Northon Salomao
Existir é caminhar, desde o primeiro instante, em direção à única certeza que nenhuma filosofia consegue revogar: a morte.
A morte é a possibilidade extrema que encerra todas as outras possibilidades e, justamente por isso, confere gravidade à existência.
Questionar é admitir que aquilo que julgávamos saber talvez fosse apenas uma forma sofisticada de não perguntar.
O tempo não passa diante de nós; somos nós que passamos por ele, enquanto cada instante silenciosamente transforma o que fomos no que já não podemos ser.
A existência autêntica começa quando deixamos de viver segundo o roteiro alheio e assumimos a autoria incômoda de nossa própria finitude.
Talvez apenas o sagrado, e não a técnica, possa devolver ao homem o silêncio necessário para ouvir aquilo que sua própria civilização tornou inaudível.
Talvez o primeiro problema da filosofia seja descobrir se a vida merece ser abandonada antes que tenhamos compreendido por que desejamos abandoná-la.
O absurdo nasce quando a inteligência exige uma resposta e o universo, indiferente às nossas perguntas, devolve apenas silêncio.
Sísifo não vence a montanha; vence o instante em que compreende que nenhuma montanha precisa determinar a dignidade de quem a enfrenta.
Mesmo quando o inverno parece absoluto, alguma região da alma conserva secretamente a estação que a morte ainda não conseguiu destruir.
A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em não sacrificar inteiramente o presente em nome de uma promessa que talvez nunca chegue.
A liberdade começa quando compreendemos que nenhuma ausência de correntes nos poupa da responsabilidade de escolher o caminho.
A revolta é a dignidade erguida contra o absurdo, o instante em que o homem decide que o sofrimento não terá a última palavra.
Ser privado de amor é uma ferida; tornar-se incapaz de amar é transformar a própria alma em território desabitado.
Viver talvez não seja derrotar o absurdo, mas recusá-lo como argumento suficiente para desistir da existência.
A grandeza humana talvez consista menos em vencer o destino do que em não permitir que ele determine inteiramente o significado de nossa passagem pelo mundo.
Filosofar é abandonar a segurança das respostas para aproximar-se, com lucidez e humildade, daquilo que nenhuma resposta consegue encerrar.
A existência somente se revela plenamente quando deixa de ser monólogo e se transforma em encontro entre consciências que aceitam não possuir uma à outra.
Há situações que não podem ser vencidas, apenas atravessadas; nelas, a existência descobre uma verdade que nenhuma vitória poderia ensinar.
Tornamo-nos nós mesmos quando o outro deixa de ser objeto de nossa consciência e passa a ser presença indispensável à nossa própria existência.
A verdade raramente nasce do isolamento; muitas vezes ela começa quando duas consciências ousam discordar sem destruir a possibilidade do diálogo.
Não somos apenas aquilo que recebemos do mundo, mas também aquilo que, diante dele, decidimos fazer de nós mesmos.
Entre aquilo que somos biologicamente e aquilo que podemos tornar-nos existe o território aberto da liberdade.
Toda liberdade genuína traz consigo uma sombra inevitável: a responsabilidade por aquilo que escolhemos fazer com ela.
Nas situações-limite, a existência encontra fronteiras que a vontade não pode abolir e que, justamente por isso, revelam sua verdadeira medida.
