Coleção pessoal de Pedro_Amancio

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A humanidade — não toda — sente-se vazia por negar a si mesma aquilo que lhe é fonte de prazer e realização. A abstenção do Entregacionismo obscurece a esperança e enfraquece o impulso vital. Entregar-se à existência é participar do movimento inevitável da roda da vida.


Nada há de divino nisso. Nada de místico. Sem rezas, penitências ou promessas de absolvição: apenas o indivíduo diante das próprias vontades.


O desejo foi transformado em pecado por aqueles que temem as consequências da vida — embora, inevitavelmente, também vivam, desejem e se entreguem. O medo jamais extinguiu a vontade; apenas ensinou muitos a escondê-la.


Aquilo que nasce com o ser humano e o acompanha até o último instante não é a razão, nem a moral, nem a identidade social: é a vontade. Boa ou má segundo a óptica da ética, elevada ou condenável segundo o julgamento dos homens — ainda assim, vontade.


Entregar-se não significa abandonar o social, tampouco romper com o outro. Mesmo cercados por multidões, cada existência permanece singular. Toda entrega é íntima antes de tornar-se coletiva.


Não é o nome que torna alguém humano. Não é a pátria. Não são os sentimentos — os animais também conhecem pertencimento, afeto, perda e impulso.


Ser humano é reconhecer e nomear as próprias vontades.
Ser vivo é escolher sem colocar cada impulso na balança do medo.
Ser livre é entregar-se a si mesmo.
E existir é aceitar o movimento.

Há beleza no ato de observar, e há beleza em tudo aquilo que se oferece ao olhar. Pois compreender que tudo o que existe um dia foi nada — e que inevitavelmente caminha para sua própria anulação — revela a profunda compreensão de que o eterno não passa de uma ilusão do desejo, enquanto a finitude se manifesta como a mais autêntica forma de beleza.


O que nasce carrega em si o destino de cessar, e é justamente nessa transitoriedade que reside sua grandeza. Há beleza em tudo o que se desfaz, porque ao alcançar o fim cumpre plenamente sua essência. Existir, completar-se e extinguir-se: eis o ciclo que confere sentido ao ser.


A plenitude não está na permanência, mas na conclusão. E nisso habita o belo.

Me entrego à minha eternidade: o agora.
Pois só no presente a existência é infinita.

Canso-me ao lembrar que, no mundo, ainda persistem os que se erguem acima dos outros apenas por se acreditarem superiores.
Inúteis, fúteis, mesquinhos e miseráveis — assim são os que se julgam padrão.
Basta de hipocrisia: os que vendem felicidade são, quase sempre, os mais tristes; os que dizem ter tudo são, no fundo, os mais pobres.
Cansado estou também dos que se fazem de oprimidos para obter o que desejam — isso é ainda pior.


Mulheres, homens, velhos e crianças, todos disputando para chegar primeiro.
Pergunto: onde querem chegar?
Se pensar bem, percebe-se que a linha de chegada para todos é a morte.


Parem de mentir, de forçar sorrisos ou de querer imperar sobre os demais.
Vivam, amem, sintam. O tempo está passando.

Entrega Escrita


Com palavras corriqueiras, eternizo-me no teu agora.
Não faço sentido se não estiver escrito.
Lê-me, relê-me.
Lembra de mim quando pegares no papel.
Sou tua folha e tua tinta.

“Existe beleza em não conhecer as cercas religiosas, pois elas são cultura do cárcere.
Existe beleza na falta de crença: Deus não é crença, ele é.
Existe beleza no erro humano, não como falha, mas como autenticidade.
Existe beleza no feio que pintaram sobre ser feliz — escolher o que se deseja é admirável.
Existe horror em se negar.”

A Ordem Primeira


Sobre Ele, nada;
sem Ele, o que é não pode ser.


Ele é a ordem primeira,
Ele é o fluxo perfeito.


Ele é o criar do dia
e o destruir da noite.


Ele é a entrega perfeita
e a resposta expressa.


Ele é natural.






Esse é a ideia de Deus no Entregacionismo.

Cansado de viver em um mundo onde acordo antes do sol para trabalhar e retorno apenas depois da lua.
Cansado de seguir padrões que em nada me favorecem, moldes que não me cabem.
Cansado de um mundo típico, estruturado para a repetição, mas não para a minha sobrevivência.


Tudo o que desejo é o contrário — e isso soa como loucura.
Mas louco, de verdade, é perceber que a multidão que me julga por pensar e ser assim
carrega, em silêncio, os mesmos desejos que eu

Sintaxe da Existência




Existem pessoas de muitas formas: enquanto uma sorri, a outra chora.
Existem pessoas sem sentimentos; umas são eternas, outras apenas de momentos.


Uma é vírgula tensa: define a pausa, mas não a sentença.
Outra é travessão: exibe a fala de alguém, mas nunca a própria visão.


Há quem seja interrogação, sempre com dúvida no coração.
Há quem seja exclamação: quando aparece, traz emoção.


Há quem se pareça com o ponto e vírgula, cheio de hesitação na vida.
E existem os dotados das ciências, como as reticências —
sabem muito, mas nunca dizem tudo.

A Mão e a Caneta


Ela conhece o seu homem como ninguém;
sabe quando ele falha por dentro
e quando está inteiro.


Não o decifra pelo que diz,
mas pelo peso da mão,
pela tensão do toque,
pela forma como o silêncio pulsa entre os dedos.


Quando ele a toca, ela dança sem nota,
porque não há partitura para o desejo consciente.
Move-se em gestos simples e discretos,
como quem aceita o caminho sem lutar contra ele.


Não há culpa, nem espetáculo.
O amor se mostra direto,
no atrito breve entre pele e ideia.


Marcante e perfeita, ele nunca a rejeita,
pois rejeitá-la seria negar a si mesmo.
É uma união de outro plano:
não de posse, mas de rendição.


A mão não comanda a caneta.
A caneta não domina a mão.
Ambas se entregam ao traço
e deixam que o sentido aconteça.

A vontade de saber e o processo de conhecimento coexistem em múltiplas fendas do tecido do intelecto, como se cada indivíduo carregasse um mapa interno de possibilidades infinitas.
O homem, neste contexto, não é mero receptor de verdades; é o artífice da própria compreensão, movido por um desejo que transcende o simples acumular de informação.


Falar em “conhecimento” é abordar uma entidade relativa: a sabedoria adquirida é sempre parcial, limitada pelas lentes de quem observa, mas a vontade de saber é absoluta — é a força motriz que impele o sujeito a atravessar o abstrato e tocar o realizar.
O conhecimento, portanto, não é estático; é ponte e travessia, movimento consciente do pensar rumo à ação, do conceito à manifestação.


O mundo se apresenta como campo de experiências, um palco onde cada decisão e cada percepção são provas da interação entre o desejo humano e a realidade.
E Deus, na perspectiva entregacionista, não é apenas criador externo, mas sim a lógica imanente que permeia o universo e a consciência:
uma presença silenciosa que estrutura as leis da existência e concede ao homem o poder de descobrir, criar e concretizar.


Assim, compreender não é apenas saber; é transformar-se na própria experiência do saber,
é unir vontade e realização, desejo e ato, mente e mundo.
O conhecimento entregacionista é, acima de tudo, a arte de ser e realizar simultaneamente,
uma dança entre o homem, o cosmos e o princípio divino que tudo estrutura.

Toda revolução começa com o cansaço.
O esgotamento leva o homem a querer algo novo.
Voltar ao passado também é algo novo.
Entregar-se ao acaso da vida é revolução — é o novo.

Depressão, Amante Nada Sigilosa


Não sou mais a prioridade da minha amada.
Ela prefere se deitar com a solidão.
Não me olha mais nos olhos —
só mareja quando pensa nela,
a depressão.


Em casa já não ouço sua voz,
apenas sussurros e soluços.
Não sinto mais seu toque nem seu cheiro,
resta uma lembrança boa
que passa ligeira, como quem não quer ficar.


Já não sei como é ser chamado de amor.
Por que me trocou?
Eu sei que ele — o desespero —
é mais arranque do que eu.
Ainda assim, deixa-me participar
desse cenário de ilusão.


Deitaremos, se me convidar,
os três, então.

Desisto de Entender

Grito na letra e choro na voz
A tristeza e eu
Uma casa que cabe só nós
Peito pequeno que sente muito
Garganta forte que engole o mundo

Meu estômago nem sabe o que é sabor
Mastigo a realidade e engulo o horror
Ah, mundo triste, mundo estranho
Quanto mais eu corro de ti
Em ti, mais e mais eu me entranho

E é real o sentir e o ver
E é o que me dá medo o saber
Quando sei que sei, entendo o nada
Quando o nada me toma, eu sei de tudo

Vivendo sem entender o motivo do passar
Passando sem entender a razão do viver
Vivo e passando sem ter o que entender

Cheio de vazio, lotado de espaço
Cuidando fielmente do meu próprio descaso

“Tempo, Meu Algoz Afetuoso”

No teu pulsar vou me balançar
Contigo caminhar por toda a vida
Se me soltar, já não serei
Perco o nome, perco a razão — tenha compaixão

Sou o som do teu instrumento
Um instante quase esquecido
Sou o sim e também o não
Nasci por ti já condenado
Amigo íntimo do fim
Carrego esse legado

Tempo, maestro da vida
Senhor do agora e do jamais
És o bem, também o mal
Menino velho, caduco
Para o fim, és só um pulo fatal

Deixa-me sentir o prazer de viver
Sem vigiar o meu fim
Nem cheguei a amar direito
Nem sei se alguém gosta de mim

Tempo, meu caro
Dá-me abrigo, dá-me um amparo
Ando cambaleando, desfalecendo
Ontem eu ainda era moço
Hoje já não corro — vou cedendo

Ah, Tempo… há tempos
Tempos que não voltam
Tempos que me roubaram
Tempos que acusam
Tempos que exortam
Tempos que acabaram

Entregar-se ao acaso




Eu, jovem, preso numa monotonia velha,
canso de sorrir
para esconder as lágrimas.


Canso de nadar contra a correnteza
e sempre me ver longe da borda,
muito longe da borda —
que triste.


Não quero morrer assim.
Não quero que esse seja meu fim.
Entrego-me, de corpo e alma, ao acaso.


Não faço mais planos,
nem tento controlar meus dias.
De hoje em diante, apenas viverei:
serei, amarei, gozarei.


Chega. Já me enchi demais.
Comecei a me esvaziar.
A morte não me assusta,
e a vida é uma velha amiga.

ENTREGACIONISMO × CONTROLE


O confronto entre a entrega e a dominação do existir


Há duas forças que atravessam silenciosamente a experiência humana: o impulso de se entregar e a necessidade de controlar. Nenhuma delas é neutra. Nenhuma é inocente. Ambas disputam o centro da existência.


O Entregacionismo nasce como reação. O controle nasce como medo. Entre esses dois polos, o sujeito tenta sobreviver.






I — O CONTROLE: A PROMESSA DE SEGURANÇA


O controle surge como resposta ao caos. Ele organiza, delimita, estrutura. É o esforço humano de transformar o imprevisível em algo administrável. Através dele surgem normas, sistemas, crenças, rotinas, morais.


Controlar é tentar garantir continuidade.


O problema não está em sua origem, mas em sua ambição.
Quando o controle deixa de ser ferramenta e passa a ser finalidade, ele se torna tirânico.


O controle promete:


* segurança
* estabilidade
* previsibilidade
* proteção contra o erro


Mas cobra um preço alto:
a renúncia à experiência viva.


Sob o domínio do controle, o sujeito passa a existir como projeto. Mede-se, compara-se, vigia-se. O erro vira falha moral. O desejo vira ameaça. A dúvida vira pecado.


O controle não suporta o imprevisível — e a vida é, por natureza, imprevisível.






II — O ENTREGACIONISMO: A RECUSA DA DOMINAÇÃO


O Entregacionismo nasce quando o sujeito percebe que o controle não o salvou.


Não é um grito de revolta, mas uma lucidez tardia. A constatação de que nenhuma estrutura conseguiu conter o caos interno, nenhuma promessa garantiu sentido, nenhuma disciplina impediu a perda.


Entregar-se, aqui, não é desistir.
É abandonar a ilusão de domínio.


O entregacionista não rejeita a responsabilidade, mas recusa a tirania do planejamento absoluto. Ele entende que a vida não se deixa capturar por esquemas.


A entrega é um ato de coragem porque exige aceitar:


• a incerteza
• a impermanência
• a fragilidade
• a ausência de garantias


Enquanto o controle tenta congelar o mundo, o Entregacionismo aceita o fluxo.

Entregacionismo é viver sem fingir.
É abandonar padrões impostos, assumir quem se é e encarar a vida com verdade.
Uma filosofia de P. H. Amancio.

Com apenas uma linha e uma agulha, é possível tecer as mais belas peças e bordados. Contudo, com essa mesma linha — tão insignificante — e essa agulha — tão desprezível — também se pode provocar os maiores estragos, a ponto de corromper por completo a integridade de um tecido.


Entregacionismo -

Não é o mundo que destrói o homem.
É o homem que, ao abandonar o sentido, destrói o mundo.


Entregacionismo -