Northon Salomao
Quanto mais acumulamos para facilitar a vida, mais complexa parece ficar a arte de simplesmente viver.
Nada é mais perigoso que uma certeza quando ela encontra dinheiro, poder e uma plateia disposta a aplaudir.
O trabalho não necessariamente dignifica ninguém; às vezes apenas oferece uma agenda cheia o suficiente para impedir perguntas incômodas.
Quem aprendeu a fazer boas perguntas já percebeu que muitas respostas são apenas maneiras sofisticadas de encerrar uma conversa.
Reconhecer os limites do conhecimento científico não significa rejeitar a ciência. Significa, justamente, levar a sério a distinção entre evidência, hipótese, interpretação e aquilo que permanece desconhecido.
A ciência deve ser respeitada por sua capacidade de produzir conhecimento verificável, mas não deve ser utilizada para responder, por decreto, perguntas que pertencem a outros domínios epistemológicos.
A ciência investiga aquilo que pode ser demonstrado; a sabedoria começa quando reconhecemos aquilo que ainda não pode.
O Direito procura a justiça entre os homens; a ciência procura evidências sobre o mundo. Confundi-los é tão perigoso quanto separá-los completamente.
A ciência pode explicar como uma crença se forma sem precisar decidir se aquilo em que se acredita é metafisicamente verdadeiro.
O Estado laico não precisa ser ateu; precisa apenas não transformar uma hipótese sobre o absoluto em obrigação jurídica para todos.
A liberdade de consciência começa quando o Estado reconhece que nem toda verdade religiosa pode ser convertida em verdade jurídica.
A ciência não destrói Deus; apenas se recusa a colocar uma hipótese metafísica onde uma evidência empírica é exigida.
Entre o dogma religioso e o dogma cientificista existe uma fronteira preciosa: a humildade epistemológica.
O agnóstico não necessariamente duvida de Deus; duvida da pretensão humana de possuir uma resposta definitiva sobre Deus.
O Direito deveria proteger tanto a liberdade de acreditar quanto a liberdade de não transformar crença em prova.
Uma sociedade racional não precisa eliminar o sagrado; precisa impedir que o sagrado elimine a dúvida.
A fé pode habitar a consciência; a lei precisa habitar o espaço comum onde consciências diferentes possam coexistir.
A ciência muda quando a evidência muda; o dogma muda apenas quando deixa de conseguir impedir a mudança.
Talvez a maior contribuição da ciência à filosofia tenha sido ensinar ao homem que sua intuição não é uma autoridade sobre a realidade.
O cérebro fabrica certezas com extraordinária facilidade; a ciência existe, em parte, para interrogá-las.
