vivo é escolher sem colocar cada impulso na balança do medo.
Ser livre é entregar-se a si mesmo.
E existir é aceitar o movimento.
Há beleza no ato de observar, e há beleza em tudo aquilo que se oferece ao olhar. Pois compreender que tudo o que existe um dia foi nada — e que inevitavelmente caminha para sua própria anulação — revela a profunda compreensão de que o eterno não passa de uma ilusão do desejo, enquanto a finitude se manifesta como a mais autêntica forma de beleza.
O que nasce carrega em si o destino de cessar, e é justamente nessa transitoriedade que reside sua grandeza. Há beleza em tudo o que se desfaz, porque ao alcançar o fim cumpre plenamente sua essência. Existir, completar-se e extinguir-se: eis o ciclo que confere sentido ao ser.
A plenitude não está na permanência, mas na conclusão. E nisso habita o belo.
Canso-me ao lembrar que, no mundo, ainda persistem os que se erguem acima dos outros apenas por se acreditarem superiores.
Inúteis, fúteis, mesquinhos e miseráveis — assim são os que se julgam padrão.
Basta de hipocrisia: os que vendem felicidade são, quase sempre, os mais tristes; os que dizem ter tudo são, no fundo, os mais pobres.
Cansado estou também dos que se fazem de oprimidos para obter o que desejam — isso é ainda pior.
Mulheres, homens, velhos e crianças, todos disputando para chegar primeiro.
Pergunto: onde querem chegar?
Se pensar bem, percebe-se que a linha de chegada para todos é a morte.
Parem de mentir, de forçar sorrisos ou de querer imperar sobre os demais.
Vivam, amem, sintam. O tempo está passando.
Entrega Escrita
Com palavras corriqueiras, eternizo-me no teu agora.
Não faço sentido se não estiver escrito.
Lê-me, relê-me.
Lembra de mim quando pegares no papel.
Sou tua folha e tua tinta.
“Existe beleza em não conhecer as cercas religiosas, pois elas são cultura do cárcere.
Existe beleza na falta de crença: Deus não é crença, ele é.
Existe beleza no erro humano, não como falha, mas como autenticidade.
Existe beleza no feio que pintaram sobre ser feliz — escolher o que se deseja é admirável.
Existe horror em se negar.”
A Ordem Primeira
Sobre Ele, nada;
sem Ele, o que é não pode ser.
Ele é a ordem primeira,
Ele é o fluxo perfeito.
Ele é o criar do dia
e o destruir da noite.
Ele é a entrega perfeita
e a resposta expressa.
Ele é natural.
Esse é a ideia de Deus no Entregacionismo.
Cansado de viver em um mundo onde acordo antes do sol para trabalhar e retorno apenas depois da lua.
Cansado de seguir padrões que em nada me favorecem, moldes que não me cabem.
Cansado de um mundo típico, estruturado para a repetição, mas não para a minha sobrevivência.
Tudo o que desejo é o contrário — e isso soa como loucura.
Mas louco, de verdade, é perceber que a multidão que me julga por pensar e ser assim
carrega, em silêncio, os mesmos desejos que eu
Sintaxe da Existência
Existem pessoas de muitas formas: enquanto uma sorri, a outra chora.
Existem pessoas sem sentimentos; umas são eternas, outras apenas de momentos.
Uma é vírgula tensa: define a pausa, mas não a sentença.
Outra é travessão: exibe a fala de alguém, mas nunca a própria visão.
Há quem seja interrogação, sempre com dúvida no coração.
Há quem seja exclamação: quando aparece, traz emoção.
Há quem se pareça com o ponto e vírgula, cheio de hesitação na vida.
E existem os dotados das ciências, como as reticências —
sabem muito, mas nunca dizem tudo.
A Mão e a Caneta
Ela conhece o seu homem como ninguém;
sabe quando ele falha por dentro
e quando está inteiro.
Não o decifra pelo que diz,
mas pelo peso da mão,
pela tensão do toque,
pela forma como o silêncio pulsa entre os dedos.
Quando ele a toca, ela dança sem nota,
porque não há partitura para o desejo consciente.
Move-se em gestos simples e discretos,
como quem aceita o caminho sem lutar contra ele.
Não há culpa, nem espetáculo.
O amor se mostra direto,
no atrito breve entre pele e ideia.
Marcante e perfeita, ele nunca a rejeita,
pois rejeitá-la seria negar a si mesmo.
É uma união de outro plano:
não de posse, mas de rendição.
A mão não comanda a caneta.
A caneta não domina a mão.
Ambas se entregam ao traço
e deixam que o sentido aconteça.
A vontade de saber e o processo de conhecimento coexistem em múltiplas fendas do tecido do intelecto, como se cada indivíduo carregasse um mapa interno de possibilidades infinitas.
O homem, neste contexto, não é mero receptor de verdades; é o artífice da própria compreensão, movido por um desejo que transcende o simples acumular de informação.
Falar em “conhecimento” é abordar uma entidade relativa: a sabedoria adquirida é sempre parcial, limitada pelas lentes de quem observa, mas a vontade de saber é absoluta — é a força motriz que impele o sujeito a atravessar o abstrato e tocar o realizar.
O conhecimento, portanto, não é estático; é ponte e travessia, movimento consciente do pensar rumo à ação, do conceito à manifestação.
O mundo se apresenta como campo de experiências, um palco onde cada decisão e cada percepção são provas da interação entre o desejo humano e a realidade.
E Deus, na perspectiva entregacionista, não é apenas criador externo, mas sim a lógica imanente que permeia o universo e a consciência:
uma presença silenciosa que estrutura as leis da existência e concede ao homem o poder de descobrir, criar e concretizar.
Assim, compreender não é apenas saber; é transformar-se na própria experiência do saber,
é unir vontade e realização, desejo e ato, mente e mundo.
O conhecimento entregacionista é, acima de tudo, a arte de ser e realizar simultaneamente,
uma dança entre o homem, o cosmos e o princípio divino que tudo estrutura.
Toda revolução começa com o cansaço.
O esgotamento leva o homem a querer algo novo.
Voltar ao passado também é algo novo.
Entregar-se ao acaso da vida é revolução — é o novo.
Depressão, Amante Nada Sigilosa
Não sou mais a prioridade da minha amada.
Ela prefere se deitar com a solidão.
Não me olha mais nos olhos —
só mareja quando pensa nela,
a depressão.
Em casa já não ouço sua voz,
apenas sussurros e soluços.
Não sinto mais seu toque nem seu cheiro,
resta uma lembrança boa
que passa ligeira, como quem não quer ficar.
Já não sei como é ser chamado de amor.
Por que me trocou?
Eu sei que ele — o desespero —
é mais arranque do que eu.
Ainda assim, deixa-me participar
desse cenário de ilusão.
Deitaremos, se me convidar,
os três, então.
Desisto de Entender
Grito na letra e choro na voz
A tristeza e eu
Uma casa que cabe só nós
Peito pequeno que sente muito
Garganta forte que engole o mundo
Meu estômago nem sabe o que é sabor
Mastigo a realidade e engulo o horror
Ah, mundo triste, mundo estranho
Quanto mais eu corro de ti
Em ti, mais e mais eu me entranho
E é real o sentir e o ver
E é o que me dá medo o saber
Quando sei que sei, entendo o nada
Quando o nada me toma, eu sei de tudo
Vivendo sem entender o motivo do passar
Passando sem entender a razão do viver
Vivo e passando sem ter o que entender
Cheio de vazio, lotado de espaço
Cuidando fielmente do meu próprio descaso
“Tempo, Meu Algoz Afetuoso”
No teu pulsar vou me balançar
Contigo caminhar por toda a vida
Se me soltar, já não serei
Perco o nome, perco a razão — tenha compaixão
Sou o som do teu instrumento
Um instante quase esquecido
Sou o sim e também o não
Nasci por ti já condenado
Amigo íntimo do fim
Carrego esse legado
Tempo, maestro da vida
Senhor do agora e do jamais
És o bem, também o mal
Menino velho, caduco
Para o fim, és só um pulo fatal
Deixa-me sentir o prazer de viver
Sem vigiar o meu fim
Nem cheguei a amar direito
Nem sei se alguém gosta de mim
Tempo, meu caro
Dá-me abrigo, dá-me um amparo
Ando cambaleando, desfalecendo
Ontem eu ainda era moço
Hoje já não corro — vou cedendo
Ah, Tempo… há tempos
Tempos que não voltam
Tempos que me roubaram
Tempos que acusam
Tempos que exortam
Tempos que acabaram
