Northon Salomao
A justiça não consiste em tratar todos como iguais diante das diferenças, mas em impedir que as diferenças sejam convertidas em justificativas para a desigualdade arbitrária.
O ser humano criou tribunais para julgar seus semelhantes e filosofias para justificar aquilo que os tribunais não conseguem absolver.
Talvez a maior conquista da razão não seja descobrir respostas, mas impedir que homens armados de certezas transformem dúvidas em crimes.
A religião pode oferecer sentido à existência; o perigo começa quando alguém pretende converter esse sentido pessoal em legislação universal para consciências alheias.
O Estado laico não precisa combater a fé: basta impedir que qualquer fé adquira o monopólio jurídico da consciência.
Entre a fé que admite sua natureza de crença e o dogma que exige ser tratado como evidência existe toda a distância entre humildade e poder.
A democracia não morre somente quando se fecham as urnas; às vezes começa a morrer quando os cidadãos deixam de suportar que o outro pense diferente deles.
Toda época acredita ter superado a barbárie até descobrir que apenas encontrou instrumentos mais sofisticados para praticá-la.
O homem civilizado aprendeu a esconder a violência sob palavras elegantes; talvez seja por isso que algumas injustiças chegam ao tribunal usando gravata.
Pensar livremente é aceitar a possibilidade incômoda de que aquilo que defendemos com maior eloquência seja precisamente aquilo que deveríamos investigar com maior rigor.
Se existe uma aristocracia que merece sobreviver ao tempo, não é a do sangue nem a do dinheiro, mas a da consciência que se recusa a ajoelhar diante da própria ignorância.
Talvez a verdadeira liberdade seja isto: possuir convicções suficientemente profundas para defendê-las e inteligência suficientemente humilde para abandoná-las quando a verdade exigir.
O mundo que conhecemos não chega à consciência em estado bruto; entre a realidade e aquilo que acreditamos ser realidade existe sempre a estrutura de nossa própria percepção.
Por trás da racionalidade com que justificamos nossas escolhas existe uma vontade que frequentemente decide antes que a consciência encontre argumentos para explicar a decisão.
O indivíduo pode escolher aquilo que deseja fazer, mas não escolhe livremente a origem de todos os desejos que determinam aquilo que pretende fazer.
A existência humana oscila entre a dor provocada pelo que desejamos e o vazio que pode surgir quando já não encontramos algo pelo qual desejar.
O desejo nasce da falta; por isso, enquanto desejamos, sofremos pela ausência, e quando alcançamos o objeto desejado, frequentemente descobrimos que a satisfação era apenas temporária.
A realização de um desejo raramente encerra a vontade; muitas vezes apenas abre espaço para uma nova exigência daquilo que ainda não possuímos.
A riqueza pode ampliar possibilidades, mas não possui o poder de estabelecer um limite definitivo para o desejo; quanto mais a vontade recebe, mais pode aprender a exigir.
A solidão não é necessariamente ausência de pessoas; às vezes é a distância entre uma consciência que pensa profundamente e um mundo que não consegue acompanhá-la.
Quanto maior a autonomia intelectual de um indivíduo, menor tende a ser sua dependência da aprovação alheia para sustentar aquilo que pensa.
A compaixão nasce quando a consciência percebe que o sofrimento do outro não é juridicamente ou moralmente irrelevante apenas porque acontece fora dos limites do próprio corpo.
Aquilo que chamamos de realidade já chega à consciência organizado por formas de percepção; conhecer também significa compreender os limites daquele que conhece.
O homem sente-se livre porque percebe suas escolhas, mas frequentemente desconhece as causas profundas que fizeram determinada escolha parecer-lhe desejável.
